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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Porto Ponto e Vírgula

Não tenho uma opinião acalorada sobre a nova imagem do Porto. À primeira vista e sem conhecer outras aplicações que não os mupis e o que fui vendo pelo facebook parece-me formalmente capaz.

Por outro lado, saindo do jogo de formas e composições para o campo da conotação, da imagem que se quer dar do Porto, também acho que funciona, embora represente uma ideia de cidade da qual eu desconfio muito.

Isso percebe-se quando se escolhe o azul e branco, por exemplo, mas se salvaguarda logo de seguida que não, não é o Futebol Clube do Porto mas os azulejos. Só um turista associa o Porto aos azulejos azuis e brancos; para um portuense, o azulejo mais comum da cidade é o das casas, alongado e com um relevo nas bordas.

Goste-se ou não de futebol ou dessa equipa, o azul e branco acabam sempre por ser as cores do Porto. Pode-se argumentar que as verdadeiras cores são historicamente isto ou aquilo mas é uma guerra perdida. Portanto, mais valia assumir a escolha pelas suas verdadeiras razões do que usar os azulejos como pretexto.

O efeito final, deliberado ou não, é o de uma imagem feita para gente de fora, e não para os locais que só encontram aqui o que conhecem da cidade de modo codificado e indirecto. No geral, ao olhar para os mupis com a sugestão de um painel de azulejos e a palavra Porto com uma cercadura azul, lembrei-me de uma estação de comboios, e esta é de facto uma boa imagem para uma cidade que escolheu viver mais para turistas do que para quem a habita.

Quanto ao ponto final, desconfio por regra de soluções de branding que jogam com a gramática e a síntaxe. O “Porto.” funciona mal usado em artigos como este. Precisa de aspas ou até de um bold, porque pôr um ponto em itálico não resolve grande coisa. Escrever Porto Ponto Final, dá quase um trava línguas. É difícil ser uma solução tipograficamente elegante nestes contextos.

De resto, não sei muito sobre como vai ser aplicada. É um sistema de ícones modular, uma solução que está evidentemente na moda – neste mesmo concurso, foi apresentada outra proposta usando um sistema semelhante, do atelier Martino & Jaña.

A ideia é serem versáteis, peças lego que podem ser combinadas entre si para gerar todo o tipo de aplicações. Às vezes são associadas, como na Casa da Música, a um programa informático que produz soluções cromáticas ou de composição. Quer-se portanto uma certa autonomia do sistema de identidade, sugerindo até que poderá funcionar sozinho, sem o designer que o criou. É apenas conversa de vendedor, claro. Os sistemas de identidade não são brinquedos a que só é preciso dar corda ou mudar as pilhas para irem a tocar a pandeireta até ao horizonte. Precisam de uma equipa competente e criativa.

Nesse aspecto, e usando o mesmo exemplo, interessa-me menos que a identidade da Casa da Música tenha sido feita por Stefan Sagmeister do que o trabalho posterior e quotidiano de aplicação de André Cruz e Sara Westermann.

Não sei como a nova imagem do Porto vai funcionar na banda de apoios e patrocínios de um cartaz. Não sei se irá funcionar como uma marca  forte, unificando toda a produção gráfica relacionada com a câmara ou se vai ser como o anterior logo (com a torre dos Clérigos numa elipse verde) que para todos efeitos funcionava como um carimbo que se aplicava em todo o lado. Tudo depende de quem a aplicar e como. Para já não é possível dizer grande coisa.

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Filed under: Crítica

10 Responses

  1. jonathan aires diz:

    o que eu gostei mais foi da “dor de corno” dos autores da proposta não vencedora que, numa atitude clara de maus perdedores publicam a sua proposta recusada antes da apresentação pública da imagem vencedora.. clap, clap, clap… mediocridade tuga e “bife tuga” no seu melhor…

  2. Só um portuense percebe a ideia do ponto final. Só um portuense pode dizer “epah Porto é Porto.”. Os turistas não vão perceber, não se vai dar ao trabalho de perceber e, pior que tudo, vai associar a algo negativo.
    O ponto final é usado para acabar uma frase. E como diz o Sr Mário Moura, é um trava línguas, é um trava diálogo é uma trava abertura! E, como se não bastasse o ponto final ainda é um logo fechado por um rectângulo. Wow… Temos aqui um potencial problema. Espero que o turismo do Porto não seja prejudicado.

    Diz o Sr Eduardo Aires que a principal base para o desenvolvimento desta identidade foi o azulejo.. Eu diria que foi a linguagem gráfica da moda, bastante usada e re-usada, bastante déjà vu até.

    Repare-se, por exemplo, na identidade e imagem gráfica do museu de design de Moscovo e na identidade gráfica do metropolitan de Lille (neste caso não sei se foi aceite e executado).. e vemos um quase plágio da parte do martino&jana que a meu ver. Não estou a acusar alguém em especifico mas o responsavél pelo estúdio tem de estar mais atento se algum membro de uma equipa tão vasta comete um erro destes.

    O Sr Rui Moreira respondeu-me a um comentário facebookiano na sua página no qual eu perguntei o porquê dos 18 dias. Os 18 dias estão referidos na proposta “Behanceira” do martino&jana. O Sr Rui moreira disse e repetiu “Não acredite em tudo que ouve ou que lê” ….

    Alguém me pode dizer qual foi o verdadeiro prazo deste projecto e se foram mesmos convidados apenas 3 estúdios? Alguém me sabe dizer porque é que a CMP só convidou 3 estúdios? 75 mil euros para ter uma margem de escolha de 3 propostas é gravíssimo. Só vejo o motivo “falta de tempo” .. Mas quanto tempo?

    A nível estético.. Acho que, por exemplo, só vai saber bem ao zé povo ver o metro com repetição de icons durante os primeiros tempos. Depois vai tornar-se numa identidade gráfica enfadonha e saturante.

  3. saboteur diz:

    A mim claramente desilude. Não coloco em questão se do ponto de vista forma “funciona”, acredito que “cumpra”. Mas do ponto de vista conceptual acho que não transmite a dinâmica, diversidade e singularidade da cidade. Além disso se existe um tipo de azulejo típico da cidade são os Azulejos de Fachada ou hidráulicos (de 1840 a 1920), e não os azulejos historicistas (1900 a 1940) como os utilizados para a proposta e que podemos encontrar na alguns monumentos como a Estação de S. Bento e Capela das Almas… mas pouco mais.

  4. luix diz:

    a imagem parece-me 99% bem. já o ponto está claramente a mais, provalvelmente uma conceção do design ao marketing, que na ambição de ter um claim tão icónico como o “I love NY” ou o “I AMsterdam” inventou um “Porto ponto” que aparece mais como símbolo do provincianismo outrora conotado com o Porto do que do cosmopolitismo que hoje representa.
    se o Porto é o Porto, o ponto não faz falta e polui uma imagem até bem conseguida.
    para quem vive aqui ou para quem nos visita, o Porto é de fato único, mas qual cidade não é? e um ponto não é suficiente para comunicar essa ideia. era preciso pensar um pouco mais, reticências.

  5. Boiola Mor diz:

    Martino & Jana só trabalha a sério quando é para receber prémios de milhões. Por uns míseres 75 mil euros e em apenas 18 dias, é óbvio que se limitaram apenas a fazer autotrace no illustrator duma cena qualquer que encontraram no google. Eu tinha feito o mesmo!

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