The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O outro lado do espelho

Hoje, comprei em segunda mão o livro de um ex-melhor amigo que entretanto se tornou um poeta conhecido.¹ Foi o meu primeiro grande ex-amigo, há mais de vinte anos. A iniciativa de acabar com a amizade foi dele e marcou-me muito. Demorei anos a ultrapassá-la, embora o tenha arrumado rapidamente na prateleira dos parvalhões. Se falo disso, e se comprei o livro, é porque tento fazer regularmente o exercício de separar o trabalho da pessoa. Prefiro não saber da vida das pessoas. Conhecer alguém não nos dá uma compreensão melhor do seu trabalho. Não gosto de jantar ou sair com designers, artistas, escritores, realizadores ou actores apenas por serem designers, artistas, escritores, realizadores ou actores. O meu ex-amigo, por exemplo, ainda usa formatos que começámos a experimentar juntos e nos quais nunca mais peguei. Duvido que isso faça diferença a mais alguém para além de mim ou (talvez; pouco provavelmente) dele.

Ou seja: há trabalho do qual gosto feito por gente da qual não gosto. Não me chateia nada admirá-lo publicamente. Por vezes, nem se trata de ex-amigos, apenas de gente da qual não gosto particularmente; nada de dramático. É claro que também há uma classe pior de pessoa que não gosto: que não só me é insuportável mas também tem trabalho péssimo. Aqui, tendo a evitar escrever  sobre o assunto: não quero que uma animosidade pessoal contamine a recepção da minha escrita, que se diga que só escrevo por despeito. (Assim, desenganem-se os que pensam que critico a Joana Vasconcelos, por exemplo e entre outras possibilidades, por qualquer implicância pessoal.)

Também há, é claro, o caso dos ex-amigos que se tornaram uma espécie de exemplo negativo, para os quais olho para tentar perceber o que não fazer. Também tenho desses. Sempre que escrevo um texto de temática ética, e este é um bom exemplo, ou se tomo alguma decisão relacionada com a postura ética do artista, do designer ou do crítico pergunto-me o que eles fariam. E faço o oposto.²

1. Isto pode parecer um texto pessoal mas, na verdade, é tudo menos isso. Não uso nomes, por isso mesmo.

2. Escolhi o vídeo acima por ilustrar o mesmo processo, embora centrado numa só pessoa: o episódio do Seinfeld onde George decide começar a fazer o oposto do que faria normalmente.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. cha78 diz:

    O dedo nas várias feridas. Gostei do que escreve sobre a colecção de ex-amigos que acabam connosco. O Esteves Cardoso escreveu a propósito que parece haver qualquer coisa de mais vergonhoso no ex-amigo, do que na ex-amante, ex-namorado, ou outro tipo de ex. Há um qualquer incomodo, nisto de se ter ex-amigos, que não se repercute noutro tipo de relações. E lá que é doloroso é. E por muitos anos. Amar um amigo é como ter um irmão de escolha…Ainda que pareça haver qualquer coisa de sagrado que sai conspurcado, nesta questão da ex-amizade sabe bem assumi-la. Às vezes é bom fazer novos amigos.

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