The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Arte curadoria e empreendorismo [sic]

No texto anterior deixei no final a sugestão que seria boa ideia examinar a hegemonia da curadoria dentro da arte actual, argumentando que seria uma estetização da gestão. Sempre que digo qualquer coisa do género, alguém me diz logo que estou a diabolizar os curadores, que o mundo da arte tem mais problemas. Não se trata de diabolizar mas simplesmente de tentar ver criticamente e politicamente um desenvolvimento novo dentro do mundo da arte – que tem sem dúvida mais problemas mas a hegemonia incontestada da curadoria é um dos poucos problemas novos.

Têm-me dito que sempre houve comissariado ou formas semelhantes de programação e que portanto é tudo natural. Não é grande argumento: dentro do design, uma actividade relativamente nova também existe a tendência para procurar a legitimação num suposto carácter natural, que o design começou quando o homem concebeu a primeira ferramenta, pintou o primeiro mural, etc. É daquelas platitudes que sacrificam uma abordagem crítica a uma grande continuidade ininterrupta. Há quinze anos atrás mal se falava de comissariado; agora é um assunto incontornável. Porquê?

Outro sinal desta tentativa de alcançar uma legitimação é a recuperação de figuras “esquecidas” que o são em grande medida porque o discurso da arte não tinha ainda ferramentas ou a necessidade de as lembrar. Ernesto de Sousa é o exemplo perfeito de uma figura de proto-curador que vem dar, de algum modo, uma linhagem ao novo comissariado. A sua recuperação surge no final da década de 90 e neste momento tornou-se praticamente numa entidade tutelar, numa invocação recorrente. Como dizem os zen: quando o aluno está pronto, o mestre aparece. Neste caso, o mestre é reconstruído – curado – à medida das novas necessidades.

Tudo isto acontece porque vivemos numa sociedade que se centra sobre actividades de mediação, onde as pessoas mais ricas são sem dúvida as que se dedicam à intermediação financeira. É natural que o mundo da arte tente encontrar mecanismos e identidades para monumentalizar este género de poder e para interagir com ele nos seus termos. A um mundo de gestão e intermediação respondeu-se com uma arte centrada no comissariado.

Poder-se-ia argumentar que a versão popular, kitsch, disto tudo é a inovação, o empreendedorismo, etc.

 

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Filed under: Crítica

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