The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Invenção da tradição e a Curadoria

Quando há uma mudança de paradigma nas artes em geral, é possível observar um certo percurso. Se a nova moda é suficientemente forte, a maioria das pessoas não notam sequer que tudo mudou. Abraçam-na, achando-a a coisa mais natural do mundo, a solução para todos os problemas, intemporal, o futuro, etc. Passado uns anos, torna-se óbvio que era apenas uma moda mas enquanto dura, é muito difícil vê-la. É tão invisível para os seus adeptos como a água para os dois peixitos do David Foster Wallace.

Para alguns adeptos igualmente convictos de paradigmas anteriores a nova moda é perfeitamente visível mas monstruosa: não é arte, não é design, não é arquitectura, etc.É uma corrupção do modo fundamental como se fazem as coisas, da tradição (no caso da nova moda exigir novidade), da inovação (no caso da nova moda exigir revivalismo).

A inviabilidade (e também invevitabilidade) do novo paradigma aos olhos dos seus adeptos traduz-se também numa espécie de historicismo ingénuo: o próprio passado é reeditado à medida do presente. De repente, encontram-se pioneiros da nova tendência, figuras parentais injustamente esquecidas – na verdade, apenas nunca tinha havido necessidade de as invocar enquanto precursores. Do mesmo modo, elevam-se objectos esquecidos ou menosprezados a esse estatuto. Começa-se a produzir objectos que reflectem sobre essa história, reencenando-a dentro do novo contexto e remontando-a subtilmente no processo.

Estes processos são perfeitamente visíveis dentro do comissariado contemporâneo que é, evidentemente, a maior mudança de paradigma dentro das artes plásticas nos últimos quinze anos. De repente, não só tudo é comissariado (artistas, cursos, festivais, concertos, refeições) como se tentam encontrar e explorar figuras que seja possível paternalizar de modo convincente (Ernesto de Sousa ou Seth Siegelaub) como agora até se fazem cada vez mais reencenações e reinterpretações de exposições passadas.

No artigo do link, alguém sugere que isso se deve à falta de ideias dos curadores mas parece-me que a principal causa é criar retrospectivamente uma tradição onde este novo comissariado se integra.

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Filed under: Crítica

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