The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Arte e Desporto

Nos últimos meses, mesmo em ruas recuadas do Porto, como a que dá para as minhas janelas, é comum ver gente a correr. Foi uma coisa dos últimos dois anos. Numa rua grande a meio do dia, enquanto se espera pelo autocarro durante dez minutos passam uns cinco ou seis corredores e outros tantos ciclistas. Mesmo depois da meia-noite num Sábado, é capaz de passar um ou dois. Há uns anos nunca imaginaria. Eu próprio corro, agora menos, porque me obcequei por nadar.

Não duvido que muitas destas pessoas façam algum tipo de competição – a mim não me atrai . Quando vejo passar uma maratona, por exemplo, os participantes são milhares. Antigamente chamar-lhes-iam corredores de fim-de-semana, mas agora, quando correm quilómetros diariamente antes, durante ou depois do emprego, o termo já não serve, nem sequer como piada. Muitas destas pessoas correm distâncias que fazem uma maratona olímpica parecer um aquecimento, por vezes em condições deliberadamente absurdas, extremas, mais próximas de uma performance ou de um ritual iniciático.

Assim, há o mundo da alta competição onde a vida e o corpo de alguns atletas se aproximam da dos anjos ou dos santos, mas também há outras religiões do desporto, minoritárias, ascéticas, silvestres mas quotidianas, como as dos povos que vivem perto de mosteiros no deserto.

Penso que o mesmo se passa com a arte. Há um circuito de alta competição, de bienais, galerias, residências e retrospectivas, que exige sacrifícios, e um treino constante. Cada prova antecipando a seguinte, construindo-se penosamente uma reputação, por subtracção ou especialização constante retirando cada vez mais coisas até se atingir uma pureza qualquer, que na maioria das vezes não chega sequer para que o seu nome fique.

Para além desse circuito, não apenas nas margens, mas também nos seus intervalos, há uma multidão de artistas que fazem coisas que não chegam e nem querem chegar a isto mas são por vezes mais extremas, mais ou menos coerentes por graus de magnitude, por vezes até mais lucrativas (ou não; é irrelevante).

A diferença entre os dois é até certo ponto arbitrária: depende de apoios, de instituições, de formatos de expressão e de arquivo, da geografia, de equilíbrios de poder, etc. Essa arbitrariedade faz com que não seja possível à partida perceber a diferença entre o artista profissional e o amador – mesmo estes termos são arbitrários quando um artista que pinta expressamente quadros para as salas de estar das pessoas vive disso e um artista de carreira precisa de uma sucessão de outros empregos que o sustentem.

 

Advertisements

Filed under: Crítica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: