The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Mais alguns bitaites sobre curadoria

Ainda mais umas achegas sobre comissariado ou curadoria.

A hegemonia deste conceito não pode ser atribuída apenas a uma espécie de reacção em cadeia que teria começado nos anos sessenta e agora atinge o seu clímax natural – um pouco como um vírus da gripe, que fica invisível no hospedeiro, até se multiplicar em número suficiente para provocar os sintomas. Lendo uma história da curadoria como a de Paul O’Neill percebe-se que o processo foi bastante complexo.

Se a curadoria é, neste momento, hegemónica é porque se tornou numa solução interessante dentro de uma série de contextos e para uma conjunto muito diverso de protagonistas: artistas, instituições, eventos. Originalmente, era uma função quase sempre integrada num museu ou associada a uma colecção. Neste momento, embora sobreviva a sua função original, é uma actividade independente. As razões para isso são variadas: por um lado a própria natureza das instituições culturais de topo tornou-se bastante mais móvel, concorrendo bienais e trienais com museus e centros. Por outro lado, os próprios museus e centros tiveram que modificar a sua identidade quando o seu financiamento começou a ser feito em moldes cada vez mais privados. A consequência mais visível é uma política de promoção constante onde mesmo actos que seriam considerados expediente se tornam em manifestações públicas, capazes de demonstrar a vitalidade da instituição a potenciais investidores: isso é bastante evidente com a expansão permanente de espaços físicos recorrendo a arquitectos-estrela ou o recurso a designers-estrela para conceber a identidade, etc.

Estes desenvolvimentos não são novidade, tendo sido alvo de análises mais ou menos eficazes (Julian Stallabrass em Art Incorporated ou Hal Foster em Design & Crime). O que normalmente se deixa de fora são as consequências internas destes processos dentro do mundo da arte. O design e a arquitectura são, apesar de tudo, vistos como parte do fundo e não da figura. Ou seja: ainda se acredita que a arte propriamente dita é de algum modo imune a isto tudo.

O meu argumento é que o curador, ou mais exactamente, a sua encarnação actual é uma resposta do mundo da arte a um novo contexto institucional, económico e político. Note-se que para o fazer precisa de conseguir descrever, com a mesma palavra, competências muito distintas e até contraditórias: o curador neste momento tanto descreve alguém que trabalha profissionalmente dentro dos quadros de um museu não necessariamente de arte; alguém que trabalha como freelancer para instituições e eventos artísticos; alguém que gere o seu próprio espaço ou até carreira de um modo quase individual; alguém que simplesmente selecciona objectos ou pessoas e os apresenta a um público (numa revista, num livro, na internet); alguém que organiza alguma coisa (o termo é aplicado também a jantares, festivais de música, etc.)

É um erro acreditar-se que uma análise crítica fica necessariamente a ganhar separando o trigo do joio: afirmando que há um uso legítimo do termo e o resto é ruído. Neste caso, o que se percebe, para além da importância evidente desta designação, é que todas estas tarefas descrevem uma forma de administração (de um acervo, de uma situação, de um conjunto de pessoas, etc.) enquanto opção estética. Note-se também que esta é uma forma de administração ou de gestão, isolada, especializada, em relação ao trabalho que administra.

Não é grande novidade argumentar-se que estes novos modos de gestão estética monumentalizam uma sociedade onde a gestão tem bastante mais poder que o trabalho. Alexander Alberro fê-lo em relação ao trabalho pioneiro do galerista curador Seth Siegelaub, demonstrou que, embora a arte conceptual seja ainda agora vista como uma crítica da arte enquanto mercadoria, na verdade era exposta e promovida por Siegelaub como um novo género de mercadoria para empresas que já não se dedicavam a produzir objectos mas a gerir informação, recursos, pessoas.

Mais uma vez, este texto é apenas uma lascada de um assunto bastante fértil. Não pretendo esgotá-lo apenas acrescentar mais argumentos e mais bibliografia. Deixo contudo outra ideia: a abundância de curadores deve-se também a mudanças nas instituições de ensino das artes, onde se torna cada vez mais interessante formar artistas que tenham a capacidade de se integrarem como quadros administrativos nas mais diversas situações, que a palavra “curador” pode descrever com alguma dignidade. Deixarei essa discussão para outra altura.

 

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Filed under: Crítica

2 Responses

  1. Mário, não tenho bem a certeza que todas essas tarefas descrevam (unicamente) uma forma de administração. Aliás, creio que um dos problemas (agora a eclodir) começa precisamente quando o comissário sai do anonimato, do backstage, para mergulhar no mar da autoria, sendo que esta autoria pode ser vastíssima.

    Por uma questão de distância temporal, talvez seja ainda cedo para rasgar conclusões no e do contexto português que começa agora a formar fornadas de curadores. Até lá e para a prateleira da bibliografia, deixo este texto da Dorothee Richter que propõe uma leitura histórica dessa triângulo artista e/ou curador e/ou autor:

    “Competitors, Collaborators, or Team-workers?”

    http://www.on-curating.org/index.php/issue-19-reader/artists-and-curators-as-authors-competitors-collaborators-or-team-workers.html#.U35ms16kuLA

    • Já tinha tratado em outro texto a questão do curador como autor (https://ressabiator.wordpress.com/2012/11/23/critica-de-arte-ou-critica-da-gestao-da-arte/) que linka para outro que também trata do mesmo assunto.

      Em todo o caso, a ideia do curador como autor, do designer como autor e a do arquitecto estrela estão ligadas na medida em que quando aplicadas em situações de pequena ou média escala dão inevitavelmente origem ao curador como empreendedor, ao designer como empreendedor e ao arquitecto como empreendedor. No lado do design e da arquitectura este desenvolvimento está bastante documentado; conto voltar a isto num próximo texto.

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