The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Beautiful Darkness

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Mete medo, sim, apesar do humor negro. Sabe-se desde a primeira página que as coisas vão terminar mal. Príncipes e princesas fazem a sua vida de conto de fadas e começam a cair pedaços de nheca sobre eles, cobrindo tudo. Saem à pressa, por onde podem, e vê-se que estavam dentro do cadáver de uma menina, caída na floresta com a sua mochila, os seus cadernos, os seus lápis de cor. A morte é recente, porque ao longo da história assistimos à sua putrefação que serve de pano de fundo mas também para marcar o tempo – as moscas, as larvas, os ossos. À sua volta as pequenas criaturas vão tentando construir uma sociedade, ajudando os outros, dominando os outros, colocando-se à margem.

Nunca se chega a explicar esta primeira morte. A pequena fada loura que protagoniza a história tem o mesmo nome, Aurora, que marca os cadernos escolares que as criaturinhas usam como tendas para se abrigarem à noite, mas mais nada.

As fadas vão morrendo, uma a uma, levadas por animais durante a noite. Mortas pelo desleixo ou pela intenção de amigos e inimigos. Por castigo, por tédio, por indiferença. Um príncipe é engolido por um sapo e enterrado num porta lápis onde já tinha sido enterrada (viva) outra fada, apenas porque era feia (só tinha um olho). As mortes são arbitrárias, cruéis, acontecem fora do enquadramento ou dentro do enquadramento, cómicas como num cartoon, mas definitivas.

Lembra outras histórias onde se morre facilmente, sem redenção ou heroísmo. Quando a li, ainda estava fresco um episódio do Game of Thrones onde, num casamento, se matava boa parte do elenco sem qualquer aviso. Em Beautiful Darkness, sente-se a mesma arbitrariedade que assusta de um modo necessário, agora quando a morte se torna narrativamente demasiado fácil: super-heróis que morrem e ressuscitam, por exemplo, mas aqui estamos no domínio das fadas e do sobrenatural, onde são comuns os vampiros, os zombis, os fantasmas, tudo formas de esbater a morte, de a tornar numa vantagem, tornando-a demasiado acessível, tanto no sentido de matar como de morrer (não há consequências em nenhuns dos casos). Com Beautiful Darkness ou Game of Thrones tem-se preferido um sobrenatural mais “realista”, nem tanto uma contradição como um contraste, que recupera o lado negro, perigoso, da fantasia, numa des-Disneyficação urgente. As mortes ficam, e os sobreviventes ficam com a impossível tarefa de se esquecerem do que tiveram de fazer para isso.

 

 

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Filed under: Crítica

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