The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Desconfio, sempre que vejo um evento onde a arte política é comissariada.

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É quase cómica a maneira como todas as utopias mais ou menos políticas das vanguardas dos anos 60 e 70 se concretizaram embora de um modo monstruoso e auto-destrutivo. A ideia de uma união entre arte e teoria que sustentou a arte conceptual, por exemplo, e que pretendia uma arte que não se limitasse ao papel tradicional de mostrar mas reclamava a possibilidade de reflectir, de produzir os seus próprios argumentos, sobre os seus próprios processos, essa união (dizia eu) agora é total: neste momento, o artista que não produz teoria é que está em apuros, e precisa de justificar, teoricamente claro, porque não se quer justificar. Leia o resto deste artigo »

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Nadar

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Tentei ontem ver o Tabu, de Murnau e Flaherty, pela dupla inspiração de ter visto um clip que um amigo partilhou no facebook e o ter visto referenciado numa lista de melhores últimos filmes – foi o derradeiro filme de Murnau, falecido aos quarenta e poucos anos. Não consegui avançar além dos primeiros minutos porque me distraí: reparei que os nativos nadavam uma variante de crawl próxima da que se usa no pólo aquático, com a cabeça fora de água. Fui logo ver vídeos de natação ali mesmo ao lado no Youtube. Já me tinha acontecido o mesmo quando reparei que o actor que fazia de Carlos, o Chacal na mini-série de Olivier Assayas, tinha uma boa postura na água, mesmo numa piscina de hotel. Tentei ver o filme italiano Miele, porque no trailer a protagonista aparecia a nadar no mar com fato térmico, usando se bem me lembro a técnica bent-arm freestyle, embora batesse demasiado as pernas para aquilo ser natação de longa distância. E até a jogar o GTA V na Playstation dei por mim a avaliar a postura e a técnica dos personagens quando caiam à água. Deve acontecer o mesmo aos fãs de futebol quando vêem o seu desporto num filme. Bem, adeuzito, tenho que ir nadar.

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Epifania

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Há toda uma cultura que nos treina para ficarmos de boca aberta quando, de repente, percebemos uma coisa sobre nós mesmos que estava totalmente à vista, era totalmente óbvia, só faltava percebê-la. São aqueles momentos de inspiração que concluem as séries de detectives, o Sherlock/House/Castle/etc que, de repente, percebe. Leia o resto deste artigo »

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The Situationist Times 4: Labyrinths

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Comprei-a em saldo no ebay porque me pareceu bonita. Toda dedicada a labirintos, cheia de ensaios visuais, etc. E também para confirmar uma teoria: que tudo (ou quase) o que eu gosto do Situacionismo foi feito por gente expulsa por Debord. E bingo: a editora Jacqueline De Jong também se distanciou do homem, por discordar de algumas das expulsões. Tudo isto lembra os piores hábitos da esquerda portuguesa capaz de se  desmantelar e purgar a si mesma por causa de vírgulas. E fica-se a pensar como um movimento acaba por se definir por estratégias e ideias que em grande medida foram rejeitadas pela sua figura mais proeminente, que me parece cada vez mais um homenzinho solitário e rezingão sentado a administrar uma herança que não produziu. Leia o resto deste artigo »

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Amigos

Uma amiga perguntou-me se eu ficava chateado se não viesse a uma conferência minha. Respondi-lhe que não, nunca. Aliás, prefiro arriscar o embaraço diante de estranhos do que de amigos. É o que faço sempre que escrevo aqui no blogue. Acreditar na discussão pública é isso.

(Mas os amigos são bem vindos, claro. Custa um pouco mais, mas não me importo de arriscar o embaraço diante deles.)

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O poeta como crava

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Ainda nem cheguei a um quarto, mas estou a gostar, principalmente porque descrito deste modo, documental e terra-a-terra, Rimbaud parece um Luiz Pacheco adolescente, brilhante, melga e crava não só em doses iguais como deixa de se conseguir imaginar estas três qualidades em separado: brilhante porque melga porque crava (em qualquer ordem). Tal como Pacheco, o problema é o do costume: nem tanto o da arte pela arte, mas como viver disso. Assim, à roda da poesia, só esquemas e desenrascanços e expedientes. Solicitar a amigos outra cópia dos seus livros de poesia, porque a queria reler, na verdade para a vender em segunda mão. Servir de intermediário aos colegas de escola para comprar livros na livraria do rés-do-chão da casa de família para comprar livros para ele mesmo  que lia numa noite e devolvia no dia seguinte para trocar pelos que os colegas tinham encomendado. Não é o poeta maldito como eremita, livre das preocupações materiais (isso é só afectação) mas um que só pensa nos tostões, sem olhar a escrúpulos como o conseguir. Não admira que tenha morrido rico.

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Poems for the first yuppie age

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Ouvi dizer que vão adaptar o Hellblazer para série de televisão e (espero que não – mas pouco) tenho a certeza que vai ser um fiasco (embora o timing seja o melhor, como iremos ver). Ainda me lembro quando começou. Li os primeiros números por duas razões: o personagem, John Constantine, que tinha aparecido com a cara do Sting  no Swamp Thing de Alan Moore, numa história apocalíptica inspirada em Bruce Chatwin; as capas de Dave McKean. Não gostei do desenho esgravatado de John Ridgway, mas entretanto fui mudando de opinião, porque as histórias de Jamie Delano, não sendo brilhantes, metiam medo e insistiam em ficar na cabeça. Leia o resto deste artigo »

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Mais valia

Tenho que estar atento aos sinais: ando a combater uma tendência recente para começar os meus textos por “Já não tenho paciência para…” Desta vez ia dizê-lo em relação à arte religiosa. Não em relação à escultura em madeira barroca, em granito medieval, ícones bizantinos ou frescos renascentistas. A minha impaciência vai para quem faz da arte uma litúrgia nostálgica: do punk, do modernismo, do dadaísmo, etc. E dedicam-se à pedagogia como quem catequiza. Se um miúdo se atreve a citar ou ouvir um disquito, lá está o sermão: para ouvires, precisas também de ouvir aquilo, porque não ias perceber. Tens que passar por certas coisas para entrar. Se não mais valia estares quieto.

Todas as citações têm um grau de erro, mas nenhuma erra tanto como aquela que insiste em ver a história, sobretudo a mais política, revolucionária ou anárquica, como uma religião. Mais valia cobrar direitos de autor – o efeito era o mesmo.

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Esta sexta

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Insultos, muito bem explicadinhos

Também já não tenho muita paciência para quem acha que empreendedorismo e serviço público podem conviver em paz. Ou que é possível haver um empreendedorismo público. O termo “empreededorismo” tal como “inovação” ou “competividade” é quase sempre usado, mesmo por quem o defende, de um modo ambíguo a meio caminho entre uma doutrina e uma qualidade intrínseca do ser humano, que toda a gente tem ou devia de ter. Leia o resto deste artigo »

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Falácias que matam e que espancam

A extrema-direita sobe em França e é preocupante porque soa a dejá-vu. Lembra Hitler e o resto. E vale sempre a pena lembrar que Hitler subiu ao poder como consequência directa e imediata de políticas de austeridade – não da hiperinflação que aconteceu mais de uma década antes. O sistema financeiro engasgava-se e fazia tudo por tudo para salvar a pele. Daí o anti-semitismo: era mais aceitável culpar um bancário judeu por seu judeu do que por ser bancário, desviando-se as atenções da economia para o ódio racial e religioso; e assim preferiu deixar-se exterminar um povo inteiro do que corrigir as injustiças de um sistema bancário. Em França, agora, o mesmo. Quer-se sair da Europa não porque seja um mau sistema mas por isolamento e preconceito; contra os bancos, levantam-se slogans anti-semitas, etc. Se os problemas são óbvios e se continua a insistir que as soluções razoáveis e pacíficas são irrealistas, que “não há alternativa”, não tardarão aí as soluções monstruosas.

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Turismo político

A dificuldade principal de fazer arte política em Portugal reside no facto da política estar na moda. Está-se em crise e se as artes querem ter algum modo de presença precisam de se situar politicamente de modo explícito. Um artista português que vá a um evento internacional vai ser necessariamente confrontado com ter vindo de um país que não só está em crise como é um dos símbolos dessa crise. Mesmo responder que se faz arte pela arte será visto como uma afirmação política.

Ou seja, espera-se que a arte em Portugal seja política. Tal como o turista espera que o país seja típico, certo turista espera que seja político. E assim corre-se o risco de produzir o equivalente político de tasquitas gurmê, que não serão para todos, claro (o turista típico não vem pela política), mas ocupam o seu nichozito de mercado. O desafio será, pelo contrário, não limitar a política a um tema, a uma forma de decoração, mas mantê-la viva. Mas como? Leia o resto deste artigo »

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Arte curadoria e empreendorismo [sic]

No texto anterior deixei no final a sugestão que seria boa ideia examinar a hegemonia da curadoria dentro da arte actual, argumentando que seria uma estetização da gestão. Sempre que digo qualquer coisa do género, alguém me diz logo que estou a diabolizar os curadores, que o mundo da arte tem mais problemas. Não se trata de diabolizar mas simplesmente de tentar ver criticamente e politicamente um desenvolvimento novo dentro do mundo da arte – que tem sem dúvida mais problemas mas a hegemonia incontestada da curadoria é um dos poucos problemas novos. Leia o resto deste artigo »

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Arte e Medo

Ainda a propósito do microfascismo, o tipo de medo de que fala António Guerreiro é o mesmíssimo dentro do mundo da arte, que conheço relativamente bem, e será semelhante no teatro, na música e no resto. As estruturas de trabalho são as mesmas; logo o medo é o mesmo. E até se pode argumentar que o trabalho nas artes tem sido um protótipo para o trabalho em geral, dentro de um mundo neoliberal. Leia o resto deste artigo »

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Coisas que me enchem de felicidade

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Comprei-o barato na feira de alfarrabistas da Rua Anchietta no Chiado. Podia ter sido muito mais caro, afinal era uma edição da Afrodite, em bom estado, com bom aspecto, impresso sobre papel colorido fazendo das páginas etapas do arco-íris – coleccionável. IMG_0455

Não fora a dedicatória, que não sendo do autor, editor ou alguém conhecido, desvalorizava logo a coisa, colocando-a ao alcance do meu bolso. Mas (cliquem para aumentar) vejam a dedicatória, e digam lá se não é uma delícia. Leia o resto deste artigo »

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Reacções

Estava curioso com o tipo de reacções negativas que iriam com toda a certeza ao texto de António Guerreiro sobre o novo microfascismo. Argumenta como há todo um conjunto de técnicas de gestão que assentam deliberadamente e institucionalmente sobre o medo e sobre a intimidação. Algumas reacções vão no sentido de perguntar, retoricamente, se o que se propõe em alternativa é o funcionalismo público, formas cooperativas de trabalho, o comunismo, o trabalho absolutamente seguro até à reforma. Não. O que se propõe é simplesmente a decência de trabalhar sem medo. Por exemplo, de assinar um contrato de trabalho e poder acreditar que vale pelo menos tanto como as folhas onde está impresso. Que não vai ser interpretado e reinterpretado até não valer nada. E, de resto, leiam os jornais, ouçam a opinião na televisão: quantas vezes viram alguém a louvar o funcionalismo público ou formas cooperativas de trabalho? É bastante mais provável apanharem o ponto de vista contrário. O discurso hegemónico neste momento é o do empreendedorismo e da inovação. É aí que se concentram os financiamentos, os apoios e os concursos. São chavões que não correm risco de vida nenhum.

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Insultos

Tenho a convicção, a certeza, que não vale a pena dizer mal do governo ou até votar contra ele, sem também lutar contra o que António Guerreiro chama o microfascismo, que é uma coisa do quotidiano, talvez a mais marcante  e característica destes tempos: um medo constante e deliberado, entendido como um estímulo necessário, ao empreendedorismo, à inovação, à iniciativa. A sair da zona de conforto constantemente, quer se queira quer não. Não é possível resistir sem resistir também a isto.

Já não posso ouvir as palavras “empreendedorismo” e “inovação” sem as sentir como um insulto violento, pior ainda porque dito sem consciência disso, como se fosse uma coisa boa – como quem acha refrescante mandar piropos na rua ou não vê problema nenhum em associar judeus a dinheiro.

 

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A privatização do microfascismo

António Guerreiro no Ípsilon de hoje:

‘Tornou-se evidente que a sociedade de controle (que todos nós sabemos hoje muito bem o que é, mesmo sem a ajuda de mediações teórico- filosóficas) desenvolveu a produção de bens e serviços imateriais e um modelo ético baseado na competição e no sucesso que deu origem a um fascismo empresarial. Na relação das empresas com os seus “colaboradores” (este novo nome para os trabalhadores vale com uma sintoma), o clima é friendly, o chefe não é um patrão, mas um líder, e a “cultura” empresarial que se constrói é sempre de colaboração e a-conflitual, orientada para uma “missão” e determinada por uma “visão”. Por trás, sustentando esta “cultura”, está o medo, não o grande medo inculcado pelo fascismo tradicional, mas os pequenos medos que o novo fascismo gere e multiplica. A experiência do medo é o factor primeiro deste novo fascismo e está hoje generalizado, em todos os ambientes de trabalho, até nas empresas mais liberais. O novo fascismo, organizando estrategicamente as pequenas inseguranças que alimentam medos (antes de mais, o medo de ser despedido), apresenta-se como um pacto para a segurança, para a gestão de uma paz angustiante, fazendo de todos nós – e muito particularmente todos os colegas de trabalho – microfascistas. E há, depois, o novo fascismo cultural, a lógica da uniformização. Não através da anulação das diferenças entre os indivíduos, como o velho fascismo, mas produzindo uma homologação a partir da produção de diferenças (tudo é diferente, exactamente para que tudo seja igual). Este novo fascismo cultural tem como instrumento principal o editorialismo, que é o contrário do pensamento crítico. Este editorialismo generalizado está bem patente, no espaço público mediático, na proliferação do comentário político e opinativo que corrompe e intoxica a linguagem. Podemos então verificar que o novo fascismo tanto pode ser de esquerda como de direita, tanto habita a página ímpar do jornal como a página par, tanto se senta à direita como à esquerda do jornalista que apresenta o telejornal.’

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Tradições

Já agora, ainda a propósito do post anterior: se o neoliberalismo é uma versão gourmet de estratégias anarquistas, muita das estratégias estéticas da arte dos anos 60, 70 tornaram-se corriqueiras e em grande medida inócuas: o meme é o descendente directo do detournment situacionista; a derive massificou-se em projectos de turismo e mapeamento alternativos, não anda muito longe do incentivo a sair da zona de conforto; o ne travaillez jamais traduz-se em “nunca sejam pagos” porque se o fizessem por dinheiro não o estariam a fazer por prazer.

Recuperar os sentidos originais de todas estas estratégias, dizer que originalmente eram marginais não ajuda em nada: agora são igualmente marginais, no sentido de serem irrelevantes mas também de serem muitas vezes ilegais (o meme viola o copyright; o estágio não remunerado é ilegal) ou pouco éticas (o turismo selvagem é uma praga).

Ou seja, para fazer qualquer coisa com interesse não basta invocar uma tradição: é preciso aplicá-la de um modo mais eficaz, mesmo que isso implique desvirtuá-la.

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Anarquia Gourmet

Pouco antes das eleições, aparecem sempre os apelos à abstenção: porque votar só legitima o sistema; porque se não houver ninguém a votar, vai-se perceber que isto é uma farsa; etc. Não, não vai. Este governo foi eleito com pouquíssimos votos em termos relativos. A abstenção só o favorece. Tal como favorece o PS. Acaba por estimular o voto útil que prejudica pequenos partidos.

A esquerda mais radical ainda não percebeu que o neoliberalismo é uma espécie de anarquia gourmet. Desvalorizar e deslegitimar o Estado e as suas instituições, a começar pelo voto, só o favorece. Olhando para o discurso dos apoiantes do governo, não é muito difícil encontrar um discurso libertário, anárquico, que louva formas de organização descentralizada, o fim do Estado, etc. A diferença em relação à anarquia clássica é o uso do mercado como dispositivo base da organização “espontânea” da sociedade.

O Estado só lhe interessa por ser a maneira mais eficaz de controlar modos de organização colectiva alternativos aos seus. As eleições só lhes interessam como meio para alcançar o poder durante quatro anos. Interessa-lhe pouca participação durante esse período, tal como lhes interessa pouca participação nas urnas.

 

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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