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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Portugal, Crise, Design

jornal buraco

Se há uns dez anos muito pouca gente (para além dos portugueses) sabia que Portugal existia, agora qualquer pessoa minimamente atenta o conhece. O problema é que também conhece a Grécia, a Irlanda e a Islândia. Portugal é um país que não só está em crise (sempre esteve, de uma maneira ou outra) como é a própria crise, ou pelo menos um dos seus campos de batalha. Quando se escreve um artigo sobre o design num país, numa cidade ou numa década há sempre uma lista comentada de nomes, de designers, de estúdios, de publicações. Neste caso, é preciso ter a consciência que todos eles estão, neste preciso momento, a lidar com uma reestruturação violenta da economia e da própria sociedade portuguesa.

O que tem a crise a ver com o design? Muito. O design é uma actividade económica, um serviço prestado a outros serviços. Não havendo muito dinheiro, será uma das primeiras coisas a cortar. Em Portugal, o design mais interessante das últimas décadas tem sido feito para a cultura e esta depende em grande parte do apoio do Estado, que também costumava ser o melhor cliente que um designer podia ter em Portugal. Da política local aos grandes eventos e instituições de alcance internacional, o Estado assegurava um fluxo regular de encomendas a toda uma legião de profissionais. Mesmo que não se trabalhasse directa ou indirectamente para o Estado, era comum complementar-se o trabalho comercial com o ensino  da profissão em escolas, politécnicos e universidades. Porém, os últimos governos têm tentado combater a crise económica através de ferozes políticas de austeridade, cortando radicalmente na despesa pública. Cortando no Estado, corta-se no design e no seu ensino. Assim, devido à crise, o design português tem sido obrigado a mudar drasticamente os seus hábitos e a sua própria identidade.

Em Portugal, o design ainda é uma actividade nova. Só começou a ser ensinado nas universidades na década de 1970. Nessa altura, tentou-se fazer dele uma estratégia crucial na modernização de um país rural, atrasado, a sair de quase quatro décadas de ditadura. Já havia algum design no país, sobretudo para dar a ideia que o velho regime era moderno e progressista, através de grandiosas exposições, campanhas e publicações de propaganda, mas também no sentido oposto, como uma forma de resistência ao regime, tentando produzir uma estética inclusiva, que trouxesse qualidade de vida a todos e não apenas às elites. Foi durante estas quatro décadas que surgiram nomes clássicos como Sebastião Rodrigues, Vitor Palla, Paulo Guilherme, Fred Kradolfer ou Thomaz de Mello, Daciano da Costa e Sena da Silva.

Com o fim da ditadura, em 1974, o design ganharia a nova função de produzir a identidade de um país que se vira para a Europa, para a tecnologia, para os serviços. O design de equipamento e de produto seria uma forma de tornar o tecido industrial português, até então consituído por pequenas fabriquetas quase artesanais, em algo competitivo. O próprio design gráfico vai deixando de ser uma espécie de gestão estética do processo industrial que era a impressão em tipografia para se ir tornando num serviço, a gestão interna e externa da comunicação e imagem de instituições e empresas.

Durante as décadas seguintes, apesar do objectivo de fundo para o design português ser sempre a criação de uma imagem moderna para a indústria exportadora, o que foi conseguido dentro do design de equipamento e de produto, com criadores como Fernando Brízio e Marco Sousa Santos, os maiores estúdios de design gráfico – Henrique Cayatte, Silva! Designers, B2, entre outros – trabalham sobretudo para o Estado, produzindo a imagem gráfica de eventos culturais e institucionais, logótipos e campanhas publicitárias para repartições, museus e ministérios. Se a peça central da identidade corporativa é o logótipo, o Estado português, logótipo a logótipo, vai ficando cada vez mais parecido com uma empresa. O design foi e ainda é um dispositivo central na deriva neoliberal que acabaria por levar o país e a Europa à crise económica. Pelo caminho, iria perdendo os seus ideais sociais, de trazer qualidade de vida às massas, tornando-se num sinónimo de luxo e empreendedorismo privado.

O computador e mais tarde a internet desempenharam um papel fundamental nestes processos. Reduzindo os custos de produção, qualquer pequeno negócio, mesmo empresas de uma pessoa só, podia agora ter design. De grandes ateliers com dezenas de colaboradores vai-se passando para o modelo do designer solitário com o seu portátil, trabalhando em casa ou, mais frequentemente, como uma espécie de secretário gráfico em empresas que não têm nada a ver com design. Ao lado de estúdios de pequenas dimensões como a Drop Design, os R2, Martino e Jaña, Barbara Says, os Bolos Quentes e os VivóEusébio, começam a aparecer designers solitários como Vera Tavares, Pedro Nora, Manuel Granja ou Rui Silva, e também profissionais que trabalham dentro das hierarquias de empresas e instituições de maior dimensão, sem com isso perderem qualquer capacidade criativa. Um bom exemplo da tendência é Márcia Novais, a designer da Faculdade de Belas Artes do Porto, que para além de assegurar todos os cartazes e material gráfico da instituição, tanto a sua concepção como por vezes a sua execução em serigrafia, ainda consegue tempo para comissariar exposições de design e de artes plásticas. Ganha pouco mais do que o salário mínimo e trabalha mais de 40 horas por semana mas o seu trabalho aparece regularmente em sites de design e revistas internacionais como a Print. São estes contrastes que se tornaram típicos dentro do design português.

Rapidamente, estes jovens designers descobririam que, se foram treinados na escola para produzirem a identidade gráfica de uma empresa, o seu logótipo, o seu site e a sua publicidade, e se enquanto freelancers e estagiários aprendem a organizar-se a si mesmos como se fossem empresas, pouco mais precisavam para se tornarem eles mesmos pequenos empresários.

E tem sido isso de facto que aconteceu. Com a crise, são cada vez mais os pequenos negócios criados e geridos por designers: restaurantes, linhas de produtos biológicos, gurmê ou de luxo. Na cidade do Porto, no Norte do país, que vive agora um boom de turismo, a tendência é perfeitamente visível. O turismo low cost é sustentado por dezenas de hostels, muitos deles criados e mantidos por designers, artistas e arquitectos. As dimensões reduzidas da bagagem de mão ditam os produtos mais bem sucedidos – comida, bebida, roupa, música, mas também publicações de pequeno formato, dedicadas ao design, à fotografia e à ilustração, que, não usando muito texto, são facilmente consumíveis por um público internacional. Na cidade abriram três galerias dedicadas à ilustração, a Dama Aflita, a Ó! Galeria e a Mundo Fantasma. Estes espaços permitem a novos e velhos ilustradores mostrarem (e venderem) o seu trabalho. Embora muitos ilustradores portugueses, como André Carrilho, João Fazenda, João Maio Pinto, André da Loba, publiquem com regularidade em jornais e revistas internacionais – New York Times, Vanity Fair, Esquire, etc. – em Portugal, os jornais usam cada vez menos o desenho preferindo a fotografia.

Depois da crise, a tendência para exportar o design acentuou-se. Com o corte da despesa pública, não há encomendas locais, e muitos designers viram-se para novoa mercados como Angola, uma antiga colónia africana com uma economia em expansão graças ao petróleo. Trabalham a partir de Portugal, produzindo identidades corporativas, livros, manuais escolares, etc. Os próprios designers portugueses têm circulado com cada vez mais à vontade, à procura de emprego e de oportunidades. Não é tanto uma emigração como uma migração permanente, sustentada pelas viagens de avião relativamente baratas. Alguns trabalham em ateliers internacionais ou criam as suas próprias firmas: na Holanda, Susana Carvalho formou, com o designer e criador de fontes Kai Bernau, o estúdio Carvalho & Bernau; em Londres, Pedro Cid Proença é um dos editores da revista Circular, para além de colaborar em vários projectos com nomes históricos do design como Richard Hollis; em Berlim, Maria Nogueira, depois de ter passado pelo estúdio nova-iorquino de Stefan Sagmeister, produz ilustração e filmes animados. Todos estes designers fazem regularmente design para eventos, publicações e objectos portugueses, mantendo uma ligação muito forte com o seu país. Estas migrações já eram comuns antes da crise económica, porque o ensino português incentiva a mobilidade dos alunos através de inúmeros programas de bolsas, estágios, etc.

Apesar dos sucessivos cortes orçamentais, o ensino do design atingiu a maturidade no final da década de 1990, quando começaram a ser criados mestrados e doutoramentos na área. A critica e a escrita regular sobre design também se tornariam comuns, tanto como resultado da investigação académica, divulgada em comunicações nacionais e internacionais, como em blogues, conferências, exposições, debates e revistas. Nesta produção, destaca-se a escrita de Frederico Duarte ou a de José Bártolo, que nos últimos anos tem editado a revista de arte e design Pli. O grande evento do design português tem sido a bienal Experimenta Design, apesar de um percurso polémico marcado tanto por gastos considerados excessivos como por cortes orçamentais repentinos, que já quase a forçaram a encerrar.

Neste contexto de investigação e reflexão públicas, o passado do design português começa a ser investigado em profundidade pela primeira vez, não apenas com as ferramentas da História mas usando o próprio design enquanto metodologia. Dino dos Santos, por exemplo, cria as suas fontes, usadas em jornais como o New York Times, a partir de um conhecimento profundo da história da tipografia e caligrafia portuguesas. O director de arte Jorge Silva, que já trabalhou em jornais nacionais como o Público, tem usado a sua experiência a dirigir o trabalho de designers, ilustradores, editores e escritores para produzir a Colecção D, uma  série de livrinhos dedicados a designers portugueses. O estúdio Joana & Mariana tem comissariado inúmeras exposições sobre a história do design português, as suas figuras e as suas publicações. O colectivo Barbara Says tem feito um trabalho de investigação e recuperação da obra  de Paulo de Cantos, um auto-didacta da tipografia próximo tanto do modernismo da Bauhaus como do delírio dos dadaístas e futuristas, cujo trabalho, feito entre a década de 1910 e a de 1970, tinha caído num esquecimento quase total.

Muitos destes designers têm participado de uma tendência internacional ligada à edição experimental, criando publicações e revistas usando técnicas tradicionais de impressão de escritório, stencil, impressoras Riso, etc. Pequenas editoras como a Braço de Ferro, ou a dupla Sofia Gonçalves e Marco Ballesteros,¹ produzem publicações intrincadas, às vezes quase abstractas, outras quase enciclopédicas. Em alguns casos, como o da Oficina Arara e do jornal Buraco, uma publicação que muda de formato a cada número, o objectivo é a denúncia da situação politica, usando para isso também cartazes, t-shirts, etc.

De resto, tornou-se comum encontrar nas constantes manifestações contra as políticas de austeridade cartazes, símbolos e slogans concebidos por designers. Sendo o design uma profissão conotada com criatividade, progresso e modernidade mas assente em salários baixos, estágios não remunerados e pouca ou nenhuma protecção laboral, foi-se tornando num símbolo dos problemas que a crise tem revelado no país. Do mesmo modo que Portugal mal chegava a ser conhecido internacionalmente antes da crise, o mesmo acontecia ao design dentro das suas fronteiras. Se até há pouco ainda era visto como uma palavra inglesa importada, sofisticada mas vaga, neste momento faz claramente parte da realidade portuguesa, para o melhor e para o pior.

Uma versão deste artigo apareceu na revista brasileira ABCdesign.

1. Uma actualização: desde que este texto foi escrito, Marco Ballesteros e Sofia Gonçalves seguem projectos distintos. Ele, o projecto Letra: ela, a editora Dois Dias em colaboração com Rui Paiva.

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One Response

  1. Atilano Suarez diz:

    No 3º parágrafo, “…um país rural, atrasado, a sair de quase quatro décadas de ditadura. ”
    Correção: foram MAIS de quatro décadas de ditadura: 48 anos, desde 28 de maio de 1926 até 25 de abril de 1974.

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