The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Quero ser um Gabiru

Acho que a Autonomia da Arte já não precisa de quem a defenda. É na melhor das hipóteses uma resolução de Ano Novo; o equivalente em estética a deixar de fumar. Interessa-me mais, até porque não sou nem quero ser artista, a Autonomia do Espectador.

Estou farto de ser “convidado” a participar. Já não posso com a “estética relacional”. Nem com aquelas tretas Brechtianas, Artaudianas que acham que o público está a dormir e deve ser acordado dê lá por onde der. É capaz de já ter havido uma época quando isso fazia sentido. Agora acho que as artes internalizaram o discurso neoliberal: quem não estiver a fazer qualquer coisa, o que quer que seja, quem se limite a assistir, deve ser penalizado. Quem consuma sem que isso leve à formação de uma empresa ou pelo menos a qualquer acto de produção é um idiota, um gabiru, um mandrião.

O resultado é que o público deve ser posto a trabalhar sempre que possível, deve participar e nem se concebe que não queira ou não possa. E o resultado é que acaba por desaparecer. A visita guiada é substituída pela actividade (mais produtiva); a aula pelo workshop (idem), etc.

O público não desaparece porque esteja desinteressado, apenas porque não se concebe que possa existir. Nas artes, tornou-se residual porque em grande medida se resume a artistas ou comissários que vão a eventos e exposições de outros artistas e comissários – se tu vens à minha eu vou à tua, como pessoas que só ouvem a opinião de alguém enquanto esperam pela sua vez para falar.

Em economia, se ninguém consome não adianta que toda a gente produza, por mais que se insista que produzir é uma virtude e consumir um falha moral. Nas artes, é a mesma coisa.

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Filed under: Crítica

3 Responses

  1. CapCat diz:

    Convidar à participação não é o mesmo que exigir participação. A maior parte da arte participatória também se relaciona perfeitamente com um espectador contemplativo. Uma artista pode achar mais rica a experiência estética da participação, mas não isso não implica que exclua a contemplação e principalmente a escolha individual de ter a experiência que bem se entende. A arte participatória não costuma ser assim tão autoritária como a estás a pintar…

    • A palavra que eu escolheria não é “autoritária” mas é “hegemónica” – concebe-se a possibilidade de um ponto de vista alternativo embora não se faça nada por sustentá-lo.

  2. Esta ideologia do “cidadão participativo” é profundamente enervante. Não há bienal ou trienal de design (ou arquitectura, ou culinária, nalguns casos é difícil fazer uma distinção) que não proponha, de forma entusiástica, a participação dos visitantes em “workshops,” em debates… e nas bienais e trienais existe mesmo uma obsessão autofágica acerca da “opinião” do visitante, é preciso estar constantemente a expressar uma opinião em relação à opinião daquele curador, ou ao comentário daquele designer em relação à opinião daquele curador que se baseou na opinião de um crítico. Opinião que deve ser expressa com a adequada dose de distanciamento irónico. Existe toda uma etiqueta. The fabric of society is very complex, como dizia o Seinfeld.

    A única actividade ainda livre da “participação obrigatória” é o futebol. Ainda posso ir ver um jogo e ninguém me pede para jogar a lateral esquerdo (o que no caso do Benfica significaria uma clara melhoria mas enfim.)

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