The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Amor Armado

TheFlamethrowersKushner

Acabei finalmente o The Flamethrowers, de Rachel Kushner. Comecei a lê-lo porque metia os Up Against The Wall Motherfuckers, continuei  porque é o melhor livro de ficção que já apanhei sobre artistas e política. Ou até simplesmente sobre artistas. Kushner consegue descrever perfeitamente a informalidade tensa do mundo da arte. A cada passo, apanham-se frases brilhantes que dá vontade de citar. Fui-as semeando pelo facebook, cheio de inveja.

Os motivos recorrentes são chamas, armas e – talvez – casais. Nas primeiras páginas assiste-se a uma discussão numa bomba de beira de estrada, onde o homem salpica de gasolina as pernas da mulher:

‘He retrieved a book of matches from his pocket and began lighting them and flicking them at the woman. Each lit match arced through the dim light and went out before reaching her. Gas was dribbling down her legs. He lit matches one after another and flicked them at her, little sparks – threats, or promises – that died out limply.

“Would you quit it?” she said, blotting her legs with the blue paper towels from a dispenser by the pumps.

The angled sodium lights above us clicked on, buzzing to life. A truck passed on the highway, throwing on its air brakes.

“Hey,” he said. He grabbed a lock of her hair.

She smiled at him like they were about to rob a bank together.’

Uau.

Se algum dia Raymond Chandler trocasse os detectives pelas intersecções obscuras entre o mundo da arte e a insurreição armada, não faria melhor serviço do que Kushner.

Fala-se de arte e política à volta de uma família de industriais italianos. O livro começa com o patriarca, ainda jovem na Primeira Grande Guerra, a matar um soldado inimigo com um farol aproveitado da mota de um colega morto. Faz parte dos Arditi, uma brigada de elite motorizada, especializada em atacar trincheira inimigas debaixo do fogo da própria artilharia, armados de punhais e granadas. Mais tarde será apoiante convicto de Mussolini, uma figura brutal que o próprio filho, artista em Nova Iorque, descreve como uma força imperial.

O livro é narrado em 1977 por uma mulher anónima, jovem, namorada do Sandro Valera, o filho, e aspirante ela própria a artista bem sucedida. Recém-chegada a Nova Iorque, é através dela que percorremos os lofts e as galerias, os encontros inesperados, ritualizados, procurados, entre a arte e a violência. Na maioria das cenas, há sempre, em qualquer lado, uma arma, que tal como o revólver de Chekov, acaba sempre por ser usada. É a história do artista que foi atingido a tiro por Nina Simone. A do artista que atingiu a tiro a mão do homem que o assaltava. Do casal de artistas que davam tiros um ao outro com pólvora seca. Dos Motherfuckers, que simulavam atentados a artistas e galeristas com armas de pólvora seca, e espalhavam posters com a imagem de uma pistola, a pedir “people who like to draw”, que significa desenhar mas também sacar. Arte e violência.

Por um lado, a arte à primeira vista soa a falso por comparação com toda esta violência. O filho do fascista dedica-se à arte, e evita falar do pai, do seu dinheiro e das suas indústrias, porque quer fugir. Não é único, toda a gente foge ao assunto, qualquer que seja; cria novas identidades, que é como quem diz, faz de fugir ao assunto a sua identidade. Mas o assunto, neste caso a violência, infiltra-se em todo o lado. Nos Motherfuckers, uma gang de rua com um programa, que pregava o “amor armado” e aproveitava todas as oportunidades para a insurreição, arte e violência confundem-se. E mesmo a vida deliberadamente brutal do patriarca parece um contraponto ao mundo ritualizado da arte, mas não podemos esquecer que até ele é, ou pelo menos foi, um artista, um Futurista que levou o seu amor pela máquina e pela guerra para além dos poemas, um percurso invertido em relação a todos os outros, que tentam esquecer a violência contando estórias.

É essa escolha, essa hesitação e confronto permanente entre arte e violência, estória e História, que dão o mote ao livro. Os lança-chamas do título são os soldados de papel com que o filho artista brinca em criança. São os seus favoritos. Mas o pai diz-lhe que:

“the flamethrowers were a hopeless lot. Their tanks were cumbersome and heavy and they were obvious and slow-moving targets and if they were ever caught they were shown no mercy. That’s not a thing you want to be, his father said, after which Sandro continued to love the flamethrowers best, to reserve for them a special fascination, in their eerie, hooded asbestos suit, the long and evil nozzle they aimed at enemy holdouts. But he didn’t know if his interest was reverence or a kind of pity.”

 

 

 

 

 

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Filed under: Crítica

One Response

  1. […] do ano: The Flamethrowers, da Rachel Kushner. Desde que me interesso mais por arte contemporânea que andava atrás de boa ficção sobre o […]

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