The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Mil Platitudes

Ontem tive a oportunidade de discutir mais uma vez o Situacionismo para o qual já não tenho muito respeito como movimento. Li os livros quando ainda era adolescente. Embasbaquei-se com as derives, os detournments, etc. Com o tempo fui percebendo que tudo o que me chamava a atenção no Situacionismo tinha sido renegado pelo Guy Debord, que cometeu a proeza de ter saneado quase tudo o que interessava no seu movimento e ainda assim ter ficado com os louros. Depois, como já sublinhei umas tantas vezes, o capitalismo actual já não é o mesmo: já mal existe sociedade de consumo e o próprio capitalismo se dedica a desmantelar a ideia de Estado. Tal como com o anarquismo, as estratégias, objectivos e utopias situacionistas estão a ser postas em prática diariamente por gente com penteado à CDS-PP, convictamente e com os olhinhos sonhadores postos no horizonte: abolir a distinção entre trabalho e lazer; fazer de qualquer um artista encontra a sua concretização no empreendedorismo; fazer oscilar o sentido de qualquer frase, de qualquer ideia, de qualquer evento, dispersando-o numa multiplicidade de sentidos, isso é o spin. Podia continuar. Assim, temos um governo do qual digo sem ironia nenhuma que é a coisa mais situacionista que já foi feita em Portugal, e o Relvas a cantar o Grândola foi o seu epicentro. Boa parte das teorias de Debord lidas e relidas com atenção, despidas do seu contextosde origem, não passam de padrões abstractos onde se pode projectar o que quer que seja; que podem ser aproveitadas para tudo. O resto são platitudes.

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Love On The Left Bank, Ed van der Elsken

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Não posso dizer que andasse atrás dele, porque sempre considerei impossível encontrá-lo. Foi dos primeiros photobooks que conheci, através do Luís Camanho que há uns dez anos também me apresentou o Lisboa Cidade Triste e Alegre. Mais tarde soube que nesta narrativa gráfica ficcional apareciam os Lettristes e os Situationistes como actores e figurantes. Apanhei-o por sorte, uma segunda edição da década de 50, com sobrecapa e tudo, ao preço da reedição mais recente, porque alguém se tinha enganado e tinha introduzido numa base de dados o editor como sendo o autor. Leia o resto deste artigo »

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O Loop

Mais uma prova de como anda tudo em loop e nada deixa consequências: ontem perguntaram-me se não queria ir ver “O Cabide, a primeira revista ao vivo”. Eu lembrei que não, que não era a primeira revista ao vivo. Há uns anos, não assim tantos (na verdade um), havia o Jornal Falado da Crítica. Aposto que há muita diferença entre um jornal e uma revista, sobretudo quando ditos em voz alta – como não sou muito dotado para reflectir sobre enigmas ao estilo zen, abstenho-me de esmiuçar.

Mas não me espanta a pouca memória; é um problema inerente das culturas orais. Já agora, deixo aqui um link que escrevi sobre o Jornal Falado e outras iniciativas semelhantes.

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Tirem-me deste gif

Não, a propósito de Bolonha, também não vejo a tentativa de organização total dos tempos de alunos e docentes como positiva. Sempre se disse que a escola deve preparar as pessoas para a vida. Agora a escola propõe-se a fazer isso ocupando a totalidade da vida dos envolvidos. Inventaria-se a totalidade do tempo de estudo, de contacto, de etc. Ou seja, quando alguém se inscreve numa universidade está a contratualizar a totalidade do seu tempo, da sua vida. E ainda se tem a lata de dizer que isto tem a ver com treinar gente para ser autónoma. Leia o resto deste artigo »

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Informal

Janto, em primeiro lugar, por necessidade. Até consigo falhar o almoço e não me sentir muito fraco por isso, mas preciso mesmo de um jantar por pequeno que seja. Mas se gosto de jantar? Sim, com amigos e se possível de improviso, combinando o mínimo possível. Não gosto, por princípio, de fazer reuniões à refeição. Leia o resto deste artigo »

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Apagar Fogos

A estrutura de ensino pós-Bolonha, com menos anos por curso,os seus semestres e as suas mobilidades que nunca batem certo (nunca se vai e vem na melhor altura), associada à falta de dinheiro permanente, a turmas grandes, a professores (como eu) darem meia dúzia de micro-cadeiras sem grande ligação entre si, treina as pessoas, professores e alunos, para estarem à espera do próximo micro-prazo, da próxima tarefa a cumprir, esquecer e passar à seguinte. Para apagar fogos sem nunca ter oportunidade para os prevenir. É uma boa preparação para o que hoje em dia se designa, cínica ou imbecilmente, por emprego mas não para uma profissão – que é algo que exige uma coerência, uma continuidade que resiste a todas estas distracções, e que demora tempo a aprender. O profissional tenta manter os seus princípios e a qualidade do que sabe fazer no meio das pressões e descalabros do dia-a-dia, que estão lá com toda a certeza: não é preciso encená-los, fragmentando e precarizando o ambiente de ensino. Há aquela ideia que se deve preparar os alunos para o choque de um emprego “a sério” na sala da aula mas, na grande maioria dos casos, esquece-se que o mais importante no ensino é precisamente ensinar um saber que saiba resistir ao caos, à pressão e ao desenrascanço, que consiga ultrapassar o reflexo de passar o balde e, em vez de só apagar fogos os consiga prevenir.

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O Ano do Design

Tenho alguma dificuldade a comentar o ano do design. Não há grande mal em dedicar um ano a qualquer coisa, antes pelo contrário. Dá visibilidade, etc. Queixo-me sobretudo do que o próprio design se tornou, que já foi uma coisa dedicada à vida cívica, à integração – uma manifestação do Estado Social – e agora é por defeito empresarial, de luxo, feito para exportar, o que significa que é feito para ser usado noutro sítio qualquer, desde que não aqui. Já houve ocasiões onde o design se dedicava a produzir coisas boas, bonitas e baratas; agora assume-se que a maioria da população se contenta com simulacros de luxo ou migalhas que caem da mesa.

E depois, o design é o veterano dos estágios não remunerados, da precariedade como coisa fixe. Tudo isto dedicado à produção de luxo, gurmê ou pior. Já não tenho paciência.

 

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Tudo feito por favor por desfavorecidos

Em relação ao texto anterior sobre trabalhar de graça, um esclarecimento: o que me arrelia é assumir-se que, precisamente por não haver dinheiro para a cultura, se pode promovê-la através de um dilúvio de eventos que devem a sua abundância a muito pouca gente que neles participa ser paga. Não se está a resistir. Não se está a assegurar alternativas. Apenas a garantir entretenimento gratuito. Haver dinheiro para assegurar um evento e para pagar a todos os envolvidos devia ser a mesma coisa, mas neste momento paga-se a quem gere e assegura-se a logística. Tudo o resto assume-se que trabalhará de graça. Não percebo como a malta das artes não vê aqui a mesma desigualdade que é tão criticada quando se trata de banqueiros e oligarcas. Cultura que é feita assim, só será política no sentido de monumentalizar a desigualdade nos seus próprios processos criativos, que não deixarão de se reflectir nas próprias obras.

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Primeira temporada da Feira Cabisbaixa

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Num universo alternativo onde há boa televisão em Portugal, onde mesmo que se compre uma ideia lá fora se consegue fazer mais e melhor com ela, podia-se fazer uma versão nacional de Mad Men. Podia passar-se na década de sessenta em Lisboa, numa agência publicitária ficcional. Podia passar por lá gente inspirada em Alexandre O’Neill, poeta e publicitário infeliz (“Há mar e mar, há ir e voltar.”). Até se podia chamar Feira Cabisbaixa.

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Ófaxavor

Escrevo em parte para deixar aqui um link ao texto da Alexandra Lucas Coelho sobre dar conferências de graça, em parte para acrescentar que, se há tantos eventos, conferências, etc. é porque os participantes, na sua grande maioria, não são pagos. Tornou-se fácil. Há tanto seminário, conferência, que é trivial, não tem valor nenhum. É trabalho gasto para nada. Inconsequente, excepto nas horas que se passa a participar ou a assistir. Já não vejo amor, carinho e dedicação em quem alimenta este arraial. Porque se tornou banal pedir o favor e esperar o favor. Para mim, cada nova conferência já só é uma espécie de micro-estágio não-remunerado. Leia o resto deste artigo »

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Eleições

Tal como quase tudo o que tem sido adjectivado como sendo “europeu”, as europeias foram uma desilusão, sobretudo porque ainda há gente que prefere ir votar na Aliança Portugal do que ir à praia, e porque dois terços dos eleitores não se deram ao trabalho de ir votar. Mais uma vez a abstenção ganhou. Demonstra que a maioria das pessoas não se revê no próprio sistema, blá, blá, blá. Mais uma vez não fez diferença nenhuma. É a mesma coisa que votar em quem ganhou. Só garante mais do mesmo durante mais outros tantos anos, com ainda menos representatividade. Leia o resto deste artigo »

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O Neo Marcelismo

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Não achei o vídeo ou a música dos Mão Morta particularmente eficazes. Achei mais interessante a entrevista de Adolfo Luxúria Canibal ao Ípsilon, em particular quando diz que “De alguma forma, parece que o nosso momento presente não é um momento da democracia representativa, mas um momento de primavera marcelista.” É um aviso. Mas há quem diga exactamente o mesmo, com o sentido oposto: que estamos neste momento, com a intervenção da Troika, com o neoliberalismo convicto do nosso governo, finalmente a continuar um processo positivo, de transição democrática, iniciado na época de Marcelo Caetano e interrompido no 25 de Abril. Falo de Paulo Portas como é evidente.
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Ontem, por convite daTrienal de Arquitectura de Lisboa, participei num debate sobre o livro electrónico, a primeira vez que o fiz, se não contar com as vezes que estive em júris de teses sobre o tema. É uma área carregada, nem diria minada. Leia o resto deste artigo »

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Asco

José Manuel Fernandes respondeu ao zum-zum provocado pela história com que decidiu abrir o seu pasquim (sem grande surpresa, dado o sensacionalismo deliberado: a história de amor entre um skinhead a cumprir pena e uma beta de Cascais. Ainda por cima, uma militante Socialista. Romantiza-se um assassino e culpa-se por associação o PS – lindo. Leia o resto deste artigo »

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Curadoria e Empreendedorismo

Para perceber a ligação entre curadoria e empreendedorismo talvez seja necessário fazer um desvio e falar primeiro de design gráfico. Actualmente – como em tantas outras áreas – é comum associar-se design e empreendedorismo. O designer cria a identidade de uma empresa, o seu logótipo, daí a associação. Porém, só muito recentemente (cerca de quinze anos) se começou a pensar no próprio designer como empreendedor. Antes disso, a versão dominante do designer era a de alguém que era, dirigia ou trabalhava numa firma especializada em design, que fornecia os seus serviços em regime de consultadoria a clientes. Leia o resto deste artigo »

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:-)

Esta é a altura do ano em que costumo queixar-me de excesso de eventos; deixem-me em paz; estou a dormir/ler um livro/xô. E ainda é. Só que desta vez para bem da minha sanidade mental apanhei mais gente a queixar-se e a rezingar ainda mais do que eu – o que me faz sentir rodeado de almas gémeas. Já não sou só eu a pensar que há eventos a mais. Eu sei que é preciso experimentar tudo, sempre, o mais depressa possível, uma vez por mês, em seminários, workshops, conferências, exposições. E no mês seguinte repetir tudo, com as mesmas pessoas como se fosse a primeira vez. Mas adorava experimentar uma coisa que demora mais de um semana ou um semestre a dominar (é por isso que gosto de nadar). Senão começo a achar que a minha vida é uma galeria de GIFs animados.

 

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Tenham juízo

Do vídeo dos Mão Morta, só posso dizer que as reacções têm sido de tal maneira absurdas que as minhas sobrancelhas quase batiam na minha linha de cabelo (um acontecimento que eu próprio, desde há uma década pelo menos, pensava ser impossível, dada a distância cada vez maior; ou seja, um feito que já nem pode ser comparado ao Colombo ter tentado descobrir a Índia pelo caminho errado mas talvez, mais apropriadamente, à viagem de Fernão de Magalhães à volta do globo). Leia o resto deste artigo »

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Mais alguns bitaites sobre curadoria

Ainda mais umas achegas sobre comissariado ou curadoria.

A hegemonia deste conceito não pode ser atribuída apenas a uma espécie de reacção em cadeia que teria começado nos anos sessenta e agora atinge o seu clímax natural – um pouco como um vírus da gripe, que fica invisível no hospedeiro, até se multiplicar em número suficiente para provocar os sintomas. Lendo uma história da curadoria como a de Paul O’Neill percebe-se que o processo foi bastante complexo. Leia o resto deste artigo »

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Foge!

—Foge, Lopes, que ainda nos metem num workshop!

—Mas para onde, Mário, se nos metem num seminário?

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É todo um jogo

Andar a reler os textos chave do activismo cultural/político dos anos 60/70 só ilustra como tudo mudou desde essa altura. Nem falo da evidente hegemonia de uma anarquia libertária de direita (neoliberalismo) mas de questões mais subtis. Vaneigem e os situacionistas falavam da importância do jogo, da batota e de brincar como forma de transgressão. Agora, que passámos de uma sociedade de consumo a uma sociedade de competição empresarial até nas relações individuais, o jogo torna-se total: concursos de televisão modelados em entrevistas de emprego que por sua vez são modeladas em concursos de televisão. E claro que já não há separação nenhuma entre arte, vida, emprego, lazer.

A recuperar alguma ideia de jogo vinda dessa época prefiro o jogo neutro de Barthes, onde o objectivo era empatar e não competir.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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