The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Está tudo normal

Ontem, descreveram-me alguém como sendo “um situacionista de sofá” e por um segundo fiquei sem saber o que pensar. Durante anos, associei os situacionistas a exercícios de descontração pelos quais tive que passar enquanto aluno de artes – uma espécie de praxe com a diferença que era “cool”– andar à “derive”, aos caídos, pela cidade, conduzido por um professor numa espécie de visita de estudo sem outra conteúdo que não a saída da escola. Também me habituei às infindáveis exposições onde se invocava o Santo Nome de Debord e seus amigos. Por tudo isto, comecei a considerar o situacionismo como o equivalente politico-artístico do impressionismo: se quase todos os pintores de fim de semana ou de centro de dia são impressionistas, os performers de fim de semana e de centro de dia são seguramente situacionistas. Ou, mais exatamente, “cituacionistas”, gente que dedica a sua vida artística a citar os situacionistas e a ficar muito chateada quando outras pessoas que não eles mesmos andam à “derive” ou “detournmentam” de uma maneira menos autêntica. Culpo certo punk e em particular o Malcolm McLaren por esta praga: fizeram de uma atitude (nem sequer uma filosofia) niilista e bem humorada uma espécie de religião da autenticidade, e não há nada de mais autêntico do que ir atrás das origens. Assim o autêntico punk vai atrás do autêntico situacionismo com o mesmo fervor daqueles velhinhos que vão aos fóruns de genealogia. Já nem sei se alguma vez houve punk ou situacionismo autêntico (espero que bem que não; o contrário seria uma seca).

Mas enfim. O que me fez confusão no “situacionista de sofá” foi o termo ser também usado para descrever aqueles que são a favor da “situação”, entendida como algo problemático, tirando dela partido, até. Aqueles que acham, por exemplo, que depois de três anos de Passos, austeridade, etc. é que está tudo a voltar ao normal. Fico mais chocado com estes situacionistas do que com os primeiros e autênticos, confesso.

Anúncios

Filed under: Crítica

3 Responses

  1. Podia ter sido pior, podiam ter-te chamado um situacionista na cama, que à custa de tanta deriva e tanto desvio acaba por emprenhar as orelhas a alguém, quando não a si próprio. E é sabido que a maioria das pessoas não gosta de acordar com nhãnha nesses orifícios embora, caso tal lhes aconteça, a primeira coisa que fazem é um auto retrato para subir à rede e ter muitos gosto, porque a vida só é vida se for um espetáculo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: