The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Nova Performance

Da dúzia de performances a que fui assistindo ao longo dos últimos anos, a maioria (talvez a totalidade; não me lembro, ou tomei notas) consistiu em alguém a ler de pé um texto a partir de um maço de folhas A4 agrafadas num canto. Os textos podiam ser longos ou curtos mas foram sempre lidos no mesmo tom calmo, informal, não-declamado.

Como muita gente, habituei-me a pensar numa performance como algo físico, extremo, senão para a audiência pelo menos (e com toda a certeza) para o performer. Estas são coisas suaves, literárias.

Por contraste, conheço artistas, poucos, que fazem questão de ter trabalho extenuante, duro, às vezes perigoso, enquanto produzem as suas peças, mas não perante um público. É um esforço, sobretudo ético, que fica implícito na obra mas não se traduz numa performance. Para alguns artistas é preciso saber (mesmo que apenas para si próprios) que o seu trabalho deu trabalho.

Desconfio que, quando se fizeram as primeiras performances, a intenção era semelhante. Talvez uma necessidade de demonstrar que o trabalho intelectual do artista implicava tanto ou mais labor do que outra coisa qualquer. De trazer um esforço físico e extremo para contextos urbanos, onde o emprego por defeito era mecânico ou burocrático.

Entretanto, tornou-se difícil ver o esforço físico extremo como algo subversivo ou chocante, quando é habitual ver gente comum pela rua a treinar para maratonas, aos pares, às dezenas. Alguns são ultra-maratonistas – gente que corre continuamente não meia dúzia mas centenas de quilómetros.

Ainda somos uma sociedade de serviços, cujo trabalho é feito em escritórios, mas onde o culto da forma física, dos ginásios e da corrida, se tornou num modo simples de manter a saúde e o bom aspecto, mas também de manter um certo grau de controle sobre si mesmo e sobre a própria vida.

No limite, trata-se de competição, reduzida a um nível quase individual, consigo própria, numa sociedade construída à volta disso.

Ou de sentir finalmente o nosso próprio corpo num ambiente onde vivemos rodeados de imagens distantes de corpos, retocados, trabalhados, etc.

(Se uma coisa é feita por muita gente, se é uma moda, não é por uma única razão mas porque satisfaz as necessidades de muita gente, por vezes contraditórias entre si.)

No contexto igualmente competitivo das artes contemporâneas, a performance física ainda é respeitada, mas do modo que se respeita os clássicos: muita gente a admira, pouca gente a pratica.

É preciso coragem para ler um texto perante uma multidão mas não é muito diferente de apresentar uma comunicação num congresso. Talvez estas novas performances ilustrem uma necessidade de reintelectualizar a arte, de a tornar algo mais literário por oposição a uma sociedade cada vez mais física, carnal, na sua cultura, nos seus passatempos, no seu quotidiano – mas não me parece que seja só isso.

Penso que se trata de tornar mais físico, nem que seja por um momento, de expor, todo o trabalho burocrático que são neste momento as artes. A exposição clássica – ou seja: a articulação de um conjunto de objectos ou fenómenos sobre o chão e(ou) as paredes de um espaço – só ao de leve chega para provar o trabalho que tudo aquilo deu. A legenda alargada que é a folha de sala ou o catálogo já são insuficientes para isso.

A leitura de um texto garante uma voz ao artista no meio da selva de discursos concorrentes que é a arte contemporânea. Garante que a obra não fica muda, que ainda fala por si, que não é inteiramente neutra em relação a todo o ambiente que a organiza, cataloga, apresenta, cura, expõe. No fundo, mostra que ainda é trabalho.

Anúncios

Filed under: Crítica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: