The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Neo Marcelismo

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Não achei o vídeo ou a música dos Mão Morta particularmente eficazes. Achei mais interessante a entrevista de Adolfo Luxúria Canibal ao Ípsilon, em particular quando diz que “De alguma forma, parece que o nosso momento presente não é um momento da democracia representativa, mas um momento de primavera marcelista.” É um aviso. Mas há quem diga exactamente o mesmo, com o sentido oposto: que estamos neste momento, com a intervenção da Troika, com o neoliberalismo convicto do nosso governo, finalmente a continuar um processo positivo, de transição democrática, iniciado na época de Marcelo Caetano e interrompido no 25 de Abril. Falo de Paulo Portas como é evidente.

A credibilidade do governo anda tão em baixo que se assumiu a tirada como uma gafe, mas a mesma ideia tem andado a circular por aí, a ganhar coerência. Teria sido no final do Antigo Regime, por exemplo, que “alguns dos ricos esta­vam a fazer uma mudança enorme de agu­lha… Esta­vam pela pri­meira vez a viver sem o Estado” como defendeu José Manuel Félix Ribeiro. Ou seja, foi durante o governo de Marcelo Caetano que se começou a ensaiar o modelo de uma economia não dependente do Estado, muito ao gosto do neoliberalismo actual. Dentro desta visão, o 25 de Abril, com a ameaça de um economia planeada, comunista ou socialista, foi um passo atrás.

Assim, do que trata agora a direita dita moderada não é de um regresso ao Salazarismo mas de um retomar do Marcelismo, como se os últimos quarenta anos fossem apenas um deslize. E numa coisa são capazes de ter razão: acredito cada vez mais que o momento fundador do neoliberalismo luso foi a “primavera” Marcelista. Se entendermos o neoliberalismo como uma ideologia que desloca a governamentalidade do Estado para o Mercado, da política para economia, podemos percebemos porquê.

O neoliberalismo alemão (ordoliberalismo), por exemplo, impôs-se no pós-guerra como uma maneira de reconstruir um país que se queria distanciar inequivocamente de um passado recente onde foi Estado totalitário e monstruoso (o Nazismo) e da ameaça contemporânea de um Estado totalitário comunista. Assim, retira-se quase por completo a ênfase do Estado, que reencontra a sua identidade como garantia de uma livre economia do mercado.

O marcelismo é uma tentativa de resolver um problema semelhante da mesma maneira: abandonar discretamente a imagem de um Estado totalitário, relançando-o como uma economia de mercado. Curiosamente, isso é perfeitamente visível no design gráfico. Quando se convoca Sebastião Rodrigues para produzir o material gráfico do regime, já não é com as mesmas intenções e métodos do tempo de António Ferro (construir a identidade de um Estado total e consensual) mas de o reconstruir usando os mesmos métodos e símbolos com que se concebe a identidade de uma empresa. É nesta altura que o Estado começa timidamente a identificar-se não com insígnias, selos e brasões mas com logos, etc.

Este não é um assunto que vá aprofundar muito mais por aqui, porque já o tratei em dois textos de maior fôlego que aguardam publicação, e aos quais não me quero sobrepôr. Importa apenas reter que o neoliberalismo, mesmo enquanto um conjunto de características de governamentabilidade, coerentes mas sem nome, não é novo. Tem uma tradição problemática que se for realmente desfiada até à sua origem, se percebe que convive perfeitamente com formas de governo que só com muito boa vontade podem ser classificadas como democracias. Talvez seja até aí que encontra o seu habitat natural.

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Filed under: Crítica

4 Responses

  1. Luis Magalhães diz:

    “[4] THOU SHALT RETASK THE STATE TO THY NEEDS

    A primary ambition of the neoliberal project is to redefine the shape and functions of the state, not to destroy it. Neoliberals thus maintain an uneasy and troubled alliance with their sometimes fellow- travelers, the anarchists. The contradiction with which the neoliberals constantly struggle is that a strong state can just as easily thwart their program as implement it; hence they are inclined to explore new formats of techno-managerial governance that protect their ideal market from what they perceive as unwarranted political interference. Considerable efforts have been developed to disguise or otherwise condone in rhetoric and practice the importance of the strong state that neoliberals endorse in theory.

    (…)

    One of the great neoliberal flimflam operations is to mask their role in power through confusion of “marketization” of government functions with the shrinking of the state: if anything, bureaucracies become more unwieldy under neoliberal regimes. Another is to imagine all manner of methods to “shackle” the state by reducing all change to prohibitive constitutional maneuvers. In practice, “deregulation” always cashes out as “reregulation,” only under a different set of ukases.”

    Philip Mirowski, The Thirteen Commandments of Neoliberalism

    http://www.the-utopian.org/post/53360513384/the-thirteen-commandments-of-neoliberalism

  2. […] para quem nunca acreditou naquela treta do “Marcelismo como transição para a democracia interrompida pelo 25 de Abril” os testemunhos que ouvi ontem são um bom antídoto para toda a relativização em curso. O […]

  3. […] nenhum, apenas um retrocesso mascarado. Já nem falo de rebobinar a história até ao Marcelismo, ao Estado Novo ou mesmo à Grande Depressão.¹ É preciso ir um pouco mais […]

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