The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

You can’t keep the cake and eat it

Depois de reler com alguma atenção o último texto, onde propunha que se abrissem duas vias de ensino superior, uma exclusivamente para estagiários outra apenas para estudantes, sendo o tempo e os meios dedicados a estes últimos financiados não apenas pelas suas propinas mas pelas dos estagiários, concluí que estava apenas a propor um sistema onde toda a gente pagaria impostos e uma parte deles seria dedicada a financiar o ensino superior. Aliás, um sistema sustentado por impostos pagos por todos poderia ser mais justo na medida em que o pagamento seria proporcional às posses e rendimentos (utopia, eu sei).

Há pelo menos dois obstáculos a isto: a doutrina neoliberal em geral; e a crença parola de que não há problema nenhum em ter um canudo sem ter frequentado minimamente uma universidade ou politécnico, fazendo tudo por equivalência com a “escola da vida”. Mais valia trabalharem e terem os impostos em dia do que andarem a querer dizer mal do bolo, enquanto o querem comer da maneira mais destrutiva possível.

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(Arroto)

Continuando o último texto e respondendo aos leitores que pensam que sim sim é preciso mais tempo mas para preparar para a vida real, porque isso não se faz na escola mas é na escola que se devia fazer: tenham juízo. Se o objectivo é formar estagiários o mais depressa possível, mais vale nem passar pela escola. Já começo a achar que devia haver duas vias dentro do ensino: a) o modo normal. Pagam-se propinas e estuda-se, teoria, filosofia, tipografia, sem estagiar o que quer que seja durante o curso. Como se financia isto? É simples: 75% dos alunos estudam em b) modo Relvas: Pagam-se propinas para estagiar desde que se entra para a faculdade. Antes até. Desde o momento em que se sabe que se entra. Antes até. Logo que se sabe que se tem dinheiro para entrar. Assim a escola consegue preparar gente para a vida real dando-lhe ao mesmo tempo a legitimidade do canudo. Graças às propinas pagas por estes imbecis jovens empreendedores, que de resto não ocupam tempo nenhum ao pessoal docente, nem ocupam espaço de aulas, é possível atender com toda a dignidade os alunos do modo a). Fica toda a gente a ganhar.

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À pressa

Um aluno agora passa três anos da sua vida num curso (quatro aqui nas Belas Artes), que é um torvelinho concentrado de introduções às introduções, semestrais e rapidíssimas, com turmas grandes, trabalhos práticos pouco ou nada acompanhados, feitos em grupo (que é para ser mais fácil gerir a manada). Em design (como desconfio no resto) não chega. Há coisas que, mesmo que sejam feitas num piscar de olho na vida real, precisam de anos de treino para ser bem feitas. A qualidade consiste em resistir ao expediente, à urgência, ao desenrasca. Mas, pelo contrário, o que se quer é expediente, urgência e desenrasca para provar que é tudo “real”. Ou seja, passa-se três anos a fazer merda à pressa para que o aluno esteja preparado psicologicamente para fazer merda à pressa o resto da sua vida útil e inútil.

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Em saldo! Anarquia para as Massas!

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O título vem explicado logo na primeira citação, traduzida da revista Internationale Situationniste número 9. Enquanto toda a gente se queixava na época que “era preciso entrar no século XX”, os situacionistas achavam que a sua era, até agora, a melhor tentativa para dele sair. Ninguém melhor para os desmentir do que os próprios fãs mais acérrimos que em pleno século XXI ainda defendem a todo o cuspo a actualidade de um movimento que teve o seu auge há mais de meio século. Boa parte das suas estratégias já foram gentrificadas há muito e são o equivalente cultural daquele truque que faz crer às crianças mais pequenas ser possível separar e voltar a colar a ponta do polegar ao resto do dedo. Era bom sair do século XX de uma vez por todas, de facto.

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O que faz da arte arte

Ainda nesta sexta eu falava da necessidade de uma arte mais caricatural, mais casca grossa, pelo menos no que diz respeito à intervenção política, e não foi preciso muito para que mais um bom caso de estudo aparecesse. Um aluno de artes plásticas está a ser julgado por ter enforcado uma bandeira de Portugal, acusado de ter ultrajado os símbolos nacionais, pode apanhar cinco anos, etc. Lembra um pouco o caso da bandeira do Paulo Mendes que foi censurada no edifício AXA há pouco mais de um ano. Lembra também o “Funeral de Portugal” do artista de rua Mais e Menos que levou à demissão do Comandante da GNR de Braga. Em todos estes casos, os símbolos nacionais foram manipulados em obras de arte com conseqüências políticas e/ou legais imediatas. Outra coisa que estes casos têm em comum é que todos eles são considerados pela comunidade das artes como má arte – demasiado óbvia, inegavelmente panfletária, oportunista, etc. (Se é que são considerados de todo como arte) Leia o resto deste artigo »

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Ser Público em público

Recuperei o gosto pelo cinema de uma maneira nova para mim. Não é a cinefilia clássica, reconheço, mas sabe tão bem ou melhor. Vou ao cinema enquanto espectador, enquanto público, sentar-me numa cadeira durante umas horas, ouvir, ver, sem tomar notas, sem participar, sem ser produtivo. Basta-me esta experiência. Estou cansado, muitas vezes literalmente cansado, de participar produtivamente, de seminários, conversas, conferências e workshops. Leia o resto deste artigo »

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Compromissos

Hoje o Ípsilon anda particularmente interessante com dois artigos sobre arte e política, ambos de José Marmeleira. Um é uma crítica à exposição Art Stabs Power – que se vayam todos!, o outro uma entrevista ambiental a António Pinto Ribeiro a propósito de outra colectiva, Artistas Comprometidos? Talvez, que comissariou. São peças interessantes porque permitem perceber bem os pontos cegos do discurso da arte e da sua crítica quando lidam com a política. Leia o resto deste artigo »

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Os Bazooka brincam aos médicos.

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Atenção, leitores: este texto está acompanhado por imagens que podem impressionar. Não muito porque escolhi as mais calmitas, mas não estou a brincar. Se não quiserem ver, vão até ao texto de baixo ler sobre a nova direita. Depois não digam que não avisei. Leia o resto deste artigo »

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Os Patos Bravos

Por falta de tempo e porque entretanto gente mais qualificada do que eu já o fez, não comentei ainda o artigo de Paulo Moura sobre a “Saída do Armário” da nova direita. Acho-o pouco crítico e mal pesquisado. Tal como foi apontado no primeiro link, esta nova direita está longe de ser nova e está longe de viver no armário. Anda por todo o lado já faz pelo menos uma década. Não é fenómeno único português: é possível ver os mesmos argumentos e as mesmas falácias usadas exactamente da mesma maneira em debates nos Estados Unidos, em Inglaterra, na França ou na Alemanha. Leia o resto deste artigo »

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Não resisti

Em Viana do Castelo, na mesma rua, logo a seguir ao café moderno… Leia o resto deste artigo »

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Escamas

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Habituei-me a não esperar grande coisa do design recente que me parece sempre despegado. A última coisa que me deixou de boca aberta foi uma citânia da Idade do Ferro perto de Viana do Castelo. Primeiro pareceu-me apenas uma extensão de muros rasos, semelhantes aos que se encontram um pouco por todo o lado em Trás-os-Montes, por exemplo, mas depois olhei bem para os padrões e as paredes parece que acenderam. Ao contrário das casas que estamos habituados a ver as pedras não estavam dispostas horizontalmente mas em padrões helicoidais, dando-lhes o aspecto de grandes escamas. As casitas pareciam postas cortadas de uma serpente de pedra. Como seria de esperar, dada a minha falta de jeito para as fotos, o efeito mal se nota nas que tirei. E pela internet não apanhei nenhuma onde se pudesse observar. É daquelas coisas que é preciso estar lá para ver.

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Sou o audiobook de mim mesmo

Já que tenho estado a desancar nos clichés da nova academia, deixem-me desancar num dos meus menos favoritos: a entrevista. Eu e mais outros tantos andamos sempre a dar entrevistas, principalmente porque há uma tradição de dizer que as entrevistas valorizam uma tese, etc. No que me diz respeito, não há nada que eu possa dizer numa entrevista que já não tenha escrito e publicado. Às vezes, aparece alguém (muito raramente) que fez o trabalho de casa e leu os textos pertinentes. Na maioria dos casos, só estou a declamar em voz alta textos para gente que não se quer dar ao trabalho de os ler – sou o audiobook de mim mesmo.

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E, por falar em metodologia:

Se há prova da burocratização do ensino superior é a praga de cadeiras de metodologia em todos os ciclos de estudo. Na sua vertente mais comum são sessões de auto-ajuda dedicadas a ensinar o aluno a preencher a papelada o paper, a organizar a tesezita de acordo com um índice qualquer, estado da arte, casos de estudo, etc. São aulas de protocolo, em suma. Às vezes, nem têm conteúdo e o professor dedica-se a acompanhar o que é feito em outras cadeiras ou projectos de investigação. Curiosamente, quanto mais cadeiras de metodologia existem menos efeitos se notam nos alunos. Não sabem como assinalar uma citação, como organizar uma bibliografia, um índice. Ou pelo menos é o que parece. A realidade é muito mais estúpida do que isso. Já não é a primeira nem a segunda vez que sugiro alguma coisa a um orientando e ele me diz que o “Professor de Metodologia” sugeriu de outro modo. A isso pergunto-me a mim mesmo porque perco eu tempo a orientar teses, quando há dúzias de cadeiras de metodologia que o poderiam fazer muito melhor do que eu. Ainda sou um orientador bastante liberal que não impõe uma norma mas dá várias opções de acordo com o contexto. Imagino que alguém mais “rigoroso” concluiria que os alunos usam as normas erradas, não percebem nada de metodologia, e toca a criar ainda mais outra cadeira de metodologia. Ou seja, parece-me que a partir de certo nível as dificuldades metodológicas se prendem mais com o excesso de metodologias do que com a sua ausência. E (se calhar) por estas metodologias estarem completamente desligadas dos contextos onde poderiam ser aplicadas. A coisa resolvia-se muito facilmente se cada disciplina ou orientador desse a metodologia que considera correcta. Isso, como é óbvio, é cada vez mais impossível com a estrutura semestral bolonhesa demasiado curta e recheada de alunos para dar tempo para isso em cada cadeira. E resolve-se o assunto fragmentando ainda mais. Olé.

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Metodologia Científica

Ando a tentar abrir os meus horizontes, no que diz respeito à maneira como se debate e argumenta em público. Estou disposto a arriscar coisas novas, até a admitir que nada impede um paper (por exemplo) de ser tão interessante, estimulante e inovador como um ensaio do Pacheco Pereira – passinhos de bébé, antes de ir mais longe. Agora, é só esperar que apareça um, para provar a teoria. Leia o resto deste artigo »

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Exposições de papel

Só o digo porque, a propósito do pavilhão-jornal que representa Portugal na bienal de arquitectura de Veneza, se tem começado por discutir o formato, mas não o suficiente. Parece estranho fazer um jornal em vez de uma exposição mas para quem passou os últimos anos em debates sobre a relação entre edição e curadoria não constitui novidade nenhuma, apenas uma manifestação dentro da esfera disciplinar da arquitectura de um movimento mais amplo – e nem sequer a primeira. Durante a última Trienal de Arquitectura de Lisboa, houve alguma polémica quando se percebeu que ia ser mais sobre estratégias de curadoria do que sobre maquetas (a estratégia de curadoria por defeito dentro da arquitectura). Assim, ensaiaram-se jantares, espaços de convívio, de  workshop e um sem número de publicações, uma máquina de fazer fanzines. Não surpreende quem venha das artes ou do design onde a tendência tem sido bastante mais visível: uma viragem para a curadoria acompanhada por uma viragem editorial. Curiosamente há quem veja a próxima trienal como uma correcção mas só confirma a tendência: convidaram-se arquitectos/editores para curadores. Talvez uma das razões para esta viragem seja realmente a falta de dinheiro para projectos de arquitectura, mas não me parece verosímil quando esta tendência já era visível em outras áreas antes até da crise. Nas artes e no design é possível datar um possível começo nos últimos anos do século passado, quando ainda não haviam problemas de dinheiro. Parece-me que a razão principal (há sempre mais do que uma, quando se fala de uma moda) é uma hegemonia da gestão enquanto estética que se manifesta na sua vertente mais comum como empreendedorismo e que nas artes se traduz enquanto curadoria e/ou edição.

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Os Espigões

O objecto de design da semana? Os espigões de metal instalados nos vãos de um prédio de luxo em Londres. Ter condomínios de luxo com gente a dormir à entrada já não chateia ninguém. É normal. O custo de fazer negócio. Agora, ter um condomínio de luxo onde gente rica se recusa a alçar as calças ou o vestido de gala e saltitar entre trapos e gente até chegar à porta de entrada? Isso, pelos vistos, já é uma violação do contrato social. Esta nova fronteira de indignação ilustra bem até onde a nossa sociedade desceu. Leia o resto deste artigo »

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Se pudesse

Ando a ler trabalhos, se pudesse leria outras coisas. Interrompi a biografia de Rimbaud, por Graham Robb, da qual andava a gostar bastante, sobretudo da descrição de um poeta sujo, muito deliberadamente mal educado, a pôr ácido sulfúrico às escondidas na bebida dos amigos, a vender porta-chaves para sobreviver. Para além disso: relia os Love & Rockets de Jaime Hernandez mais uma vez; voltava ao George Saunders; ao David Foster Wallace (aos ensaios, menos à ficção); relia o Carl Barks (sempre); terminava o Use of Weapons do Iain M. Banks; lia qualquer coisa do China Mièville; lia toda a Doom Patrol do Grant Morrison.

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Aprender a respirar

Ontem fiz algo que pensava ser impossível no Porto: vi no facebook às vinte para as nove que ia passar às nove e meia o último filme do Gonçalo Tocha no Passos Manuel, e (Domingo à noite) meti-me no Metro e fui. Ver cinema impulsivamente no Porto ainda é raro mas pode ser que melhore. Já aparecem filmes na maioria dos dias da semana. Antes de sair de casa, ainda li um ou dois artigos sobre o que ia ver. De um deles, retenho (de memória sem citar) que Tocha dizia que o filme tinha uma hora e meia, sem banda sonora. Que era um mergulho em apneia. Discordo e concordo. Passar uma hora e meia a ver um filme quase silencioso é, para mim, das poucas ocasiões onde posso realmente respirar. Mas tal como a apneia ou pelo menos a respiração especializada que se usa para nadar longas distâncias, é uma disciplina do corpo que tem que se aprender, que não é natural e se perde com a falta de exercício. Ver um filme ou ler um livro precisam da mesma disciplina: de não ver o telemóvel, não refrescar o facebook, não ver mais uns minutos da série de televisão.

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Lembretes

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Mesmo para quem nunca acreditou naquela treta do “Marcelismo como transição para a democracia interrompida pelo 25 de Abril” os testemunhos que ouvi ontem são um bom antídoto para toda a relativização em curso. O ex-prisioneiro político que ouvimos ontem era procurado pela PIDE porque andava a distribuir panfletos a apelar ao pacifismo, com o símbolo da Paz de um lado e um poema do Bertold Brecht do outro (na foto). Já agora também soube há pouco tempo que a Amnistia Internacional foi criada em reacção à notícia de dois estudantes portugueses terem sido presos por brindarem à Liberdade.

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25 de Abril no Porto

Passei a tarde a ouvir os testemunhos directos de protagonistas do 25 de Abril no Porto, desde um Capitão de Abril até arquitectos do SAAL passando por fotógrafos e presos políticos. Ouvir isto nos sítios onde as coisas aconteceram está a ser emocionante, a assistir a pessoas que se cruzaram há 40 anos e viram o mesmo acontecimento de ângulos diferentes. Apercebo-me que me habituei a pensar no 25 de Abril como uma coisa Lisboeta e televisiva, quando todo ele se passou aqui mesmoao lado no Porto.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

História Universal do: Estágio

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Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
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