The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Arte Política e bingo

Há uns anos eu desenhava cartões de Bingo no meu moleskine para jogar nas reuniões mais chatas da universidade. Em cada casa, havia um chavão: “vice-reitor”, “ects” ou – por incrível que pareça, saía sempre, graças aos professores mais velhos de escultura  – tipos de pedra (granito, mármore).

Já não uso caderno e raramente ando com caneta (culpa dos smartphones) mas ainda hei-de fazer qualquer coisa do género em relação à crítica de arte. Em algumas das casas do cartão, hão-de estar declarações como “é político mas não é comprometido”, “não é político, nem é comprometido mas desafia conceitos de política e de comprometimento”, etc. e tudo treta.

Não é muito difícil fazer bingo com um cartão destes, nos tempos que correm. A política está na moda, que remédio. Tal como acontecia com os artistas palestinianos, sul africanos (durante o Apartheid) ou de qualquer outro país problemático, espera-se que a arte local de algum modo lide com os ditos problemas – o que é chato: a maioria da carreira de um artista bem sucedido consiste na sua transformação cuidadosa na mercadoria perfeita, que pode ser vendida em todo o lado, sempre, a Gregos e Troianos, que pode dizer que sim e que não ao mesmo tempo mas de modo absolutamente magnético.

Até a Joana Vasconcelos teve que justificar que o seu cacilheiro/loja gurmê/business center, era muito político, denunciava, etc. Mas não é a única, a crise comprometeu todos os artistas portugueses, quer eles queiram fazer arte comprometida ou não. E é cómico mas também significativo que mesmo os mais formalistas, gente que se dedica a repetir um gesto ou uma forma durante anos, se reposicione de repente e quase sem dar conta enquanto comprometido.

Dentro de uma hegemonia neoliberal, a cultura está perpetuamente à beira da extinção, em competição permanente consigo próprio e com mil e um rivais. Fazer qualquer tipo de cultura é uma forma de resistência, mas não chega.

Pode-se alegar (como Boris Groys) que fazer uma arte morta, inerte, pode ser um acto político porque reflecte, sublinha  e crítica um status quo que é também morto e inerte. Mas na verdade, e como deveria ser óbvio, só monumentaliza esse status quo.

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Filed under: Crítica

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