The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Bronquite

Outro dia em conversa pós-prandial com amigos mais novos falou-se das drogas em Portugal na década de oitenta, noventa. Uma dúvida era se as pessoas não tinham informação.

Nessa altura vivia em Vila Real e a coisa era bastante óbvia, embora menos que no Porto, onde fui estudar mais tarde, onde era comum encontrar gente a injectar-se acocorada atrás dos carros nos mesmos sítios onde abriram entretanto hósteis de luxo e tascas gurmê.

Pela minha parte, mantive a distância possível, tal como nunca fumei um charro ou um cigarro na vida. Nem leves, nem pesadas. Bebo álcool e é só.

Quando andava na escola e comecei a seguir artes dizia que nunca tinha fumado por causa de uma bronquite. A doença tinha sido verdadeira mas a justificação não. Suponho que a principal causa era distinguir-me dos meus colegas. Construir uma identidade para mim mesmo decidida por mim – e, claro, medo da dependência, medo da doença (era a altura do grande medo da Sida).

Nunca disse aos outros o que fazer nesse aspecto. Na maioria das vezes, quem consumia deixava-me em paz. Em bastante ocasiões, insistiam para eu experimentar, pensando que era timidez ou procurando validação para as próprias opções impondo-as a terceiros. Fui resistindo. Nunca gostei particularmente do ambiente. Não me deixa confortável.

Em retrospectiva, não me parece que fosse falta de informação. Os consumidores mais duros que conheci eram espectacularmente informados. Um dos efeitos secundários do vício parecia ser uma obsessão pelas suas minúcias e rituais sociais, pelos seus efeitos bons e maus, físicos e mentais, sobre si mesmos e sobre os outros. E havia até toda uma intelectualização musical e literária: os paraísos artificiais, Baudelaire, Thomas Quincey, Burroughs, etc.

Morria muita gente, directamente ou por suicídio. Por sorte, nunca nenhum amigo mais próximo. Lembro-me em particular de uma rapariga sorridente e meio punk que conhecia dos almoços nas Belas Artes a quem dei cinquenta escudos – uma fortuna, mais do que um café – na Rua de Cedofeita enquanto amigos tocavam guitarra atrás dela. Menos de uma semana depois diziam-me que tinha morrido de overdose.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. No meu caso, com 10 anos (1988) tive a consciência de que nunca quereria fumar. E ainda longe de mim saber que se fumavam outras coisas para além de tabaco. Cocaína ou heroína apenas o que ouvia na televisão e do que a minha mãe contava, por trabalhar numa escola secundária. Certo dia, no meu 1º ano da escola preparatória, após as aulas e para chegar mais depressa à paragem do autocarro, uns colegas ensinaram-me um atalho que implicava saltar o muro que dava para um terreno contíguo à escola. Da primeira vez que o fiz, percebi porque havia nos intervalos tantos que saltavam o muro: era o local das “passas” e do shots de álcool, longe dos olhares dos empregados e professores da escola. Quando me deparei com a situação, o facto de ver colegas meus que tinham a minha idade ou pouco mais velhos (11, 12, 13 anos) a fumar e beber, criou em mim um sentimento de decadência que apenas pensava que era coisa de filmes americanos. Nunca tinha experienciado uma situação daquelas e foi tão negativo que, nesse dia só pensava que aqueles rapazes e raparigas se estavam a matar ali mesmo. Nunca tinha visto um “menino” a fumar. Pensava eu que era apenas coisa de pessoas crescidas. Para além disto, o facto de estarem ali às escondidas como se estivessem a cometer um crime, fez-me distanciar completamente daquela realidade, porque não me revia naquelas situações de fazer coisas “más” às escondidas. Mais tarde, já no secundário, tive colegas que estavam próximos da ganza e da erva (nunca estive em nenhum meio ou soube de alguém próximo que se metesse em cenas pesadas) e nunca fui tentado a nada, mesmo quando me ofereciam, mais por delicadeza por estar no grupo, do que para persuasão.
    assim, penso também que não foi a falta de informação que levou muita gente às drogas. nestes casos os filtros de sociabilização que, por educação ou cultura se vão criando, são os que definem as tendências para entrar ou não em certos meios e desse modo serem também definidores da identidade de alguém. com 10 anos, penso que estavam tão mal (ou tão bem) informado como os meus colegas da minha idade. no entanto, eu sabia que quem eu queria ser, não passava por ser identificado com aquilo. eu não era aquilo e continuo a não ser.

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