The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Dez anos!!!

Foi há precisamente dez anos, no dia 26 de Março de 2004, que decidi começar o ressabiator, ainda no blogspot. Outros tempos. Neste momento, já se discute se os blogues morreram, se o facebook está a morrer, etc. Para mim, ainda são uma experiência essencial. É com eles que aprendo todos os dias a ser em público. E entretanto, claro, vou dando conferências, escrevo artigos, publiquei a monumentânea, o Design em Tempos de Crise, etc. Tenho-me multiplicado pelo facebook e (menos) pelo twitter e pelo tumblr, mas não passo sem o blog. Desde 2004, escrevi 1600 posts (a contar com este). Queria comemorar o décimo aniversário do blogue com mais pompa e circunstância, com o lançamento de mais outra monumentânea, mas teve que ser assim. Estive em mudanças domésticas e o segundo semestre não perdoa.

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Negócios

Não posso falar quase nada sobre o assunto, porque ainda não está pronto, ainda eram só imagem num ecrã, páginas com  fotografias cinzentas. Algumas ainda tinham pormenores fora do sítio, que arranhavam, outras cortavam a respiração. Davam o tal murro no estômago. Era bom design, feito por uma artista plástica, não para um cliente, para um serviço para o comércio. Foi um privilégio vê-lo.

Na avaliação do design, tenho procurado sempre começar pelo objecto. Evito vê-lo como o resultado de uma negociação entre um designer e um cliente, porque todos os objectos culturais são negociações entre muito mais protagonistas. Acreditar que a relação entre um designer e um cliente as resume seria ingénuo. Um designer não negoceia só com o cliente mas com a sua formação, com os seus colegas, vivos e mortos, com a história, com a tecnologia, etc.

Mesmo depois de pronto, o trabalho continua a ser disputado e negociado. Se não o é, é porque foi esquecido.

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Design e 25 de Abril

Quanto a associar-se o design ao 25 de Abril, não me parece que seja um problema. A questão está em trabalhar directamente para, mais do que um governo, para um regime que tão pouco fez pela cultura, pela ciência ou pelo chamados valores de Abril.E que não se incomoda a requisitar cultura em cima do joelho, tarde e a más horas, quando precisa de foguetório intelectual.

A minha opção pessoal seria não participar.

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Fidelização

Comprei o meu primeiro smartphone, um LG, muito barato, porque o troquei por pontos, que são uma forma de fidelização. Quanto mais se fica num operador, mais pontos se tem. Foi um péssimo negócio porque era um péssimo telemóvel. Em pouco tempo, semanas, demorava cinco minutos ou mais a reiniciar. Às vezes, bloqueava a fazer uma chamada, eu desistia e passado dez minutos ouvia uma vozinha a dizer de dentro do meu bolso: “Estou? Estou?” Tentei trocá-lo por outro modelo, mas disseram-me que estava obrigado a usá-lo. Fidelização. Não bastava o tempo que tinha gasto a ganhar pontos, ainda era preciso passar outro tanto tempo antes de me livrar daquela treta. Acabei por comprar outro telemóvel, desbloqueado. Precisava de um chip mais pequeno e fui à minha operadora pedi-lo, uma coisa gratuita. Teria sido rápido se não tivesse que gramar, como já é da praxe, com o funcionário a tentar vender-me um novo tarifário mais vantajoso que o meu actual que outro funcionário me tinha impingido nem dois meses antes. Com a devida fidelização.

Dantes estava-se preso por dívidas agora fica-se preso por formas encapotadas de dívida que são as “fidelizações”.

E, quando se fala de austeridade até 2035, eu já só vejo uma forma mais extrema de fidelização. Quando sei que vou ser governado quatro anos por um governo que atira fora as promessas de venda mal consegue a assinatura do cliente, a mesma coisa.

São tudo instâncias de uma nova forma de contrato que sujeita uma parte fraca a uma parte forte durante um dado período de tempo. A democracia capitalista entendida como a liberdade do consumidor escolher quem lhe fornece o melhor serviço? Esqueçam.

 

 

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Ser pago

Desde há muitos anos que não me interessa particularmente a luta pelo reconhecimento do design enquanto profissão, tal como não me interessa o reconhecimento dos arquitectos ou dos artistas. Acredito que, em áreas como estas, o que define o profissionalismo (ou, mais simplesmente, o trabalho) é, muito simplesmente, ser-se pago. A questão da qualidade ou quantidade do que está a ser pago é irrelevante. Se alguém, uma das pessoas com pior gosto do mundo decidir encomendar design, arte ou arquitectura a outra pessoa, de gosto igual ou pior ao da primeira, eu acredito que esse trabalho deverá ser pago – independentemente da formação de cada um.

Confundir qualidade estética com direitos laborais só garante que a própria existência de uma remuneração é uma questão estética, fica ao critério de cada um. E, na maioria dos casos, não se trata sequer de dizer que o melhor trabalho deve ser pago mas que o pior trabalho não o deve ser. É, em parte, essa estetização do trabalho que leva a que se ache normal (e até bom) pagar a alguém em iogurtes. Ou em satisfação. Ou o que seja, desde que não seja dinheiro.

 

 

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Cabeça no Ar

baixachiado

Vasco Pulido Valente anda distraído. Às vezes, chega a ser cómico. Há uns tempos queixava-se porque razão ninguém se tinha mexido para salvar a Livraria Sá da Costa, quando houve um movimento para o fazer com direito a cobertura televisiva. Hoje gaba (e bem) o livro de Michael J. Sandel, What Money Can’t Buy, um alerta sobre os limites morais do mercado, sobre as consequências éticas e cívicas de tudo estar à venda. E conclui, retoricamente: “Um benfiquista gostava que o Estádio da Luz se começasse a chamar Estádio da PT? Um lisboeta gostaria que a estação de metro do Chiado recebesse o nome de Samsung?” Já faz uns anos que a estação de Metro do Chiado se chama Baixa-Chiado PT Blue Station, e isso até foi alvo de uma campanha de subvertising. Não se pode saber tudo, claro, mas pergunto-me se os jornais ainda terão fact checkers que não deixem os seus colunistas informarem mal o leitor e embaraçarem-se a si mesmos e a quem os emprega.

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Coda

Saiu-me no facebook, e resume o que penso sobre o assunto: é mais importante fazer design como deve ser do que ser designer como deve ser.

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Ex-Designers de Qualidade

Ainda sobre o último e o penúltimo texto: a minha queixa é estética mas também política. Tenho visto objectos interessantes e tenho recebido os tais murros no estômago mas de direcções inesperadas, de sítios e pessoas que hesitam a usar os nomes design e designers, mesmo que a sua formação seja essa. O design, contaminado pelo empreendedorismo, fechou-se, tornou-se monotemático. Assim, quem queira usá-lo, as suas ferramentas, métodos e tradições, mas não queira ser empreendedor, sinérgico ou o diabo-a-quatro, não tem outro remédio senão preferir não ser designer. Deixar o osso ao cãozito mais histérico. Leia o resto deste artigo »

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Designer-como-Empreendedor

crowbar-studios-the-design-entrepreneur

O texto de ontem teve direito a discussão no facebook. E a certa altura dizia eu que o”emprendedorismo e a inovação trouxeram ao design a era do ‘meh…’ – saímos da era do Designer como Autor para a era do designer-quando-for-grande-quero-ser-estagiário-competente.”

Vale a pena desenvolver mais esta ideia e, mais concretamente, lembrar que o Designer como Autor, numa das suas muitas versões, a proposta por Steven Heller, equivalia muito explicitamente à ideia do Designer como Empreendedor – ou “Authorpreneur”. O que Heller propunha (e que concretizou no seu Mestrado na School of Visual Arts, intitulado The Designer as Author) era uma nova metodologia para o designer onde este não ficava à espera de propostas vindas dos seus clientes mas criava os seus próprios negócios. Leia o resto deste artigo »

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Ò! Designers!

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Quase me esqueço que este já foi um blog sobre design e sobretudo gráfico! Eu bem tenho tentado mas, a bem da verdade, não tenho visto muita coisa que me dê um murro no estômago. Que me arranque. Sobretudo por aqui em Portugal e em especial no Porto.Vi uns cartazes colados na rua mas era só a cor viva e pouco mais. Nem fotografei. O facebook também não me atira com nada. Dantes, sabia que podia dar uma olhadela às instituições culturais (museus, fundações e tal) mas também aí fica a sensação que se cumpre o expediente. O resto? Design para o segmento de luxo, o gurmê – nem me dou ao trabalho. E coisas feitas para exportar, que por aqui nem se vêem. A resposta do design à crise é igualzinha à do próprio país. Que nos dizem que está melhor apesar (literalmente, o mais possível) de tudo, mas mesmo tudo. Não há nada por aí a bulir?

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O outro lado do espelho

Hoje, comprei em segunda mão o livro de um ex-melhor amigo que entretanto se tornou um poeta conhecido.¹ Foi o meu primeiro grande ex-amigo, há mais de vinte anos. A iniciativa de acabar com a amizade foi dele e marcou-me muito. Demorei anos a ultrapassá-la, embora o tenha arrumado rapidamente na prateleira dos parvalhões. Se falo disso, e se comprei o livro, é porque tento fazer regularmente o exercício de separar o trabalho da pessoa. Prefiro não saber da vida das pessoas. Conhecer alguém não nos dá uma compreensão melhor do seu trabalho. Não gosto de jantar ou sair com designers, artistas, escritores, realizadores ou actores apenas por serem designers, artistas, escritores, realizadores ou actores. O meu ex-amigo, por exemplo, ainda usa formatos que começámos a experimentar juntos e nos quais nunca mais peguei. Duvido que isso faça diferença a mais alguém para além de mim ou (talvez; pouco provavelmente) dele. Leia o resto deste artigo »

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Pulp

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Desde que mudei outra vez para o Porto tenho ido mais a Lisboa do que quando vivia metade do tempo lá, é verdade. Só significa que já não tenho casa onde ficar ao fim de semana. Vivo em sofás, caminhas e arrumos, que agradeço mas, na minha idade, prefiro camas grandes e acordar todos os dias virado para as mesmas vistas.  Fiz questão de ficar no Porto este fim de semana. Fiz questão de não fazer muito, de procrastinar (Ou nem isso: nem fazer de conta que vou trabalhar. Desculpem-me a franqueza os que esperam algum trabalho de mim. Preciso de descanso. De fazer como na adolescência, quando aproveitava o primeiro mês das férias grandes para não ter planos, nem horários, nem empregos, decidir tudo de impulso. Ou, o mais das vezes, ficar a dormir na varanda nos intervalos de ler um livro escolhido quase à sorte na biblioteca do meu pai. Esvaziar os dias até aparecerem por debaixo deles as  minhas prioridades.)

Assim, ler: Iain M. Banks em The Use of Weapons que me dizem ser a melhor história do ciclo que dedicou à Cultura. Fatale, de Ed Brubaker e Sean Phillips, uma banda desenhada perfeita para a minha obsessão do momento, o Noir/Pulp, cruzado com H.P. Lovecraft. Na mesma onda (sem Lovecraft), vi o último episódio da segunda temporada de Banshee,  um delírio pulp – que originalmente significava o papel barato, polpa, suponho, em que se imprimiam os folhetins – mas aqui também é polpa no sentido de corpos batidos, baleados, abraçados e exprimidos até ao limite. É de uma xunguidão absurda e contínua, difícil de descrever, mas funciona.

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Obrigado

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Ando com mais trabalho do que o costume, daí o silêncio por estas bandas. Interrompo apenas para dizer que gostei bastante de debater o trabalho e a precariedade em design no Sábado passado. A discussão foi estimulante. O sítio, um antigo hotel da Avenida da Liberdade projectado pelo Cassiano Branco, era magnífico. E, como se isso não bastasse, ainda recebi uma magnífica prenda de anos do Manuel Quadros e Costa (que me convidou): dois Cadernos da Politika e a segunda edição do Manual do Tipógrafo (andava há que tempos para por as mãos em qualquer um deles). Muito obrigado!!!

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Desistir

Apercebi-me hoje que programei pela última vez há uns dez anos. Desde então fiz algumas coisas pequenas – curvas de Bezier interactivas em Processing, para demonstrar aos alunos como funcionam – mas nunca nada de substantivo. Nunca mais passei noites a fio acordado a tentar completar um programa. Eu tinha um gosto obsessivo por tudo aquilo: fiz motores 3D toscos, simuladores de gravidade e de elasticidade. Aprendi e reaprendi o cálculo diferencial, a trigonometria – o que para um aluno de Belas Artes é quase tão duro como fazer fisioterapia depois de uma perda catastrófica de mobilidade.

Depois parei, seis anos depois de ter começado. O que faz com que uma pessoa desista de algo, sobretudo quando o fez obsessivamente durante anos? Leia o resto deste artigo »

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Foie Gras

No meio dos trabalhos e das teses, chegou-me hoje pelo facebook a promessa de uma app capaz de me pôr a ler mais de 500 palavras por minuto. É tentador: punha-me a ler um paper a cada dois minutos, o que duvido que me tornasse a vida mais agradável. Estas e outras apps só darão mais uma desculpa aos meus patrões para tornar o ensino ainda mais num aviário – com a única e relevante diferença que no aviário académico são aves a cuidar de outras aves.

Não: para ler é preciso condições. A liberdade consiste aqui em poder escolher o que se lê. Abundância e liberdade não são a mesma coisa, como qualquer animal engordado à força bem sabe.

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Debate

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Neste Sábado, vou participar num debate sobre um dos meus temas mais tristemente favoritos: o trabalho do design, a sua precariedade e o que fazer para melhorar a situação. Aproveito para agradecer o simpático (e paciente) convite do Manuel Quadros e Costa da Oficina Grotesca.

 

 

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Bumerangues

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Em casa da minha tia-avó na Régua, havia um maço de Selecções do Reader’s Digest brasileiras, empoeiradas, dos anos 40 e 50. Gostava das cores vivas das poucas fotografias, das ilustrações lineares que serviam de cabeçalho aos artigos. Destes, gostava sobretudo das reportagens sobre crime, sobre as possibilidades e consequências da energia atómica e de uns tantos artigos sobre o arquitecto Frank Lloyd Wright, um deles escrito (o meu preferido) pelo realizador de ficção científica Arch Oboler. Leia o resto deste artigo »

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A Nova Performance

Da dúzia de performances a que fui assistindo ao longo dos últimos anos, a maioria (talvez a totalidade; não me lembro, ou tomei notas) consistiu em alguém a ler de pé um texto a partir de um maço de folhas A4 agrafadas num canto. Os textos podiam ser longos ou curtos mas foram sempre lidos no mesmo tom calmo, informal, não-declamado.

Como muita gente, habituei-me a pensar numa performance como algo físico, extremo, senão para a audiência pelo menos (e com toda a certeza) para o performer. Estas são coisas suaves, literárias. Leia o resto deste artigo »

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Automóveis, Faturas, Rodas e Sorte

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No começo da década de 90, vi os primeiros episódios da Roda da Sorte apresentada pelo Herman José à hora do jantar, num restaurante barato num quelho junto à Avenida dos Aliados no Porto. Foi no primeiro ano a estudar fora de casa, não sei se ainda na Soares dos Reis ou já nas Belas Artes. Na altura, não me dei conta, mas, hoje, com distância, sei que A Roda da Sorte foi para mim um dos epicentros do Cavaquismo. Era anárquica, inesperada, extrema, mas também mais qualquer coisa do que isso: mais do que comédia ao vivo, mais do que stand-up, mais do que um concurso, não era apenas a oportunidade de um concorrente lutar por um prémio usando a sua sorte e o seu talento, mas de fazê-lo contra um comediante, o melhor da altura. Leia o resto deste artigo »

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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