The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Tradições

Tem-se dito, a propósito do Bes e outros bancos, que roubar em pequena escala ou esporadicamente é crime; roubar em grande escala ou durante décadas é tradição, negócio de família, etc.

A moral da história devia ser aplicada às artes, onde se tornou habitual discutir-se muito as colecções dos Rendeiros e as influências dos Salgados, os escolhidos deste ano para o prémio Banco Secretamente Falido e por aí adiante. Ai, o que vai ser dos Mirós, não interessa, não valem a pena, interessa interessa, são muito bons, ai, ai. É tudo muito importante e muito irrelevante. Se não fossem Mirós, seria outra coisa qualquer. Não passa de mercadoria. Ler sobre isto é como ler sobre iates e cirurgia plástica.

O que devia interessar mas não vende  jornais é que, apesar de todos os mecenatos há cada vez mais ocasiões em que instituições apoiadas por mecenato não têm dinheiro para pagar aos artistas. Esta semana soube de uma exposição importante de artistas vivos e jovens onde nenhum foi pago. Há uns tempos foi o Museu do Chiado que só pagou a produção do artista que o ocupou – segundo muita gente deveria estar muito agradecido e caladinho por isso.

Se falo do segundo caso, o do Museu do Chiado, é porque veio a público. O primeiro é privado. Nenhum dos artistas se queixou, preferindo não hostilizar as instituições. É preferível ter uma exposição com visibilidade e a única maneira de o conseguir é fazê-lo na meia dúzia de sítios que aparecem com toda a certeza nos jornais.

Os artistas estão no seu direito de aceitar essas condições com todo o silêncio que quiserem. Eu, como público, adoraria saber quais as instituições e eventos que não pagam. Seria mais fácil decidir onde não ir. Se houvesse um bom jornalismo das artes, seria óptimo. Já nem digo “crítica” porque quem diz “crítico” quase que diz “comissário”. E lendo o currículo de muita da nossa crítica percebe-se que, nos momentos mortos de lamentar a promiscuidade alheia, muitos se dedicam a comissariar nas mesmas instituições que gabavam nos jornais.

Assim, e voltando ao começo, é fácil condenar o pecadilho ocasional, o grande escândalo, mas o escândalo maior é quotidiano, praticado porque “é sempre assim e o que se há-de fazer?”

 

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Filed under: Crítica

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