The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Desistir

Apercebi-me hoje que programei pela última vez há uns dez anos. Desde então fiz algumas coisas pequenas – curvas de Bezier interactivas em Processing, para demonstrar aos alunos como funcionam – mas nunca nada de substantivo. Nunca mais passei noites a fio acordado a tentar completar um programa. Eu tinha um gosto obsessivo por tudo aquilo: fiz motores 3D toscos, simuladores de gravidade e de elasticidade. Aprendi e reaprendi o cálculo diferencial, a trigonometria – o que para um aluno de Belas Artes é quase tão duro como fazer fisioterapia depois de uma perda catastrófica de mobilidade.

Depois parei, seis anos depois de ter começado. O que faz com que uma pessoa desista de algo, sobretudo quando o fez obsessivamente durante anos?

Já tinha desistido de uma coisa importante antes, a banda desenhada, e fi-lo pelas mesmas razões: algo que fazia por gosto e curiosidade tornou-se num fardo. No caso da programação, perdi a paciência. Conseguia passar dias a pensar num problema mas já não tinha paciência para o modo como se falava de programar nas artes. Cansei-me de ouvir gente que nunca tinha jogado um jogo de computador a falar sobre jogos. De gente que (obviamente) nunca tinha programado o que quer que seja a falar de cultura digital, e nem sequer do ponto de vista do utilizador mas do produtor ou do legislador, de perceber ou prescrever a natureza da coisa. Era como ver gente que se recusava a entrar num cinema e que de um filme só conhecia fotogramas impressos em papel de jornal a fazer crítica e teoria de cinema. Cansei-me.

Entretanto, apareceu uma geração de artistas e designers com mais conhecimento de causa, mas para mim já era tarde demais.

No caso da banda desenhada, foi a consciência que não lhe podia dedicar o tempo necessário para ser realmente bom. David Foster Wallace descrevia numa entrevista a consciência de nunca vir a ser um profissional do ténis e também falava do tempo. Parei com a BD mais ou menos na mesma altura em que deixei de programar, quando comecei a dar aulas e comecei o blogue. Em retrospectiva, as minhas últimas histórias já eram ensaios de crítica em banda desenhada (uma sobre um crítico de arte/assassino por contracto, outra sobre pintura americana do período da Revolução, e uma última sobre boxe, para acompanhar uma performance da Isabel Carvalho).

Da escrita, ou mais exactamente da crítica, ainda não sinto tentações ou prenúncios de desistir. Às vezes, sinto-os em relação às conferências. Gosto do formato, quando o posso preparar com tempo, o que se tem tornado raro. Para uma conferência de uma hora o ideal seria ter a preparação equivalente à de escrever um pequeno livro. Noto que praticamente deixei de frequentar conferências, prefiro ler. E assim penso: porquê dar a conferência? Porque não escrever um livro que funciona como uma versão automatizada de mim mesmo?

Ainda dou conferências porque faz parte da minha profissão (uma daquelas partes não-remuneradas) mas não é uma resposta completa. Desde novito que tive problemas de dicção. Dizem-me que falo para dentro; não é uma coisa da qual tenha consciência directa. Procuro os sinais disso nas pessoas que me ouvem, e tento resolver o problema melhorando a dicção e projectando mais a voz. Mas não é uma coisa natural em mim. Quando me canso, perco-a. Reservo-a sobretudo para quando falo em público ou quando dou aulas. É difícil mas, também por isso, é-me difícil desistir.

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Filed under: Crítica

2 Responses

  1. cha78 diz:

    Basicamente desiste-se porque se está farto das pessoas…
    Ora bem, a autenticidade nunca se deu bem com as artes. É mesmo um tema doloroso. O humano vai para além da estetização de tudo, da vida, das emoções…etc. que nos envolve mais a nós que somos e convivemos com outros seres estetizantes. Decidi dar-me a e com engenheiros desde o inicio da minha relação com a estética. Só me dou com médicos quando estou doente, mas acho-os fascinantes. Têm também o mesma expectativa de adoração que os seres que trabalham a estética. Recebem-na, mas acompanhada de toda a miseria humana, e sonham com glamour que adivinham na vida do artista. Comunicamos pouco, e simulamos muito a vida. Somos pouco felizes.

  2. Dingo diz:

    Uma razão que me parece boa para não desistir das conferências é o efeito que elas têm em quem anda a “aprender”. Sobretudo a quem está fora do meio do design não é comum ter-se acesso a quem obviamente tanto sabe. Falo por mim: não sendo do meio achei fascinantes as que deu na Culturgest e depois da primeira voltei sempre.
    Em suma: porque as suas conferências fazem pessoas crescer.

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