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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Arte e Medo

Ainda a propósito do microfascismo, o tipo de medo de que fala António Guerreiro é o mesmíssimo dentro do mundo da arte, que conheço relativamente bem, e será semelhante no teatro, na música e no resto. As estruturas de trabalho são as mesmas; logo o medo é o mesmo. E até se pode argumentar que o trabalho nas artes tem sido um protótipo para o trabalho em geral, dentro de um mundo neoliberal.

Eu tirei o meu curso de design paredes meias com os cursos de pintura e escultura. A maioria das disciplinas eram comuns. Desde o começo reparei que os meus colegas de artes plásticas precisavam de ser muito mais duros, profissionais e rigorosos do que nós, os designers. Também era comum terem bastante mais medo – de não serem suficientemente bons, ou de, sendo bons, fazendo tudo como deve ser, mesmo isso não chegasse. A ideia que os artistas têm uma vida despreocupada é um preconceito.

A ideia que fazem o que fazem porque gostam de “passar fome” em vez de “trabalhar a sério” também. É habitual esperar-se que um artista trabalhe por gosto, que é como quem diz de graça ou a troco de visibilidade, quando muito assegurando-lhe a logística, os materiais e a deslocação. E é costume achar-se que a arte de algum modo perde qualidade simplesmente se o artista for visivelmente bem pago, que é mais honesto se não houver dinheiro envolvido, de outro modo a arte seria um produto de consumo. O dinheiro é possível, claro, mas a uma certa distância sanitária do artista, quando a sua obra circula entre galeristas, coleccionadores, críticos, curadores.

Percebe-se aqui uma ética que não é em nada diferente da do trabalho comum. Já não há trabalhadores mas colaboradores. Já só os incompetentes ou os idiotas trabalham arduamente, com gotas de suor e dores de costas. Os melhores criam, e os melhores dos melhores criam emprego. Novos tipos de emprego é o ideal. E a maneira mais óbvia de fazer isso é esquecer o mais possível aquela coisa de trabalhar para ter dinheiro. O melhor será trabalhar para viver – não trabalhar para ter dinheiro para viver (isso seria burguês, classe média, mau) mas fundir trabalho e vida como alguns tentam fundir vida e arte.

Assim, não adianta muito fazer arte política se ela é produzida, circulada, arquivada dentro de esquemas de trabalho que só muito raramente são postos em causa. E, quando são, tal é isolado da apreciação crítica dos objectos, artistas ou exposições. Seria necessária não só uma arte mas também uma crítica que questionasse e descobrisse alternativas a coisas tidas como naturais mas que são profundamente ideológicas, como a actual e recente hegemonia do curador, que faz das artes uma estética da gestão – de pessoas, de eventos, e de objectos.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. Triste que assim seja… o problema nasceu quando se transformou o Homem num anexo da técnica e num escravo da produção. Uma desumanização em nome de um “progresso” mal definido e enganador.

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