The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Compromissos

Hoje o Ípsilon anda particularmente interessante com dois artigos sobre arte e política, ambos de José Marmeleira. Um é uma crítica à exposição Art Stabs Power – que se vayam todos!, o outro uma entrevista ambiental a António Pinto Ribeiro a propósito de outra colectiva, Artistas Comprometidos? Talvez, que comissariou. São peças interessantes porque permitem perceber bem os pontos cegos do discurso da arte e da sua crítica quando lidam com a política.

Por exemplo, o próprio título da exposição de Pinto Ribeiro é deliberadamente vago, quase pusilânime. Declara uma indecisão. Percorrendo o artigo percebe-se que a hesitação é programática. A primeira definição de compromisso que nos é apresentada é para “com o legado artístico, com a arte”, curiosa na medida em que inverte a ideia habitual, de um compromisso para com uma agenda (política, religiosa, social) que é exterior à de uma arte tida como autónoma. A segunda (“uma atitude que no meio das maiores vicissitudes, das maiores catástrofes, encontra espaço para a expressão de uma certa alegria, de uma ideia de festividade”) não passa de um reforço da primeira – uma arte comprometida será aquela que de encontro às maiores vicissitudes e catástrofes consegue encontrar no seu legado disciplinar a possibilidade de ser festiva e alegre.

Vira-se assim do avesso o comprometimento, tentando-se fazer passar (na melhor das hipóteses) como comprometida uma arte que mantém a sua autonomia no meio da desgraça. Na prática, trata-se apenas de reforçar o programa habitual, considerado inevitável, de uma arte perfeitamente integrada dentro da sua própria história, deliberadamente vaga nas suas relações com o contexto, de modo a criar o mínimo de inércia possível à circulação (comercial e institucional) dos objectos que produz e legítima. Para que não haja dúvidas, logo a seguir aparece a garantia do costume: “As obras e actividades dos artistas desta exposição não são militantes ou panfletárias, mas partem de um programa individual, pessoal” – já me habituei a procurá-la, sempre que leio qualquer coisa sobre arte que possa ser interpretada como sendo política ou comprometida; é um lugar comum.

É todo um esquema crítico que se pode verificar na recensão a Art Stabs Power. Em primeiro lugar, pergunta-se qual a posição desta colectiva dentro das categorias pertinentes da arte, enumerando precedentes. Em segundo lugar, verifica-se a sua ineficácia ao tratar “problemáticas que, sem o necessário aprofundamento, correm o risco de se anularem na redundância ou na mera ilustração”, caindo num “voluntarismo tão bem-intencionado quanto escolar. Resumindo, o espectador antecipa, sem grande esforço, algumas das imagens, dos discursos e dos acontecimentos que a atravessam.” Mais uma vez, os objectos considerados com interesse são os que “se furtam a prescrições e guiões.” E quando a sua descrição os aproxima de uma caricatura, como no caso de Fernando J. Ribeiro, com uma bandeira da união europeia de onde se sugere a queda das estrelas representadas por batatas fritas, há logo de seguida o cuidado de garantir a sua filiação dentro de uma história da arte formalista (“A presença do azul, as memórias da pintura que o monocromo evoca, envolvem o espectador num outro tempo que não o do século XXI.”)

Pela minha parte, começo a acreditar que uma arte caricatural, mais casca grossa, pode ser bastante mais eficaz nos dias que correm, até porque põe em causa os limites deste género de discurso teórico e crítico. Será quase contraditório dar um exemplo histórico, mas vejam-se os Humoristas portugueses do começo do século XX. A própria ideia de uma arte que recusava a história e se dedicava a verter ácido na espuma dos dias era em si mesma uma crítica da arte como um recinto fechado que só pode enfrentar o presente através de camadas e camadas de simbolismo e interpretação.

Curiosamente, durante a entrevista a Pinto Ribeiro critica-se o excesso de mediação da arte contemporânea, enquadrando-se isso como uma possível crítica ao papel do curador (“É hoje uma evidência o excesso de mediação entre os artistas, o público e as instituições. […] Cabe muito do poder de selecção aos curadores.”) Pessoalmente, considero que essa crítica mais do que a do museu, da galeria, é a interrogação política crucial da arte contemporânea. Pinto Ribeiro, contudo, acredita que “o problema não são os curadores, e sim o excesso da sua influência e autoridade, que vai personificando um star-system”. Na verdade, o star system só desvia a atenção para uma hegemonia vertical da curadoria na arte contemporânea, que atravessa tudo desde a bienal até à galeria de vão de escada, passando pelo ensino das artes, refazendo a arte como uma forma de administração burocrática.

Observar que há “muitas situações de promiscuidade entre curadores, responsáveis por colecções e críticos. E isso não é nada saudável para os artistas e as programações” é como dizer que há muita corrupção quando o próprio funcionamento do Estado se tornou hoje em dia numa forma legalizada de corrupção, desviando recursos públicos para ganho privado através de privatização. É evidente que há muitas “situações de promiscuidade entre curadores, responsáveis por colecções e críticos.” Olhando para o percurso habitual de muitos dos críticos, percebe-se que essa promiscuidade deriva de serem quase sempre etapas na carreira da mesma pessoa – pontos de bónus se essa pessoa se dedica a atacar ferozmente a promiscuidade os outros críticos enquanto faz a mesma coisa. Também é comum. E diria mesmo: inevitável. Quando Pedro Gadanho dizia que a curadoria é a nova crítica, tinha razão embora não da maneira mais óbvia. Não é defeito, é feitio. É o sistema.

Advertisements

Filed under: Crítica

3 Responses

  1. […] nesta sexta eu falava da necessidade de uma arte mais caricatural, mais casca grossa, pelo menos no que diz respeito à […]

  2. […] ainda através da própria expressão artística – tirando alguma tentativas mornas, em geral mal recebidas e percebidas pela crítica (ver o próprio caso Rui Mourão). Aliás, como Daniel Oliveira notou ainda esta […]

  3. m0rph3u diz:

    Este texto refere várias das razões que levaram ao meu afastamento relativamente à escrita sobre arte que se faz nos nossos dias. Basicamente, a escrita sobre arte não é para se levar a sério. Tão pouco serve como fonte de humor. São apenas registos para cumprir calendário e servir uma clientela semi-anónima, que faz da arte o seu sustento (e que para ser mencionada faz parte de um determinado meio).
    São expectáveis. Acríticos.

    Nos dias que correm ser-se falado por um qualquer meio de comunicação é motivo para aumento da autoestima do sujeito falado e notoriedade entre os seus pares (normalmente os mesmos que coexistem pelos vários eventos, que vão acontecendo).
    Ainda que a forma como os trabalhos são abordados seja banal: lugares comuns, palavras-chave retiradas do vocabulário aceite e do momento, citações e pouco mais.

    Ser-se crítico não implica a desconstrução da obra ou do autor. Implica sim abordar a obra com inteligência e alguma reflexão. Se possível contextualizar um determinado trabalho no corpo de trabalho do artista; na instituição onde é exposta; no período em que foi produzida…
    É inevitável que dessa perspectiva, o curador ganhe tanto ou mais destaque que o artista que gerou o trabalho, que motivou esse destaque.
    O curador foi a fonte do jornalista acrítico. São as suas palavras (ou as citações que coligiu) que são usadas na geração do texto que tem a intenção de criar a curiosidade no público.
    Mais profundamente e não me parece que tenha sido objecto de qualquer reflexão (apesar de existir uma descrição no livro publicado por Alexandre Melo) até hoje é entender o que é o sistema das artes.
    Porque a promiscuidade existe e tal como noutros sistemas (político, económico, academico ,etc) reflecte a hierarquia – as relações de Poder entre os intervenientes do sistema.
    A crítica, ou ausência da mesma, apenas reflecte um mal generalizado que se denomina de compromisso (mais em concreto, a ausência deste).
    Não havendo um compromisso consigo mesmo, a “crítica” (bem como a curadoria e até mesmo a criação) apenas funcionam como uma espécie de narcótico legitimador mantendo a ilusão de que tudo está bem e amplificando palavras, que de tanto repetidas se torne torne uma verdade comum.
    De artistas, curadores ou críticos só busco uma coisa: inteligência.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: