The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Como li os clássicos

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(Como de costume, se quiserem ler cliquem nas imagens para ampliar)

Rimbaud deixou de escrever antes dos vinte anos, eu comecei a lê-lo aos seis quase sete. Não posso dizer que o tenha compreendido à primeira ou sequer à segunda. Não o li por ter um gosto precoce para a poesia. Na altura, lembro-me de tentar ler uns Lusíadas que havia lá por casa porque me tinham dito que Camões era o melhor poeta. Não passei da primeira página. Assumi que poesia eram sobretudo sons abstractos parecidos com palavras e frases, sem ligação com a linguagem comum. Conheci Rimbaud na mesma altura, no fim de 1978, graças a Corto Maltese na revista Tintin. Eu preferia as histórias com cores e mais fáceis de perceber mas o meu pai gostou de Hugo Pratt (esta também foi a primeira história que leu do herói) e eu confiava na sua opinião. Na primeira página, alguém lia uma estrofe do Bateau Ivre, imagens de água e de infância justapostas a imagens de armas e deserto. Dizia-se também que o poeta tinha feito tráfico de armas naquela região: poesia, deserto, armas, morte – só isso chegava para fixar aquele nome com inquietação na minha cabecinha.

Mas como diria o próprio poeta: aos seis anos, não se é sério. Demorei tempo a lê-lo, lê-lo. Começou por volta dos meus catorze quinze anos graças a outra prancha de bd, desta vez de Moebius. Mais uma vez, o poema era uma sucessão de imagens fortes, que vibravam em contacto com os desenhos: a descrição das plantas do poema e o realismo intrincado e delirante da paisagem. Também esta história terminava com os heróis mortos arbitrariamente. Isso levou-me a tentar ler Rimbaud (em francês) e a sua biografia, que (aos dezasseis) me fazia sentir urgentemente quase velho demais.

fotografia 2-3

 

Mais ou menos na mesma altura, aos catorze, também tomei conhecimento com outro marco do modernismo, por sorte e num lugar inesperado. A meio de uma história dos X_Men, alguém lia um livro chamado Ulisses, escrito por um James Joyce. Eu gostava da Odisseia, que já tinha lido numa edição da Sá da Costa, e fiquei intrigado. Não havia internet, fui reunindo informação sobre aquela versão do clássico grego passada num único dia em Dublin e como era considerada um dos melhores livros do século XX. fotografia 5

 

Numas férias grandes em Coimbra (as mesmas onde comprei umas Obras Completas de Rimbaud), comprei uma edição velha e barata. Na capa, James Joyce do qual nunca tinha visto uma fotografia parecia-se confusamente com Fernando Pessoa. Durante anos tentei lê-lo, armado de paciência e de dicionário. Consegui-o já na universidade. Demorei meia década.6a00d8341c643353ef017ee6c7c19f970d

Anos depois, apanhei uma edição americana da história dos X-Men. O Ulysses não aparecia em sítio nenhum, mas apenas um livro com um título de tal modo “científico” que assumi ter sido inventado. Assumi que tinham escolhido Joyce, por causa das mesmas iniciais e por ser mais fácil escrever um título mais curto.

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Anos depois, já a tirar mestrado descobri que o livro era real. Apareceu-me citado em Orality and Literacy, de Walter Ong. Defendia (se bem me lembro) que a escrita tinha acentuado ou provocado a divisão do cérebro humano em hemisfério esquerdo e direito, e que, até essa divisão ocorrer se unirem, os dois lados comunicavam entre si através de visões, de deuses e de milagres (dando como exemplo a comunicação de Ulisses com as divindades gregas).

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Filed under: Crítica

4 Responses

  1. José Roseira diz:

    A tese do livro é o o fenômeno consciente, i.e. a consciência, ser um sub produto da escrita. Anteriormente o cérebro humano funcionaria numa estrutura bicameral, cada hemisfério comunicando com o outro através de ‘vozes’ (os tais deuses). Um dos exemplos mais punjentes é quando Heitor (na Ilíada) fala sozinho e se assusta, por ser a primeira vez (na história) que alguém reconhece uma voz interior como sendo sua. O nascimento da consciência. O livro trata então da unificação, não divisão dos hemisférios.

  2. Sugestão: documentário “Ulysses”, produzido pela produtora Farol de Ideias, disponível no youtube.

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