The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

É preciso tempo

Tirei o meu curso quando ainda durava cinco anos e levei oito anos a fazê-lo – comecei a trabalhar e, como na altura já não haviam horários pós-laborais, fazia as cadeiras no meu dia de folga (trabalhava seis dias por semana). Em retrospectiva, foi uma boa decisão porque me deixou ver a evolução de um curso e de uma escola durante quase uma década. Quando entrei em 1990, ainda se dizia mal do design gráfico da década de setenta e o estilo gráfico, tons pastel e cromado dos anos oitenta ainda estava a dar. Apareciam timidamente coisas mais sombrias e texturadas como a estética 4AD, ou experimentais como a Emigre ou o David Carson.

Durante esses oito anos, apareceram em massa os computadores (ainda fiz o curso todo sem um), a internet, as pós-graduações em design. Mal terminei, entrei logo num mestrado, aprendi a programar, comecei a escrever, coisa que mal tinha feito durante o curso. Um ano depois de acabar o mestrado, em 2004, começava o blogue.

Foram oito anos luxuosos. Só comecei a pagar propinas a sério no terceiro ou  quarto ano. Até aí pagava 1.200 escudos por ano. Seis euros. na altura era mais ou menos o que se pagava por um álbum de banda desenhada. Por comparação, um número da revista K custava 400 escudos. Já não me lembro quanto pagava no final do curso mas eram mais de 60 contos. 300 euros. Na altura parecia uma fortuna.

Agora, um curso do 1º ciclo tem três anos, no máximo quatro, pagos a peso de ouro, onde se concentram mobilidades Erasmus, estágios curriculares e até teses. É uma experiência concentrada que se resume cada vez mais a aprender a navegar a burocracia bolonhesa. Nem se pode dizer que o aluno não fica preparado para a vida real  – passar boa parte do curso na fila (real ou virtual) da secretaria é um bom treino para todas as outras filas; entre um estágio curricular e o que se considera ser um emprego nas novas estatísticas também há cada vez menos diferenças.

Sem sarcasmo, o maior efeito de cortar o dinheiro ao ensino superior foi tornar a sobrevivência de cada curso no seu tema central. Já não há cursos de design, de artes plásticas, de medicina, de arquitectura mas cursos onde se aprende participando na sobrevivência desesperada de uma instituição ou de uma identidade disciplinar. É essa a grande lição.

E três anos até são demais para o ensinar, quando já não se dá importância à ideia de passar conhecimentos entre gerações, de consolidar uma comunidade disciplinar ou muito simplesmente a apreciar criticamente a passagem do tempo, que em áreas como o design é muito importante – há mais coisas a mudarem rapidamente no mundo do que o financiamento do ensino superior.

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Filed under: Crítica

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