The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Um país sem vergonha

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Há umas semanas ando a ler “The World of Yesterday”, de Stefan Zweig. Comecei-o por duas razões: porque gosto dos filmes de Wes Anderson e este serviu de inspiração directa para o último; porque era um dos escritores favoritos do meu avô paterno, que nunca cheguei a conhecer bem, porque raramente vinha a Portugal. Habituei-me a ver os livros de Zweig nas estantes empoeiradas da casa de família. Por qualquer razão, nunca lhes peguei. Ainda bem, porque “The World of Yesterday” é o livro certo para ler agora. Zweig escreveu-o a meio da Segunda Grande Guerra, exilado. Não sei se esta biografia não foi uma longa nota de suicídio; matou-se um dia depois de a enviar ao editor, em 1942.

Não é, segundo o autor, uma autobiografia, mas o slideshow de uma época, do qual era apenas o narrador. Uma época que acabou, espiritualmente e materialmente, destruída por duas guerras e outras tantas revoluções. Trata de como, imperceptivelmente, um mundo seguro, que pouco mudava de geração para geração, onde as revistas de moda aconselham os jovens a parecerem mais velhos e maduros, respeitáveis, desapareceu quase de um momento para o outro.

Vou a meio do livro. Não sei se Zweig entra em pormenores sobre o que derrubou a ordem mundial que manteve o século XIX numa relativa paz. Nesse aspecto, quem estiver interessado, poderá ler A Grande Transformação, escrita em 1944 por Karl Polanyi, também ele exilado. Segundo o argumento de Polanyi, essa ordem era muito parecida à actual, assente sobre o princípio político de Estados Nação com constituições semelhantes, sobre o princípio económico de uma espécie de moeda comum, o Padrão Ouro. Tudo isto permitia o comércio internacional, dirigido pela Alta Finança que, ao sustentar as necessidades económicas dos Estados, encorajava uma relativa paz, que lhe convinha aos negócios. Tudo isto acabaria com a Primeira Grande Guerra, com os desequilíbrios económicos e sociais extremos da Belle Époque e, finalmente, com as políticas de austeridade das décadas de 1920e 30 que acabariam por provocar a ascensão do fascismo e a Segunda Grande Guerra.

Zweig, um judeu austríaco, de boas famílias, descreve a Viena do fim do século XIX como um lugar de prosperidade, de cultura e tolerância, mas também pesado de tradição e conservadorismo, onde o anti-semitismo começava a aparecer, primeiro e de modo relativamente brando, como agora acontece em França, no governo local. Era uma sociedade desigual ao extremo, cujos mecanismos de coesão começavam a desaparecer, onde populismos violentos, nacionalismos, racismos, se começavam a entranhar.

Em Portugal, teme-se agora o regresso do extremismo de direita, como na Grécia, França, Hungria ou Ucrânia. Acho que é tarde demais: já está aqui com toda a força e parte dele no poder. Note-se que a nossa direita nunca negou que o Estado Novo fosse uma ditadura, apenas nega regularmente que fosse fascista. As mortes, a tortura, não eram, segundo o historiador Rui Ramos, muito diferentes do que se fazia nas democracias da época. Não muito mais brutais que o trabalho policial comum. Mesmo Paulo Portas, um ministro de Estado, pode sugerir, sem isso ser considerado um embaraço, que o  25 de Abril veio atrasar a democracia. O nosso ditador era um professor de economia que preferia o fato ao uniforme só isso nos deveria servir de sinal de aviso. Por outras palavras, não estejam à espera das botas cardadas para começar a ter medo.

Estas semanas, as das várias Queima das Fitas, a encerrarem um ano lectivo onde já morreram uns tantos estudantes em praxes, ouvem-se estudantes a justificarem orgulhosamente um ritual humilhante e degradante como sendo uma boa preparação para uma sociedade desigual e irremediavelmente hierarquizada, que é preciso aceitar sem um pio. Este paleio, de estudantes e ministros, de Jonets e de Soares dos Santos, é o de gente que sempre pensou assim mas teve, durante muitos anos, vergonha de o dizer. Calculo que, neste momento, achem que este é um país mais livre, onde se perdeu finalmente a vergonha: já se pode ter e meter medo à vontade.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. Silvana diz:

    Como sempre, e cada vez melhor, certeiro!

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