The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Bronquite

Outro dia em conversa pós-prandial com amigos mais novos falou-se das drogas em Portugal na década de oitenta, noventa. Uma dúvida era se as pessoas não tinham informação.

Nessa altura vivia em Vila Real e a coisa era bastante óbvia, embora menos que no Porto, onde fui estudar mais tarde, onde era comum encontrar gente a injectar-se acocorada atrás dos carros nos mesmos sítios onde abriram entretanto hósteis de luxo e tascas gurmê.

Pela minha parte, mantive a distância possível, tal como nunca fumei um charro ou um cigarro na vida. Nem leves, nem pesadas. Bebo álcool e é só. Leia o resto deste artigo »

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Original

Por questões de trabalho, ando a investigar a história da banda desenhada em Portugal. Nunca me tinha dado para ver o que se fazia no século XIX (não eram exactamente quadradinhos – a maioria das convenções eram distintas). Mas o que me diverte mais é o modo como, recorrentemente se vai  provando que uma suposta primeira banda desenhada portuguesa era na verdade o plágio ou a cópia assumida de um original inglês, francês ou alemão.

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Mais e menos do que palavras

Mas lutei até ao fim e vi o documentário sobre a 4AD todo. Tem três ou quatro momentos perfeitos, que não são inúteis mas são contranatura.

Em primeiro lugar, o próprio documentário faz o que não se costuma fazer em filmes sobre design: não é um vídeo promocional. Confronta os designers com os seus falhanços. Fala com uma banda, os Colourbox, que não gostam das capas e perguntam aos designers o que acham das  críticas ao seu trabalho. Leia o resto deste artigo »

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Não Dar Uma Para a Caixa

Ouvir designers a falar (Pecha Kuchas, entrevistas) tornou-se tão penoso como ouvir futebolistas e  treinadores. Chavões, frases de circunstância repetidos sempre com demasiada emoção, como se fossem mantras ou explicassem alguma coisa. Ou, pior, como se não conseguirem explicar a ponta de um corno sugerisse que o assunto é profundo e não a falta de articulação ou até de ideias do orador. Leia o resto deste artigo »

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Vinte anos

Faz vinte anos neste Agosto que comecei a trabalhar. Para mim era um emprego de Verão, para justificar o tempo longe de casa dos pais e ganhar algum dinheiro que me sustentasse. Bem depressa percebi que o pouco dinheiro que recebia por mês mal chegava para os transportes, quanto mais para comer ou pagar o quarto. Era suposto estar a ganhar experiência e pouco mais. Aprendi que era possível estar a trabalhar a tempo inteiro enquanto se tentava explicar aos pais que ainda precisávamos de dinheiro. Seria o primeiro destes “empregos”. Chamar-lhes “estágio” ainda não era comum. Já sabia que o design era um amontoado de chavões mas aprendi que muitos deles mexiam com a vida das pessoas, dos designers em particular, convencendo-os que era normal trabalhar de graça. Alguns colegas meus estiveram assim durante anos, a trabalhar para a mesma pessoa sem receber um tostão, até ganharem juízo. O “estágio” só começaria a perder a sua força com a crise. Mesmo assim muita gente ainda acredita que é a melhor coisa do mundo. Que se aprende muito, etc. De todos os que fiz os que mais gostei e os que me ensinaram mais foram os menos comerciais: trabalhar numa revista de banda desenhada, por exemplo. O resto só me ensinou cinismo em relação à profissão. Demorei uns dez anos a transformar esse cinismo em alguma coisa construtiva e reflectida, graças sobretudo a este blogue que abri em 2004.

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Mail Atrasado

Tomei a decisão de só responder aos mails de trabalho que me vão mandando nestas férias com 48 horas ou mais de atraso deliberado. O ideal seria nem lhes responder; mandar uma mensagem automática a dizer que não estou. Mais ideal ainda seria responder imediatamente, mas ter uma app que só enviasse a resposta num momento aleatório dos sete dias seguintes.

Sim, eu sei que muita gente é obrigada a trabalhar nas férias. Eu próprio inclusive, mas faço o possível por não arrastar terceiros para a minha desgraça.

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Nadar sem ver.

À medida que vou nadando melhor, vejo cada vez menos da piscina. Conto os tempos de descanso em respirações, quinze, dez, cinco. Quando me sinto à vontade, na sessão seguinte baixo. Não é uma coisa rígida. Ao começo, descansava um minuto, dois, mais. Dava para ver tudo, os outros nadadores, as pessoas a tomarem sumos no café atrás do vidro da parede do fundo. As aulas de zumba na sala a seguir ao café. Agora, é tudo muito mais rápido. O descanso entre séries é dedicado a respirar e a reentrar. Pouco se vê. Leia o resto deste artigo »

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Eye Eye

Ontem descobri que o primeiro número da Eye depois de ter decidido deixar de comprá-la é o Food Issue. Quase me desmanchava a rir na biblioteca das Belas Artes.

Desde há uns três ou quatro anos que os designers se viram em massa para a comida, com a mesma energia que em outras ocasiões se atiraram à música, à literatura ou à edição. Aqui em Portugal a coisa anda paredes meias com a gentrificação, com o empreendedorismo, com  a ambição de abrir mais uma tasquita gurmê. Em outros sítios, calculo que seja só os dois primeiros. A precarização empurra para pequenos negócios tidos como mais sólidos, onde se pode ser o próprio patrão.

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O Bom e o Mau

Reparem que a estratégia para sossegar a carneirada em relação às falcatruas do BES não é nova. Aliás, é sempre a mesma. Banco Bom, Banco Mau. Ou então: A culpa é do Sócrates. Nós só estamos a tentar resolver o imbroglio. É preciso dizer mais?

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Tradições

Tem-se dito, a propósito do Bes e outros bancos, que roubar em pequena escala ou esporadicamente é crime; roubar em grande escala ou durante décadas é tradição, negócio de família, etc.

A moral da história devia ser aplicada às artes, onde se tornou habitual discutir-se muito as colecções dos Rendeiros e as influências dos Salgados, os escolhidos deste ano para o prémio Banco Secretamente Falido e por aí adiante. Ai, o que vai ser dos Mirós, não interessa, não valem a pena, interessa interessa, são muito bons, ai, ai. É tudo muito importante e muito irrelevante. Se não fossem Mirós, seria outra coisa qualquer. Não passa de mercadoria. Ler sobre isto é como ler sobre iates e cirurgia plástica. Leia o resto deste artigo »

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Humor de Verão

Não estava à espera de o dizer mas sinto falta da silly season – não me agrada o inglês mas estação estúpida (mantendo a aliteração) ou temporada tótó (mantendo a aliteração e o espírito) não é bem a mesma coisa.

Os ingredientes estão lá: Passos está na Manta Rota, etc. Mas com Gaza, o Bes e o resto a colheita não pegou este ano. Há gallows humor – mais inglês –, piadas patibulares, de cadafalso, contadas para ironizar a tensão permanente mas não é a mesma coisa.

Preferia boas notícias mas, como não vêm, preferia estar simplesmente de mau humor.

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Isto não é mistério nenhum

Desde há uns anos, no genérico final dos filmes de Hollywood avisam que nenhum animal foi maltratado durante as filmagens. Seria tão bom se avisassem que todos os seres humanos que lá trabalharam foram pagos pelo menos um salário mínimo. Utópico, eu sei.

Eu não preciso de “cultura” se isso implicar ver muito dinheiro gasto à volta de coisas feitas por gente a trabalhar de graça. Para isso, prefiro coisas mais simples: ir ao facebook, ler um blog, conversar com amigos, ver e ouvir o seu trabalho. Também não me chateia nada escrever para aqui. Enquanto o faço não tenho outro patrão que não eu mesmo.

Mas ir a um museu ou um evento qualquer, sítios e ocasiões que obviamente custam a manter, para ver o trabalho gratuito de gente viva, é pior do que ir a um zoo, onde pelo menos há uma consciência do que se passa, um dilema moral simplesmente por estar lá.

Não preciso, nem quero museus (ou outras instituições) se forem dedicados à monumentalização de trabalho gratuito. Isso pode ser a cultura de alguém mas não é a minha.

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O Trabalho nas Artes

Fiquei a saber, sem surpresa nenhuma, já toda a gente o sabia, de mais outro caso em que uma instituição cultural de topo, numa exposição das que aparecem nos jornais, pagou aos comissários, fez divulgação, catálogos, pagou a si mesma em suma, mas não pagou aos artistas, que acabaram por decidir ficar calados e fazer tudo na mesma, como se nada fosse.

Não se pense que há novidade por aqui. Acontece e acontece muito. Vai-se fazendo arte, design, em museus, bienais, trienais e o resto e a estrutura ainda vai sendo paga (em geral bem), quem faz os conteúdos, nem por isso. Leia o resto deste artigo »

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Bes Photo? Bes Farto!

Muita gente se interroga sobre o que vai acontecer ao Bes Photo depois desta confusão toda. Para mim, seria melhor perguntar porque aconteceu de todo.

O mecenato, como calculo seja o caso do Bes Photo e outras iniciativas do género, não é desinteressado. É feito em troca de alívio fiscal. No caso de entidades muito ricas, trata-se de gente ou empresas que, dentro do nosso sistema muito desigual, já paga relativamente muito poucos impostos. E que, repare-se bem, apesar de não pagar por isso, toma decisões que afectam a vida de todos os portugueses – como se vê bem no caso Bes. Ou então, manipula directamente as decisões governativas através de tráfico legal ou ilegal de influências. Leia o resto deste artigo »

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Comunidades Imaginárias

katchorjewny

Quando há conflitos entre Israel e os seus vizinhos é habitual sugerir-se que uma solução possível seria transplantar Israel para os Estados Unidos. Sem discutir os méritos ou os defeitos da ideia, só venho aqui dizer que não é nova. Leia o resto deste artigo »

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Ò, a ironia!

Fez sete anos participei numas discussões ao vivo e na net sobre a cena alternativa do Porto, que na altura estava prestes a desfazer-se em artistas individuais. Essencialmente e para resumir muito, reivindicava-se mais atenção para os artistas locais. Não se tratava de pedir migalhas (porque as migalhas iam aparecendo) mas uma política coerente – estruturas, eventos, apoios que não fossem dados arbitrariamente mas obedecendo a uma estratégia.

A isso foi respondido pelas instituições (Serralves por exemplo), (e repetido em coro por muitos dos artistas), que não se podia apoiar os artistas locais apenas por serem locais, que o que interessava era uma postura de internacionalização – o costume. A isso íamos respondendo chamando a atenção que já havia artistas a serem apoiados e promovidos simplesmente porque dava jeito tê-los à mão – porque eram locais –, e que isso não era uma política coerente, etc.

Adiante.

Há uma ou duas semanas, uma amiga espanhola dizia-me que gostava bastante do trabalho de um ou de uma das artistas da antiga cena alternativa, que achava que era muito representativo/a do que para ela era o Porto. Fiquei de boca aberta: era um/a dos que achava que não se devia apoiar a arte local apenas por ser local. Agora, pelos vistos, tinha-se tornado num símbolo do Porto – intelectualmente não me surpreende muito: olhando para a cena alternativa de 2001-2007 e olhando para a nova movida percebe-se que são construções feitas a partir das mesmas peças de lego. Mas mesmo assim, depois de tanta batatada pensava que fosse só eu a ver a cena e a movida como uma espécie de Fado 2.0 – uma arte que devia muito do seu sucesso a representar uma boémia no limiar da gentrificação.

Mas, uma vez prestando atenção, faz todo o sentido. E faz sentido também, como me dizia outro artista bastante mais inteligente do que eu, que cada novo comissário ou potencial protagonista das artes e da cultura no Porto sinta agora a obrigação de picar o ponto fazendo uma retrospectiva qualquer sobre a cena alternativa. Foi esse o único resultado de todas as reivindicações de há sete anos. Continua a não haver uma política coerente excepto reconhecer que há uma cena local importante, precária, sem grandes recursos, boémia, muito apropriada a uma cidade igualmente importante (é um destino turístico nos tops), precária, sem grandes recursos, boémia, e que tudo isso não é um problema mas apenas carácter.

Ò, a ironia! E, como bem sabem os nossos amigos hipsters, arte, ironia e gentrificação é tudo a mesma coisa.

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Em retrospectiva

Em retrospectiva, a arte mais bem sucedida do Porto da última década consiste acima de tudo na gestão de uma mitificação boémia da precariedade, sem tomar realmente parte dela (o sucesso assim o garante) e sem fazer o que quer que seja para a resolver.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico.

Autor do livro O Design que o Design Não Vê (Orfeu Negro, 2018). Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

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