The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Turismo Infinito

Tive um dejá vu quando li esta semana a notícia sobre os turistas italianos a passearem nus durante horas em Barcelona. Por coincidência, quando lá fui da última vez, passei dias a dormir e a viver mal porque o resto do andar do hostel tinha sido ocupado por italianos barulhentos, indiferentes às queixas, que saíam com algazarra às duas da manhã para voltarem ainda mais ruidosos por volta das seis, sete. Berravam uns com os outros como se estivessem numa sala das máquinas.

Sempre tentei ser um turista discreto mas encontro cada vez mais exemplos de gente que aproveita as viagens de férias para se comportar como se os piores actos não tivessem qualquer consequência – no Algarve, por exemplo, aposta-se em agredir militares da GNR.

São exemplos extremos, mas mesmo o turismo pacato, praticado em grande escala tem as suas consequências. Passar pela Ribeira do Porto ou pelos bairros históricos de Lisboa mostra-as bem. Tudo se tornou, de um momento para o outro, “gurmê”, “tradicional” ou “português”. Mas estes adjectivos, colados a cuspo, não disfarçam que toda esta tradição e requinte foram fabricadas em série há três segundos. Faz uns vinte anos (não tenho a certeza), a praça da alimentação do centro comercial Via Catarina ensaiava a caricatura de uma ruela típica portuguesa. Agora, sente-se o mesmo na Ribeira ou na Baixa Pombalina.

A indústria turística vive em parte da ilusão que é possível encontrar autenticidade em férias. Se não a autenticidade do sítio onde se vai, pelo menos a mais básica, a do próprio turista, que é suposto encontrar-se a si mesmo em viagem, longe dos hábitos e limitações da pátria. Entre eles, claro, o civismo, esse grande entrave à autenticidade. Estes novos bairros tradicionais, na verdade cenários concebidos à pressa para dar textura a umas horas de espera, não têm, nem podem ter, qualquer tipo de civismo que consiga torná-los toleráveis porque, ao contrário, dos azulejos e dos pastéis de nata, não pode ser substituído por simulacros, por sinalética de aeroporto.

 

 

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Filed under: Crítica, Uncategorized

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