The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Os Patos Bravos

Por falta de tempo e porque entretanto gente mais qualificada do que eu já o fez, não comentei ainda o artigo de Paulo Moura sobre a “Saída do Armário” da nova direita. Acho-o pouco crítico e mal pesquisado. Tal como foi apontado no primeiro link, esta nova direita está longe de ser nova e está longe de viver no armário. Anda por todo o lado já faz pelo menos uma década. Não é fenómeno único português: é possível ver os mesmos argumentos e as mesmas falácias usadas exactamente da mesma maneira em debates nos Estados Unidos, em Inglaterra, na França ou na Alemanha.

Mas reconheço que há um argumento novo (que eu nunca vi ser usado em mais lado nenhum) e é interessante, não porque aguente escrutínio, apenas pelo delírio: “A direita do liberalismo económico foi penalizada pela crise, na sua presunção de seguir modelos e práticas económicas comprovadas, rigorosas, não ideológicas. Mas abriu-se o campo para uma direita mais ideológica, mais intelectual e mais variada.” Saberem que estavam completamente enganados só lhes deu mais “liberdade criativa”. Já não precisam de provar nada a ninguém porque está provado que não funciona – uma receita que tem funcionado bem com o nosso governo. Discutem-se argumentos e modelos desde que se perceba que não há alternativa.

Mas enfim, o governo vai sobrevivendo, sustentado por uma Europa que nos vai ajudando com a única condição de continuarmos com políticas que se sabe que não funcionam. O importante é cerrar fileiras e acreditar em coisas evidentemente estúpidas contra toda a evidência é uma boa maneira de mostrar determinação, sinalizar confiança, etc.

Este artigo, tal como outros, surge como uma tentativa de retratar favoravelmente os “vencedores” construindo-lhes também “problemas”, “inimigos” e uma “história” à altura. Não seria suficientemente interessante defender que a blogosfera também trouxe uma nova esquerda que debate exactamente nos mesmos fóruns (para cada Pedro Mexia e João Miguel Tavares, um Ricardo Araújo Pereira). Esta nova esquerda também é confrontada diariamente com o passado (com o Estalinismo, com os “excessos do 25 de Abril”, e por aí adiante). Também tenta navegar uma história que lhe seja favorável, etc.

Para a nova direita, quer-se é distância do Salazarismo apenas para se cair em coisas igualmente ou até mais imbecis com a única vantagem de serem mais obscuras e portanto aparentemente difíceis de discutir: o Marcelismo, o Integralismo, o Liberalismo original (que pouco tem em comum com o neoliberalismo). Quer-se é distância em relação a um poder político  favorável mas embaraçoso, porque não acerta uma, o que para esta nova direita significa apenas que é moderado demais. Neste aspecto, a nova direita não se distingue em quase nada dos Soares dos Santos e dos Fernandos Ulrich, dizendo as mesmas alarvidades com todas as vírgulas. Se a nova direita diz que saiu do armário (já se viu que é mentira) é porque percebe que os ventos lhe sopram nas velas. Perdeu a vergonha. Pode dizer as tretas que lhe apetecer (inclusive que saiu do armário). É pena que para isso tenhamos que voltar a outro género de vergonhas: a pobreza generalizada, a legalização efectiva de quase toda a corrupção (a privatização é isso mesmo), o declínio da educação, da saúde, da mobilidade social, etc.

O conservadorismo que se defende ao longo deste artigo é apenas um nome e bastante sardónico por sinal. Para quem tenha menos de quarenta anos, teve toda uma vida de relativa igualdade, segurança e prosperidade. Dizem-nos que devemos deixá-la para trás em nome de um conservadorismo definido por Miguel Esteves Cardoso,  a propósito do livro de João Pereira Coutinho sobre o assunto como sendo “nem sequer […] o contrário de […] reaccionário. É apenas uma maneira desconfiada de encarar a vida.” Que se fodam.

 

Advertisements

Filed under: Crítica

One Response

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: