The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Ò, a ironia!

Fez sete anos participei numas discussões ao vivo e na net sobre a cena alternativa do Porto, que na altura estava prestes a desfazer-se em artistas individuais. Essencialmente e para resumir muito, reivindicava-se mais atenção para os artistas locais. Não se tratava de pedir migalhas (porque as migalhas iam aparecendo) mas uma política coerente – estruturas, eventos, apoios que não fossem dados arbitrariamente mas obedecendo a uma estratégia.

A isso foi respondido pelas instituições (Serralves por exemplo), (e repetido em coro por muitos dos artistas), que não se podia apoiar os artistas locais apenas por serem locais, que o que interessava era uma postura de internacionalização – o costume. A isso íamos respondendo chamando a atenção que já havia artistas a serem apoiados e promovidos simplesmente porque dava jeito tê-los à mão – porque eram locais –, e que isso não era uma política coerente, etc.

Adiante.

Há uma ou duas semanas, uma amiga espanhola dizia-me que gostava bastante do trabalho de um ou de uma das artistas da antiga cena alternativa, que achava que era muito representativo/a do que para ela era o Porto. Fiquei de boca aberta: era um/a dos que achava que não se devia apoiar a arte local apenas por ser local. Agora, pelos vistos, tinha-se tornado num símbolo do Porto – intelectualmente não me surpreende muito: olhando para a cena alternativa de 2001-2007 e olhando para a nova movida percebe-se que são construções feitas a partir das mesmas peças de lego. Mas mesmo assim, depois de tanta batatada pensava que fosse só eu a ver a cena e a movida como uma espécie de Fado 2.0 – uma arte que devia muito do seu sucesso a representar uma boémia no limiar da gentrificação.

Mas, uma vez prestando atenção, faz todo o sentido. E faz sentido também, como me dizia outro artista bastante mais inteligente do que eu, que cada novo comissário ou potencial protagonista das artes e da cultura no Porto sinta agora a obrigação de picar o ponto fazendo uma retrospectiva qualquer sobre a cena alternativa. Foi esse o único resultado de todas as reivindicações de há sete anos. Continua a não haver uma política coerente excepto reconhecer que há uma cena local importante, precária, sem grandes recursos, boémia, muito apropriada a uma cidade igualmente importante (é um destino turístico nos tops), precária, sem grandes recursos, boémia, e que tudo isso não é um problema mas apenas carácter.

Ò, a ironia! E, como bem sabem os nossos amigos hipsters, arte, ironia e gentrificação é tudo a mesma coisa.

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Filed under: Crítica

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