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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Estado da Arte Onde Chegámos

Li há uns dias uma reacção de António Cerveira Pinto à performance/manifestação de Rui Mourão no Museu do Chiado. Vale a pena ser lida: começa por comparar os oito mil euros gastos na exposição com o salário mínimo, o salário médio anual, etc. para acusar o artista de uma série de comportamentos rasca. Não deveria morder a mão que lhe dá de comer, etc.

Mas, como o próprio artista corrigiu via facebook, ele não recebeu oito mil euros. O museu gastou essa quantia na produção da exposição e na edição e impressão de um livro. Pode-se argumentar que foi um grande investimento num jovem artista, que deveria estar agradecido. Teve sorte, de facto, porque é cada vez mais comum os artistas não só não serem pagos como ainda terem que assegurar a produção das suas próprias exposições. O museu na prática só gasta dinheiro consigo mesmo e paga aos artistas em currículo, o que é muito bonito mas não é dinheiro. Comparar esta quantia com o salário médio líquido, anual, pensões, etc. é misturar alhos com bugalhos.

Um orçamento de oito mil euros para uma exposição sem que nada disso seja destinado ao artista deveria ser, só por si, motivo de protesto.

Mas, mesmo assumindo que sim, que é uma honra não ser pago pelo Museu do Chiado, que o artista deveria estar agradecidíssimo, imaginando até que recebia os oito mil euros, não há nada que impeça um artista bem sucedido, pago, de usar a sua arte para se manifestar por melhor condições para outros artistas que não ele. Só se recomenda, nem que seja por ser raro.

Já andamos há mais de meia década em crise, e a cultura pouco ou nada se tem manifestado em público sobre isso. Menos ainda através da própria expressão artística – tirando alguma tentativas mornas, em geral mal recebidas e percebidas pela crítica (ver o próprio caso Rui Mourão). Aliás, como Daniel Oliveira notou ainda esta semana, é significativo que, nos últimos tempos, a  primeira vez que a cultura se juntou em massa foi para apoiar António Costa, muito provavelmente o próximo Primeiro Ministro, concluindo que o “meio cultural português é muito mais dependente dos poderes do que politizado” e que isso  representa a “fragilidade do pensamento crítico que deve sustentar as democracias”.

Não acho que seja preciso louvar ainda mais uma arte sem surpresas, medrosa, contratualizadinha, cumprindo escrupulosa e discretamente hierarquias e programações onde o dinheiro não desce, que se recusa a morder a mão vazia que não a alimenta, que não come e ainda assim cala.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. Concordo totalmente com o ACP. 8 mil euros de patrocínio para “um menino” mal comportado é um perfeito crime. O Rui Mourão precisa de chegar “senhor” bem comportado, para o patrocinar em 2,5 milhões e mandarem-no para Versailles “à grande e à francesa” Aí não haverá problema.

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