The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O que faz da arte arte

Ainda nesta sexta eu falava da necessidade de uma arte mais caricatural, mais casca grossa, pelo menos no que diz respeito à intervenção política, e não foi preciso muito para que mais um bom caso de estudo aparecesse. Um aluno de artes plásticas está a ser julgado por ter enforcado uma bandeira de Portugal, acusado de ter ultrajado os símbolos nacionais, pode apanhar cinco anos, etc. Lembra um pouco o caso da bandeira do Paulo Mendes que foi censurada no edifício AXA há pouco mais de um ano. Lembra também o “Funeral de Portugal” do artista de rua Mais e Menos que levou à demissão do Comandante da GNR de Braga. Em todos estes casos, os símbolos nacionais foram manipulados em obras de arte com conseqüências políticas e/ou legais imediatas. Outra coisa que estes casos têm em comum é que todos eles são considerados pela comunidade das artes como má arte – demasiado óbvia, inegavelmente panfletária, oportunista, etc. (Se é que são considerados de todo como arte)

É evidente que as duas coisas (ter consequências e ser má arte/não ser arte) estão ligadas. Os mecanismos estéticos de legitimação da arte garantem à partida que a arte pouco impacto tem para além do posicionamento do artista dentro do campo disciplinar da arte, da sua história, das suas instituições, da sua circulação, onde o político é autorizado desde que não seja panfletário, a intervenção é encorajada desde que bem intencionada, relacional e etnográfica, o activismo tolerado desde que inconsequente. Tudo isto se faz pesarosamente cumprir através dos critérios de avaliação críticos em voga, tanto na boca dos artistas, como no teclado dos críticos ou na selecção dos comissários.

O resultado é uma arte tacticista, jogando dentro do labirinto dos seus próprios estatutos, embora sempre de narizito gorduroso a resvalar pela vitrina que deixa ver o mundo lá de fora. Se tivesse de a resumir numa palavra, eu usaria “Seguro” – não é um erro de concordância, porque estou a falar do actual líder do PS.

 

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Filed under: Crítica

2 Responses

  1. M diz:

    Acredito que haja muitas pessoas, artistas ou não, que procurem criar aquilo que sentem que faz falta, seja em comunidade, na experiência do mundo ou no imaginário colectivo, assim como procuram encontrar naquilo que fazem o que gostariam de assistir, hipoteticamente enquanto espectadores, consumidores, clientes, público etc. Isto é possível quando o que se faz é feito com respeito a si próprio e ao mesmo tempo quando se dignifica o público, gratificando-o com o que melhor que se consegue fazer, com dedicação, vontade, energia. Se o resultado é gratificante para quem o faz, fará sentido confiar na possibilidade de que haja mais pessoas que sintam empatia com o que se criou, e assim, torna-se público (podendo ser discutido e tornando-se eventualmente político).
    Se há menos artistas do que o Mário deseja que se dediquem a intervenções políticas relacionadas com símbolos da República Portuguesa (por ex.), talvez seja porque essas mesmas pessoas não sentem necessidade de acrescentar mais valor e atenção a esses símbolos do que já lhes é atribuído no dia a dia.
    Talvez, agora, possa dizer, que a necessidade faz o artista, e que, sentido o Mário essa necessidade (e acredito que tenha as ferramentas para o poder fazer) poderá empenhar-se em fazer o que gostaria de assistir.

  2. […] artística – tirando alguma tentativas mornas, em geral mal recebidas e percebidas pela crítica (ver o próprio caso Rui Mourão). Aliás, como Daniel Oliveira notou ainda esta semana, é […]

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