The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Desconfio, sempre que vejo um evento onde a arte política é comissariada.

commissarvanishes

É quase cómica a maneira como todas as utopias mais ou menos políticas das vanguardas dos anos 60 e 70 se concretizaram embora de um modo monstruoso e auto-destrutivo. A ideia de uma união entre arte e teoria que sustentou a arte conceptual, por exemplo, e que pretendia uma arte que não se limitasse ao papel tradicional de mostrar mas reclamava a possibilidade de reflectir, de produzir os seus próprios argumentos, sobre os seus próprios processos, essa união (dizia eu) agora é total: neste momento, o artista que não produz teoria é que está em apuros, e precisa de justificar, teoricamente claro, porque não se quer justificar.

Boa parte, se não todas, as estratégias transgressivas inventadas nessas épocas politizadas não se tornaram obsoletas; simplesmente foram apropriadas como mecanismos de gestão, de controle e de repressão. Para um exemplo, basta ver como a ambição anarquista da dissolução de um Estado organizado centralmente nunca foi tão defendida por ministros, consultores e comentadores.

Muitas destas estratégias foram concebidas para pôr em causa o capitalismo. O capitalismo já não é o mesmo. Já não se centra no consumo, por exemplo, que neste momento só é autorizado moralmente nos patamares mais ricos da sociedade. Já não existe uma sociedade de consumo mas uma sociedade neoliberal, onde o consumo só é aceite como ponto de partida para produzir qualquer coisa, se possível empresarialmente.

Daí que sejam necessárias novas estratégias para as artes, que passem sobretudo por recusar as suas estruturas habituais de produção, o que não será fácil. Tal como nas vanguardas se tentava abolir o museu, neste momento a economia e o poder político fecham museus com bastante mais eficácia que qualquer situacionista.

Mais uma vez, eu diria que, para fazer arte anti-institucional hoje em dia, será necessário pôr em causa estruturas aceites acriticamente como a curadoria e a programação, com tudo o que representam em termos de uma pacificação e instrumentalização das artes. Será necessário encenar modos de arte que sejam impossíveis de comissariar, de programar. Não falo apenas de uma recusa mas da elaboração de estruturas de organização que não sejam separáveis das próprias obras, que sejam difíceis de gerir, de negociar ou de rearranjar sem ser nos seus próprios termos.

Desconfio, sempre que vejo um evento onde a arte política é comissariada.

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Filed under: Crítica

4 Responses

  1. Alexandre Rendeiro diz:

    Como é que se extrai a “ambição anarquista da abolição do Estado” a partir de “estratégias transgressivas inventadas nessas épocas politizadas” (anos 60/70 como indica o início do artigo) para servir de exemplo para a apropriação de movimentos estético-políticos de índole subversiva?

  2. Alexandre Rendeiro diz:

    O artigo que me indicou não responde à minha pergunta. Debord dedica 4 parágrafos (91-94) da Sociedade do Espectáculo a criticar o idealismo anarquista e não há nada no Situacionismo que o torne automática e claramente sinónimo de movimento político pró-abolição do Estado, apesar de terem celebrado os insurrectos de Kronstadt num telegrama enviado à URSS. Nem o detournement nem a deriva são “estratégias transgressivas” passíveis de serem lidas directamente como apelos à abolição do Estado.
    Tendo em conta que a própria Internacional Situacionista parece uma “paródia-séria” de um partido de vanguarda, um aparelho explicitamente criticado por Bakunine, não lhe parece precipitado enfiar os situacionistas e os anarquistas no mesmo saco e afirmar que o leque estético-político diverso e distinto que emana dessa amálgama foi absorvido pelos “ministros, consultores e comentadores” do neoliberalismo? Pode-me indicar o artigo acerca d’ “O Banqueiro Anarquista” que também não é suficiente para sustentar o seu salto argumentativo que apontei no meu primeiro comentário. Há abolições de Estado que se querem por razões distintas e é por isso que é determinante não se desconsiderar o que vem a seguir ao prefixo “anarco-“.

  3. (Na verdade, tive dificuldade a perceber a pergunta.)

    O detournement e a deriva não são lidas directamente como apelos à abolição do Estado. Cito-os como parte da panóplia de estratégias habitualmente associadas à esquerda que foram co-optadas com bastante mais sucesso pela direita. A ideia base da anarquia, estruturas descentralizadas de organização social, idem.

    Concordo totalmente com a sua descrição do situacionismo. Só o tenho focado porque dentro das artes ainda é apontado como um modo credível de intervenção/vanguarda/etc.

    E também sei que há diferenças fundamentais entre o anarquismo financeiro (neoliberalismo) e o que habitualmente se resume como anarquismo. A mais importante é, no primeiro caso, acreditar-se numa organização social que emana de actos de comércio.

    o meu ponto é que neste momento, com o neoliberalismo, nem o capitalismo nem a Ideia de governamentalidade (para não falar de Estado) dominante são os mesmos que há cinquenta anos. Em grande parte, muitas das estratégias e estruturas são bastante semelhantes às reivindicadas pela esquerda e pelo anarquismo.

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