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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Quem Pode Fazer Arte

Ontem li no Público um artigo da Maria Fátima Bonifácio sobre a bandeira enforcada do Algarve. Aparentemente a historiadora não compreende muito bem como aquela intervenção de beira de estrada, que resume como uma vergonha, poderá, para além disso, ser arte.

A dúvida é pragmática: se não fosse arte, depreende-se pelo artigo, o pretenso artista poderia ser processado e acabava-se a pouca vergonha.

Contudo, infelizmente para ela, quem “decreta hoje o que é arte não é a Tradição, não são referências aos cânones consagrados na sua História, quem hoje em dia monopoliza o juízo sobre a qualidade artística de uma obra são os curadores de museus, os galeristas e negociantes de arte, os redactores das revistas da especialidade. A Academia limita-se a seguir modas.”

Mas atenção: “um dia chegará em que o Tempo se encarregará de operar uma impiedosa destrinça entre o que resiste ao passar dos anos e das décadas, e o que nunca passou de lixo. A forca do nosso algarvio talvez ainda venha a servir para acender uma lareira.”

Quem achará ela que produz a tal Tradição com T grande? Aqueles aliens do Canal História com H grande? Neste momento é feita por “curadores de museus, os galeristas e negociantes de arte, os redactores das revistas da especialidade” – mas também por professores, artistas, políticos, visitantes, etc. Noutras épocas e contextos, já foi decidida por mecenas, por líderes religiosos, por militares.

Pode-se evidentemente discordar dos mecanismos institucionais actuais através dos quais se tomam estas decisões – se deve ser um político, um crítico ou um curador a premiar um artista, por exemplo – mas é ingénuo acreditar que a Tradição era mais pura e mais eficaz, quando ela própria é polémica por natureza. Não só foi produzida pela interacção de pessoas em circunstâncias concretas como é mantida da mesma maneira. Simplificando muito, a História enquanto disciplina não passa da discussão sobre o que é interessante ou não manter enquanto documento. Não é uma discussão de todo desinteressada – por exemplo, vale a pena construir a barragem ou preservar umas gravuras rupestres?

Do mesmo modo, discutir o que é arte ou não resume (essencialmente) o que constitui a arte enquanto campo disciplinar. (Uso esta ideia de uma disciplina como um campo de discussão porque entendo a democracia como o governo através do debate público. Esta definição não é consensual; há quem a veja como a legitimação periódica de qual metade das elites vai ao pote.)

É ingénuo mas típico do pensamento de certa direita assumir que há uma história e uma estética naturais, indiscutíveis porque inevitáveis, que são distorcidas por esta discussão. Que removendo a discussão se está a recuperar esse estado natural.

Daí que surjam as ideias sonhadoras de retirar o domínio das artes às elites, neste caso os tais “curadores de museus, os galeristas e negociantes de arte, os redactores das revistas da especialidade”, tal como se sonha em retirar o domínio da educação às elites dos professores, da saúde às elites dos médicos, do jornalismo aos jornalistas e da ciência às elites dos cientistas.

Não há, em nenhum destes casos, elite nenhuma, apenas especialistas, profissionais – que, verdade seja dita, em alguns casos abusam do seu estatuto, confundindo-se a si mesmos como uma elite e assumindo uma postura autoritária com o exterior da disciplina, sobretudo em áreas que dependem de uma discussão com clientes ou com o público em geral (como a arquitectura e o design, por exemplo).

E aqui também existem as tentações de legislar de uma vez por todas o que será ou não será arte, arquitectura, cinema, e quem tem legitimidade para o decidir – o que não é de todo reconfortante.

 

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Filed under: Crítica

2 Responses

  1. Concordo inteiramente com a tua visão desta problemática, assim como com a tua definição de democracia, embora me pareça que a sua prática choque, na realidade, com diversos obstáculos, desde logo a desigualdade, à partida, existente entre os diversos cidadãos (de literacia, de interesses, etc…)

  2. Luis Magalhães diz:

    1- a única razão pela qual a bandeira enforcada cria alguma dúvida a alguém, é por houve um idiota qualquer que se ofendeu e que sentiu a dignidade do país (bela merda…) posta em causa. Ou seja, isso da bandeira é arte na exacta correlação com a quantidade (e qualidade) de idiotas que pululam por aí. Qualquer qualidade (ou mínimo interesse que seja) intrínseca à peça não interessa para nada;

    2- o único interesse que esta peça possa ter é estritamente político. Quem frequente manifestações de rua (e não só) já viu centenas de exemplos similares a este. A única diferença é o enquadramento institucional (é portanto um exemplo máximo de dependência do sistema [deste sistema], de parasitismo, de conservadorismo [artístico]).

    3- é arte exactamente da mesma maneira que uma peça da badocha do costume ainda que em sentido (político) contrário;

    4- discutir a definição de arte é exactamente o que esta peça não faz;

    5- essa senhora não tem razão nenhuma: não é preciso Tempo nenhum para ver que essa coisa não é arte, dois dedos de testa Agora bastam.

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