The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Os Espigões

O objecto de design da semana? Os espigões de metal instalados nos vãos de um prédio de luxo em Londres. Ter condomínios de luxo com gente a dormir à entrada já não chateia ninguém. É normal. O custo de fazer negócio. Agora, ter um condomínio de luxo onde gente rica se recusa a alçar as calças ou o vestido de gala e saltitar entre trapos e gente até chegar à porta de entrada? Isso, pelos vistos, já é uma violação do contrato social. Esta nova fronteira de indignação ilustra bem até onde a nossa sociedade desceu.

No editorial do Público de hoje, por exemplo, lamenta-se os espigões. Sugere-se o assistencialismo em vez de repressão mas entorna-se de vez o caldo concluindo que “Não se trata de gritar igualdade, essa inatingível quimera, mas de exigir humanidade onde começa a imperar o desprezo na sua forma mais vil.” Se não é possível haver igualdade, se é uma quimera, humanidade será apenas a designação genérica para um ramo dos primatas.

Querem espigões à porta do prédio? Eu sugeria que pagassem uma batelada de impostos por eles. Esta semana comemorou-se o Dia da Ideia Chico-Espertó-NeoLiberal, também conhecido pelo Dia da Libertação de Impostos, que calha a 6 de Junho. Seria esse o dia em que o português médio deixa de trabalhar para pagar os seus impostos e passa a ganhar dinheiro para si próprio. Ai! Seria tão fixe que o português médio deixasse de pagar os seus impostos no dia 11 de Janeiro, pelas seis da manhã! É por volta dessa altura que o CEO de uma empresa do PSI-20 consegue ganhar o mesmo que o colaborador médio da sua empresa ganha num ano. E, por falar em médio, é bastante provável que o Dia de Libertação dos Impostos do CEO chegue bem mais cedo que o do colaborador médio, tendo em conta que não há grande tributação sobre o capital por comparação com o trabalho – por mais ridículo que seja o salário do CEO não será o grosso do seu rendimento.

Se calhar devia-se fazer também um Dia de Libertação do Salário, o dia do ano em que um funcionário há uns dez anos ganhava o equivalente ao que ganha hoje num ano. Não estou para fazer grandes contas, mas calculo que seja lá para Outubro, talvez até Setembro. E, claro, muito do seu salário vai para a Segurança Social, para pagar um subsídio de desemprego pelo qual terá que trabalhar uma segunda vez, a limpar matas ou qualquer merda semelhante. Um desempregado tem literalmente que trabalhar o dobro para receber o que descontou. E ainda paga impostos sobre isso.

Assim, se não é possível igualdade, se tudo isto é inevitável, metam a merda dos espigões. Se um dos bónus da liberdade de expressão é saber quem são os idiotas, os espigões são como um sinal de pontuação urbano a assinalar a presença de parvalhões – como se os adjectivos gourmet ou de luxo já não o fizessem. Na verdade, nem me parecem muito diferentes daquelas iniciativas de arranjar melhores camas de cartão parra dormir na rua. Querem ajudar? Recusem desigualdades obscenas de salário, paguem os vossos impostos e estejam atentos onde são gastos.

 

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Filed under: Crítica

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