The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Madrid

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A última vez que tinha estado em Madrid tinha sido há pouco mais de vinte anos, numa visita de estudo à Arco. Ficámos num hotel mesmo ao lado do Reina Sofia. A cidade era muito mais suja. Agora, ainda se vêem restos de grafitti meio apagados e paredes à Porto, cobertas de grandes rasuras de tinta quase da mesma cor que a original mas sempre mais baça e escura. Não vi os turistas que coagulam Barcelona mas também não fui às atracções. Estive umas horas na Faculdade de Belas Artes, maior que a do Porto e de Lisboa. 

Ir a Espanha é como viver durante uns dias num universo paralelo onde consigo perceber o que me dizem mas, como num pesadelo, é-me impossível responder. Por mais que tente, não consigo fazer aquela coisa de falar português com sotaque espanhol. Só penso em todo o vocabulário diferente, todos os hábitos, do pouco que sei sobre a história, a literatura, o cinema e a política. Envergonho-me de saber mais sobre os Estados Unidos, a Inglaterra ou a França do que sobre um país mesmo aqui ao lado. Prometo a mim mesmo fazer melhor serviço da próxima vez; é bastante mais provável que fique a ver os países inventados do Game of Thrones, do que a ler uma História de Espanha. E há 196 países no mundo, cada um um universo paralelo.

Há vinte anos, trouxe a mochila cheia de traduções castelhanas de banda desenhada americana que ainda era difícil encontrar em Portugal na altura. Lembro-me de vir na viagem de volta a ler dois volumes do Sandman de Neil Gaiman (Doll’s House e Season of Mist). Desta vez, por distracção de última hora e pela primeira vez na vida, fui e vim sem um livro na bagagem – um livro físico, quero dizer, o meu telemóvel anda sempre carregado com uma pequena biblioteca de emergência, onde posso escolher ou mesmo comprar algo para ler nas horas mortas. Nesta viagem, por impulso, li a biografia de Richard Hell, vocalista dos Voidoids, I dreamed I Was a Very Clean Tramp. Fiquei surpreendido por gostar. O título vem de uma história de infância que Hell não se consegue lembrar se foi ou não um sonho. E, pelo menos nos primeiros capítulos, este pendular ambíguo entre realidade e fantasia é constante: a descrição da cidade onde vivia em criança, percebe-se de repente, é a de um sonho sobre essa cidade. (Numa viagem, também somos aquilo que lemos)

À volta, dormi durante quase todos os cinquenta minutos do voo. Acordei com a tripulação a avisar que começávamos a aproximação final à pista. Olhei pela janela e, à distância vi uma manchita branca de casas atrás de uma ponte, no meio de umas serras baixas. Demorei uns segundos a perceber que era Vila Real, a cidade onde eu próprio passei a infância. A aproximação final durava noventa quilómetros, feitos em vinte minutos. Já no Porto, levei uma hora e meia de metro, autocarro e a pé para chegar a casa. Quando comprava pão, mesmo antes de entrar em casa, pensei que o final de Gravity, um mau filme com Sandra Bullock, era pelo menos uma boa descrição de como as viagens acabam: depois da trepidação de um quotidiano exótico, voltar a casa é como cair em cuecas a um charco de lama.

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Filed under: Crítica

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