The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A propósito de dizer que se Gosta ou Não de Qualquer Coisa

Não acredito que haja grande vantagem em disfarçar as opiniões públicas de cada um de leis universais – acima de tudo se essas opiniões dizem respeito à arte. Por mais que essas opiniões se ancorem em precedentes e autoridades históricas, na prática acabam sempre por ser uma opinião de quem as profere, sustentada por argumentos, entre os quais as tais citações.

É habitual dizer-se por aqui que uma opinião mal construída ou com a qual não se concorda não passa de uma opinião, tal como se diz da arte que se considera má que não é arte, o mesmo do cinema, da literatura e do resto. Há, muito provavelmente, gente com opiniões distintas da nossa, e é indelicado discutir com elas assumindo que se tratam apenas de opiniões – tal como a “sua” arte não é arte, a “sua” literatura não é literatura e o “seu” cinema não chega a sê-lo.

Calculo que a origem da confusão seja uma aplicação distorcida de Kant, que acreditava que só se deve tomar uma posição se acreditarmos que deveria ser um imperativo ou uma lei universal – que toda a gente nas mesmas circunstâncias deveria fazer o mesmo. Mas é importante ter em atenção que se trata de uma opinião; nada garante que o que consideramos universal o seja de facto. No fundo trata-se de uma regra de boas maneiras para usar em discussões: só devemos defender algo se estivermos absolutamente convictos que toda a gente deveria ser da mesma opinião que nós, dadas as mesmas circunstâncias. Ou seja, que não estamos a defender algo só porque sim, pelo prazer de discutir, por vontade de enganar ou apenas porque temos motivos pessoais.

É um código para discutir em público de boa fé. Mas garante apenas a entrada na discussão. Para que as nossas opiniões sejam levadas a sério devem também ter uma argumentação convincente, etc.

O desprezo da opinião em favor de supostos juízos universais não passa da desqualificação e exclusão sumárias de certas opiniões em favor de outras. Na grande maioria dos casos trata-se de confundir o prato com a sopa, de achar que certos formatos de opinião são mais válidos, independentemente da sua qualidade de argumentação.

Daí que a crítica de arte praticada nos jornais portugueses esteja quase sempre atolada numa espécie de pseudo-jornalismo, onde a opinião está de tal modo diluída no meio de um discurso neutro, vindo de um sujeito neutralizado, que é preciso contar as estrelinhas para se perceber o que achou o escritor de determinada exposição ou evento. E mesmo as estrelinhas são aceites a contragosto.

Toda a critica começa sempre, de modo mais ou menos explícito, por “Eu gosto porque…” Daí que prefira sempre que possível começar por dizer se gosto ou não de qualquer coisa, sustentando de seguida essa opinião através de argumentos. É uma questão de humildade, de acreditar que a minha opinião não é, à partida, melhor ou pior do que qualquer outra, que deve ser julgada pelos seus próprios méritos e não pelo modo como é proferida, por quem a profere, pelo meio através do qual é expresso.

 

 

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Filed under: Crítica

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