The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

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Depois de passar quatro anos a trabalhar aqui mas a passar os fins de semana em Lisboa ainda me parece que volto a uma cidade onde já não vou há muito tempo quando saio à noite no Porto. Ontem fui à Tendinha dos Poveiros, um lugar clássico, que não mudou muito – excepto pela presença de uma coisa para a qual ainda nem tenho um nome, uma loja de conveniência automatizada, um rés do chão inteiramente transformado numa máquina de venda de chocolates, bebidas em lata, etc. Já vi pelo menos mais outra no Porto, na Rua de Santa Catarina. Nessa, ainda se pode entrar para um espaço vazio, escanzelado, rodeado de máquinas; na dos Poveiros é só mesmo uma loja reduzida à sua fachada e a um mecanismo de relojoaria. Só é preciso mandar um técnico encher aquilo uma vez por dia e mais nada.

Adiante.

Também fui ao encerramento no Maus Hábitos do projecto Expedição, do qual perdi quase todas as ocasiões devido à minha transumância Porto-Lisboa. Neste evento final expunham-se os cartazes, catálogo, o material gráfico, que não sei quem fez mas tem muito bom aspecto. Coisas lineares, intricadas como notas de banco ou mapas antigos, que jogam bem com o rigor da montagem da exposição e que (felizmente) se distinguem do tom genérico da divulgação de eventos culturais que, por mais pequenos ou alternativos que sejam, caem sempre na tentação de imitar grandes museus e eventos.

Porém, nunca gostei do nome “Expedição” pelas suas conotações. A deslocação geográfica sugerida pelo nome parece-me estranha num projecto sedeado no Porto, uma cidade que, na cultura, sempre sofreu de um complexo de isolamento (nos habitantes locais) ou de exílio (muito patente nos Lisboetas obrigados a desterrarem-se para cá, nem que seja por umas semanas). Quando aparece uma reportagem sobre as artes do Porto, por exemplo, fica sempre a ideia de expedição.

E, num país como Portugal, com passado colonial, não é um nome inocente, genérico. Este nome, associado a este design, lembra uma altura onde o acto de conhecer era também um acto de tomar posse: o conhecimento-poder de Foucault e de Said. É uma estética fácil, sempre tentadora – os Heróis do Mar, os Sétima Legião, por exemplo –, que significativamente reaparece em momentos mais conservadores. E não apenas nas bandas de música: sempre que passo à frente do Museu do Oriente em Lisboa, pergunto-me como é possível haver uma coisa com esse nome depois do Orientalismo. Agora, que são cada vez mais comuns e descaradas as tentativas de reabilitação do Estado Novo seria preciso bastante cuidado a invocar estas imagens e estes títulos que são também ideias.

 

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Filed under: Crítica

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