The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Preconceitos

Embora a sinta a zumbir em todo o lado, meto-me cada vez menos na discussão em torno de Israel, da Faixa de Gaza e do resto. Há uns dias comentei um texto do Miguel Esteves Cardoso que defendia Israel com argumentos que me pareciam poder ser usados para defender o Apartheid. Fui lendo os outros comentários e a grande maioria não passava de ataques pessoais – que era um monárquico, que era um beto, que se devia limitar a escrever sobre comida ou sobre a sua mulher.

Mesmo os argumentos mais construídos não me pareciam assim tão evidentes. Algumas pessoas, por exemplo, não apoiavam Israel por ser um país desenhado a régua e esquadro sem ter em conta a realidade local, os povos que lá viviam, etc. O mesmo pode ser dito de todo o Médio Oriente. Todos esses países são construções europeias coloniais. Em muitos casos, como se pode ver no Iraque, com o expresso propósito de subverter e dividir as relações de poder pré-existentes. Outras pessoas sugerem a relocalização de Israel, o que é exactamente o mesmo que boa parte dos Israelitas sugerem para os Palestinianos. A deslocação forçada de um povo inteiro torna-se aceitável quando esse povo é considerado suficientemente rico e apoiado por grandes potências como a América – um argumento que anda muito próximo da caricatura dos judeus em voga na Alemanha Nazi.

Refiro apenas estes casos porque mostram que a nossa opinião é bastante formatada. O que se diz sobre situações como estas são lugares comuns, fórmulas. Coisas que não são bem preconceitos mas que rapidamente chegam lá. Sobre o Médio Oriente, a maioria das pessoas tem uma visão mediada. Nunca esteve lá. Não sabe.

A nossa percepção do mundo é semelhante a um mural do facebook, uma construção que se actualiza reagindo  ao que nos interessa e ao que interessa às pessoas que nos interessam. Percebe-se que é uma visão limitada quando aparece algo que não encaixa, uma opinião estranha, uma religião da qual nunca ouvimos falar. Outro dia, uma amiga falou-me dos Anti-Deutsch, uma tendência da esquerda radical alemã e austríaca que se caracteriza por ser pró-Israel. Os argumentos usados são semelhantes aos usados pela esquerda radical em geral mas as conclusões são completamente diferentes. Para mim, foi um sistema de pensamento, coerente, estruturado, que defende coisas com as quais não concordo de um modo completamente exótico, o que me obriga a reexaminar tudo aquilo que estou habituado a saber sobre um dado assunto. Ou, pelo menos, a ser bastante mais cauteloso.

Houve uma altura em que pensei que a crise ia tornar a opinião pública portuguesa mais madura, apenas no sentido em que se antes éramos invisíveis no plano internacional, agora somos diariamente confrontados com generalizações: preguiçosos, trabalhadores, endividados, pobres, etc. Lembro-me particularmente do anúncio de uma agência de viagens alemã que convidava os seus clientes a virem aos países do Sul da Europa para verem onde os seus impostos estavam a ser gastos. Pensei que esta exposição ao preconceito nos tornasse colectivamente mais maduros, mais desconfiados, mas até essa expectativa é um preconceito.

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Filed under: Crítica, Uncategorized

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