The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Não é plágio, é Castello

Castello3

Esta semana e a última, de avaliações, fui seguindo pelo Facebook o caso da nova campanha da Água Castello. Soube por um share do João Maio Pinto no seu mural que lhe andavam a perguntar se tinha sido ele a fazer as ilustrações ao que ele respondia que não tinha nada a ver. A confusão é plausível. Uma das suas influências mais evidentes é o americano Charles Burns, autor de Big Baby, El Borbah, Black Hole. Pouco depois, também via JMP, li um comentário no blog da Fantagraphics Books, uma das editoras de Burns, ilustrados por comparações entre os desenhos de Burns e os da Castello deixando muito poucas dúvidas de que estes últimos eram cópias directas (uma Laurie Anderson disfarçada por uma risca ao lado, uma cena de bar evidentemente decalcada, etc.).

Mais tarde, o director criativo da agência Strat, responsável pela campanha, sai-se com esta, que vale a pena citar na integra:

“No mundo da publicidade todos os dias os criativos de todas as áreas em vários pontos do globo servem-se de referências cinematográficas, fotográficas e de outras expressões artísticas para o desenvolvimento do seu trabalho[…] José Saramago, Fernando Pessoa ou, mais recentemente, J.K. Rowling, todos foram acusados de plágio. Não há acusação mais fácil de fazer e, ao mesmo tempo, mais subjetiva […] Estamos de consciência tranquila e seguros do caminho proposto. Não é a primeira, nem será a última vez que uma acusação destas surge no meio criativo. Não é a primeira vez, nem será a última que a mesma seguirá o caminho de tantas outras”

Pois. Não duvido. E também acho que o cargo devia ser director “recriativo” porque de criativo não tem nada, nem sequer a lata. Mas tem piada, lá isso tem.

Sim, tudo é citação, não há nada de novo, nem sequer as acusações de plágio, etc. Mas lembro-me de Saul Bass ter levado a mal o genérico de um filme de Spike Lee que o homenageava: “Homenagem é roubar os mortos. E eu não estou morto.”

São águas tradicionalmente turvas, é verdade; neste caso ainda mais porque a agência em questão está-se evidentemente a cagar nelas. Argumentar que há muito plágio logo mais um não importa é a mesma coisa  que argumentar que um crime deixa de fazer diferença porque é generalizado. Ser roubado é mau; ser roubado todos os dias é pior.

Burns teve trabalho a produzir as suas ilustrações. Os “criativos” tiveram trabalho a retocá-las e a passá-las como sendo suas, cobrando (presumo) alegremente por isso. Não é a mesma coisa. Não se pode dizer sequer que se trate de trabalharem num estilo, escola ou influência comum. As ilustrações de João Maio Pinto, por exemplo, não macaqueiam, nem se confundem com as de Burns, tal como as deste último não se confundem com as bandas desenhadas da EC Comics que citam.

Há apropriações interessantes, que trazem algo de novo ao material de origem. Aqui, a própria referência aos supostos plágios de Saramago, Rowling ou Pessoa nem chega sequer a ser banal. Mostra bem as referências destes marmelos provavelmente encontradas via google/wikipédia como tudo o resto. Até surpreende que tenham dado com o trabalho de Burns. Mais valia terem posto uns girassóis do Van Gogh ou uns asteriscos sarapintados à Miró.

Mas a arrogância sonsa da resposta não me surpreende. É a mesma que ouço dos alunos que vou apanhando a plagiar. Houve uma, há uns anos, que, quando a confrontei com o copy/paste de metade de um texto meu num trabalho para uma cadeira minha, reagiu assegurando que nem sequer o tinha tirado do meu blogue. Copiou mas não é burra, portanto, um autêntico génio do crime.

E é a mesma arrogância que ouço de “criativos” e outros “empreendores” [sic] quando racionalizam um estágio não remunerado. Se vivemos numa sociedade que não paga às pessoas que trabalham na secretária ao lado, porque haveria de pagar a um americano do outro lado do planeta?

Há gente que não tem um CV. Tem um comando C e um comando V.

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Filed under: Crítica

15 Responses

  1. parvoíces diz:

    seja o caso tornado público, e sempre se publicita a fonte…no limite: fizeram-lhe um favor!?
    ?hein???

    …fonte; águas; mar… & águas gaseificadas (artificialmente, ou não…)
    Resta saber se as águas castelo poderão ser uma má referência associativa?
    Pôr-se-á em causa uma espécie de direito de controlo (ainda que parcial) sobre os circuitos de influência [leia-se: não querer expor-arriscar; desvirtuar um qualquer subterrâneo- …sobre os efeitos da banalização implícitos, como decorrentes significados, etc./ o gerúndio dos objectos: da Forma nominal e invariável do objecto, obtida por modificação do INFINITIVO DO OBJECTO[?] com mudança do ‘r’ em ‘ndo’ (ex.: ‘correr > correndo’), e que pode ter uma função adverbial ou aspectual.
    É ‘meu’, só eu quero, posso, mando, ponho, disponho…

    “The Revolution Will Not Be Televised”?
    http://pordetrasdomuro.blogspot.pt/2008/11/nada-meu.html

    krefbewgeiwrugrighbláblá whiskas saquetas->amarelo:páginas amarelas…?

    …H2O

  2. helder dias diz:

    esta campanha dá-me gases….

  3. helder dias diz:

    é um pllágio

  4. Nada diz:

    Ai jasus…tão copiadinho que dá dor na cornea

  5. éme diz:

    gostei (especialmente) do último parágrafo.

  6. “Há gente que não tem um CV. Tem um comando C e um comando V.”

    Bela frase, posso usar?

  7. Excelente texto, Mario. (grande Saul Bass)

  8. João A. Costa diz:

    Muito bem escrito caro colega

  9. Jonas diz:

    dois plágios num só produto… água castelo? tenham dó!

  10. Frank Oliveira diz:

    pessoalmente vejo aqui muita dor de cotovelo. se for um duchamp a desenhar bigodes na mona lisa é um artista se for uma apropriação e por conseguinte descontextualização com o intuito de servir um diferente propósito, também é, segundo os pressupostos da arte da apropriação, obra original. no máximo dos máximos vejo aqui apropriação da técnica o que leva obviamente a um resultado estético semelhante mas diferenciado. Acho que abordar esta temática de forma tão superficial acaba por revelar um pouco de ignorância intencional.

    • Por norma não respondo a comentários de textos escritos há mais de um ano mas este é bom demais para deixar passar: citar duchamp a propósito de uma agencia preguiçosa é tão pretensioso e já agora superficial como a mesma agência pôr-se ao nível de Saramago ou até de JK Rowland.

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