The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Automóveis, Faturas, Rodas e Sorte

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No começo da década de 90, vi os primeiros episódios da Roda da Sorte apresentada pelo Herman José à hora do jantar, num restaurante barato num quelho junto à Avenida dos Aliados no Porto. Foi no primeiro ano a estudar fora de casa, não sei se ainda na Soares dos Reis ou já nas Belas Artes. Na altura, não me dei conta, mas, hoje, com distância, sei que A Roda da Sorte foi para mim um dos epicentros do Cavaquismo. Era anárquica, inesperada, extrema, mas também mais qualquer coisa do que isso: mais do que comédia ao vivo, mais do que stand-up, mais do que um concurso, não era apenas a oportunidade de um concorrente lutar por um prémio usando a sua sorte e o seu talento, mas de fazê-lo contra um comediante, o melhor da altura.

Antes do Herman entrar para o concurso, lembro-me de se dizer que se estava a vender. Ou dizia-se que não, que iria subverter o formato. O resultado final foi bastante mais interessante: ele subverteu o concurso vendendo-se ao vivo perante os seus espectadores. Tornou-se comum exibir o seu Rolex novo; arranjou maneira de mostrar o seu descapotável, simulando um atraso – o que num programa inteiramente filmado em estúdio não deve ter sido uma despesa trivial. Mesmo na última emissão, quando destruiu a tiro o cenário, um amigo meu mais informado chamou-me a atenção para o preço da caçadeira, aparentemente um autêntico Rolls Royce das armas de caça (imagem acima).

Não sei se o Herman enriqueceu durante a Roda da Sorte. Não faço ideia se já tinha dinheiro, se vinha de uma família bem. Mas, com toda a certeza, foi durante esse programa que a comédia e a própria sociedade portuguesa perderam a vergonha de parecer ricas.

Os heróis tradicionais da comédia portuguesa – de António Silva a Camilo de Oliveira passando por Raúl Solnado – eram gente pobre, esperta ou perplexa, em geral representada por gente de classes médias ou altas. A representação pública, mediática, da pobreza sempre foi decidida a partir de cima. Durante a Roda da Sorte, o esquema mudou: surgiu um novo personagem: o rico, já não como um objecto de gozo, um capacho obtuso, mas um protagonista, um sujeito, que já não proclamava os seus valores disfarçando-se de povo, mas directamente, frente a frente e sem subterfúgios – “Brincar aos pobrezinhos” sempre foi a modalidade por defeito das classes altas portuguesas; não é coisa recente. Nem é particularmente subversivo. Se choca é pelo tradicionalismo: pelo regresso do velho hábito das classes mais altas assumirem a identidade da pobreza.

A emissão da Roda da Sorte coincidiu quase exactamente com a duração da revista Kapa, outro epicentro do Cavaquismo. Também aqui se construía uma identidade à volta de um hedonismo orgulhoso. Da ideia de construir uma identidade não em torno da família, da classe ou do lugar de origem, mas do que se consumia. De um artigo sobre Cavaco na Kapa:

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E repare-se no homem do povo que ilustra o artigo, a receber o prémio de sonho, o automóvel:

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Para países pobres como Portugal, os concursos exportam melhor do que os formatos de ficção. Têm também melhor adesão do que uma novela porque recompensam literalmente o seu público mais dedicado. Se as novelas podem fazer pedagogia social, como se vê no Brasil; os concursos também. Já tinha referido em outras ocasiões como o automóvel foi promovido em Portugal como o prémio de sonho por defeito, levando a uma cultura do transporte individual.

É portanto natural que o prémio da Fatura da Sorte seja um automóvel. É um prémio na sua essência conservador e tradicionalista. Os concursos mais recentes já não oferecem prémios mas são como entrevistas de emprego prolongadas. Este concurso parece quase respeitável, por comparação.

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Filed under: Crítica

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