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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ocupação simbólica

Não sei quase nada sobre a ocupação do Museu do Chiado durante a inauguração do artista Rui Mourão tirando o que li hoje no Público. Uma performance acabou por se transformar sem aviso prévio para a instituição numa ocupação, reivindicando mais dinheiro para as artes e um ministério para a Cultura. Assim a quente e para já acho muito bem.

Não me interessa nada discutir se é uma encenação ou uma manifestação a sério. É uma falsa questão. À partida, falando-se da cultura e das suas instituições há sempre encenação, espectáculo, o que significa apenas que se ocupa deliberadamente um espaço público à frente de uma audiência, e que se pretende que isso tenha algum efeito.

O problema é que, na cultura aqui em Portugal, num país em crise política extrema com efeitos particularmente dramáticos sobre a cultura, ainda se acredita numa arte politicamente bem comportada, onde a sobremesa se come com os garfinhos da sobremesa e o pratinho de peixe se come com a faca de peixe, mesmo que não haja nada nos pratos excepto simbolismo.

Quando o director do Museu se diz surpreendido perante uma performance que se transformou numa “ocupação não simbólica” percebem-se bem os limites e hierarquias habituais das relações entre arte e política. Não é que a performance se tenha tornado mais real, apenas que deixou de ser simbólica no sentido habitual, de se limitar a uma versão inerte de outra coisa qualquer. Se a ocupação fosse apenas “simbólica” neste sentido estaria tudo bem e na semana que vem, a meio da recensão do público, dir-se-ia (como de costume) que se trata de arte política mas, atenção, não panfletária.

Também se dirá que isto é demasiado centrado na figura do artista, no seu protagonismo, mas parece-me que dada a natureza habitual das exposições em instituições dedicadas às artes plásticas em Portugal isso é ao mesmo tempo inevitável e secundário. Quase todas as exposições são individuais, dedicadas a um artista; e quase todas as colectivas são somas de artistas individuais debaixo de um tema comum. Logo, transformar deliberadamente uma performance numa ocupação só poderá partir da iniciativa ou pelo menos da colaboração de um artista em particular. Não há representação significativa de colectivos activos em museus e exposições.

Depois, o protagonismo tem um reverso. A visibilidade traz problemas. No mundo obsessivamente cauteloso da arte, a coerência do percurso do artista e da sua gestão consciente é talvez o critério supremo. Traduzindo em miúdos: a carreira é tudo. Tendo isso em mente, repare-se como o director do museu fala de quebra de confiança e de como quem “fica com o ónus negativo no meio disto é o Rui Mourão.” Muito reconfortante.

Não me parece que isto seja a morte do artista (ou pelo menos da sua carreira): ser um artista bem ou mal sucedido em Portugal é quase a mesma coisa; mal se nota a diferença. Portanto, nunca percebi porque se pensa tanto na carreira, porque não se arrisca mais. Sobretudo nesta situação política, onde a única dúvida é entre morrer escondido ou a lutar.

 

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Filed under: Crítica

2 Responses

  1. m0rph3u diz:

    A crítica institucional só funciona se for anacrónica; pós-moderna; feita sobre arquivos e representada por bonitas imagens a preto e branco, para que se crie uma distância com o “agora”.
    Dessa forma facilmente seria exposta num museu, sem ónus negativo para os artistas.
    Aí seriam uns heróis que lutaram por uma causa.
    De notar que se um novo Messias descesse à terra, não faltariam Pilatos a lavar as suas mãos.

  2. […] há uns dias uma reacção de António Cerveira Pinto à performance/manifestação de Rui Mourão no Museu do Chiado. Vale a pena ser lida: começa por comparar os oito mil euros gastos na exposição com o salário […]

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