The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Asco

José Manuel Fernandes respondeu ao zum-zum provocado pela história com que decidiu abrir o seu pasquim (sem grande surpresa, dado o sensacionalismo deliberado: a história de amor entre um skinhead a cumprir pena e uma beta de Cascais. Ainda por cima, uma militante Socialista. Romantiza-se um assassino e culpa-se por associação o PS – lindo.

A resposta de JMF:

“Na newsletter que enviei hoje aos subscritores do Observador escrevi a seguinte nota:
Hoje uma reportagem do Observador provocou alguma polémica nas redes sociais. Descobrimos que Mário Machado, o dirigente neonazi que já foi condenado várias vezes, se tinha casado com uma jovem de Cascais militante do PS. Decidimos contar essa história, de forma crua e objectiva. Houve quem nos acusasse de operação de limpeza de um extremista. É uma visão errada – sobre o jornalismo e sobre como viver em democracia. O problema das pessoas que têm ideias erradas, nefastas, não é serem obrigatoriamente uns monstros na sua vida privada – o problema são mesmo as suas ideias erradas. Se acharmos que só monstros defendem ideias que consideramos monstruosas estamos a desarmar-nos: entre os responsáveis pelos campos de extermínios nazis havia chefes de família atenciosos e apurados melómanos. Contar uma história humana que envolve Mário Machado não é absolver ou condenar Mário Machado: é ajudar a perceber que em política, na vida democrática, são as ideias que são realmente perigosas, não as pessoas.
Mas nada como ler o trabalho do Observador e formar a sua própria opinião.”

Fernandes ou não percebe ou faz de sonso: não interessa se “as pessoas que têm ideias erradas, nefastas” são ou não “obrigatoriamente monstros na sua vida privada”. Não interessa mesmo. O que faz delas monstros não é amarem, terem ideias, ambições; o que faz delas monstros é, neste e noutros casos, impedirem irremediavelmente outras pessoas de o fazerem. Matar alguém é isso; é tirar a alguém tudo isso, e, bem provavelmente, traumatizar a sua família, amigos, colegas, etc. Não me interessa minimamente a vida amorosa desta pessoa. Não é jornalismo sério. É jornalismo caça-tolos. De sarjeta.

E não é inócuo: dá um púlpito nem que seja momentâneo a alguém que não o merece de todo.

E dizer que havia chefes de família e melómanos a dirigir campos de concentração? E depois? Também usavam calças, e andavam de automóvel, e viam filmes, e arrotavam quando tinham gases. Quando muito só interessa pela mesma razão que de vez alguém lembra que Hitler, para além de ter morto milhões de pessoas, era vegetariano; só leva a que as cabecinhas confusas pensem que todos os vegetarianos são fascistas.

E explica que, na vida democrática, são as ideias que são realmente perigosas, não as pessoas. Portanto suponho que para ele, seria mais interessante numa democracia prender alguém pelas suas ideias do que por matar alguém.

Update (estou a escrever no comboio, daí só publicar às pinguinhas):

Preferir discutir pessoas porque as ideias são perigosas é uma leitura invertida do debate democrático, onde se discutem publicamente as ideias por mais perigosas que sejam e (idealmente) se deixa a vida privada a cada um.

 

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Filed under: Crítica

2 Responses

  1. C-zero diz:

    «são as ideias que são realmente perigosas, não as pessoas»

    Só para acrescentar ao conteúdo do post, o que José Manuel Fernandes faz é inverter a ordem com que se deve analisar a realidade. Inverte o que é determinante e o que é determinado. Sugere que as ideias constroem os homens, rejeitando que são os homens que constroem as ideias.

    Cumprimentos!

  2. O “Palito” e a sua ex-mulher, a quem ele mandou um balázio nas costas depois de lhe matar a mãe, serão com certeza a notícia de destaque do “Observador”. Ele amava-a tanto que a enchia de porrada. Que carinhoso. Os assassinos também amam. São histórias de rosto humano para embrulhar com elogios ao governo e delírios neo-liberais.

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