The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Chorar sobre leite derramado

Olá Mário

A nova imagem do Porto e principalmente os argumentos que ouvi em volta da imagem por comparação com a proposta dos Martino&Jaña andam a irritar-me cada vez mais. Tira todo o fogo de artifício que envolve a proposta dos white studio – muitas vezes vai ser usada mesmo assim: rectângulo com moldura azul e a palavra porto dentro – e é o descalabro. É que o ponto final é uma piada que dura pouco ou nada e para um portuense parece que se limita a levar ao pedestal da representação do Porto aquele tipo de frases que se diz no burlesco tripeiro – “Porto é Porto e mai’ nada. Ponto final.”. Pelos comentários no facebook percebo que o ponto final passa despercebido a muita gente. Dizia um professor meu que todos os logos vivem de um twist, de um trocadilho visual mas fazes o exercício de o imaginar sem o ponto final e pode passar despercebido, é quase indiferente. O pecado capital desta imagem é acabar por escapar-se  a apresentar algo do Porto ou pelo menos parece achar que não precisa e neste sentido laboratorial despido de contexto é de um provincianismo constrangedor. É uma marca branca da cidade do porto, uma etiqueta despersonalizada que se poderia aplicar a qualquer cidade.

Vê o site e os seus subserviços (e já agora os problemas de organização e “paginação” de informação do site). Os desenhos dos serviços são inócuos e desengraçados, pictográficos apenas, enquadrados com os dizeres de uma forma forçada, pouco natural.  O desenho do edifício da câmara municipal só por simpatia dizemos que é edifício da câmara.

A maior parte do que ouvi criticar sobre as variações e aplicações dos Martino&Jaña ou dos white studio não pode ser levado demasiado a sério. Não têm de ser exactamente assim, são propostas. Pode pegar-se no comentado tom fascizóide dos posters da Martino&Jaña e fazer outra coisa qualquer. A marca branca dos white studio à primeira vista parece depender demasiado dos azulejos pictográficos que a envolve e estes parecem-me muito mais fashion passageira perecível (ao mesmo nível da oval do anterior logo) do que as articulações do Martino&Jaña. Sim, poder-se-ia dizer – o que não é defeito em si – que nos M&J  é fashion, ou à designer atento, a articulação de jogo didático retro de sinais e letras, do jogo de monta e remonta de que alguém disse ser “talvez demasiado arrojado” ou arriscado para se usar numa instituição.  O que não aprecio nesta representação que se vê no behance é um pendor demasiado turístico, naquilo que lembra um moinho de vento, as ondinhas, etc., sendo mauzinho, parece a escolinha vai à praia. Mas por outro lado o desenho grosso e despojado apresenta um porto orgulhoso de si, nobre, duro e grosso que imagino que para o comum das pessoas diz muito mais do porto (principalmente a versão escudo que identifica a câmara do porto) do que a proposta dos white studio. É uma estranha convivência entre um heráldico bélico e a escolinha do estado novo vai à praia (nem sei se estou a brincar), mas nada que não se pudesse resolver.

A proposta dos M&J segue uma linha mais “arrojada” e refrescante do que a habitual na paisagem das identidades das câmaras, e neste caso diria (posso estar perfeitamente enganado) ter um prazo de validade largo, acima de tudo julgo que sobrevive melhor às propostas de articulação que o seu próprio painel propõe. Está suficientemente bem desenhado e despojado para isso mas a proposta peca por não vir esclarecida, por exemplo, a inevitável necessidade do escudo associado com a frase  “Câmara Municipal do Porto”, quer dizer, pelo menos não a vejo no behance (o estacionário não serve para prever o uso do logotipo da câmara no fundo de um cartaz). Há coisas a resolver e talvez a mudar, afinal trata-se de um ponto de partida, melhor que o do vencedor, ou simplesmente tem um ponto de partida em vez de um ponto final.

Foi-me repetido o argumento de que a proposta dos Martino&Jaña era demasiado autoreferencial mas isso é algo que possivelmente importe apenas os designers. Para o bem ou para o mal este porto turístico com uma contemporaneadade edilicamente misturado à la Monocle com o velho porto fica melhor representada pelos M&J e imagino que bem gerida lhe sobreviva airosamente. Mas esta mensagem é estar a chorar sobre leite derramado.

Se me contrariasses agradecia. tenho a impressão que vou passar a semana a falar disto.

Manuel Granja

Nota do editor: Manuel Granja é designer e editor, entre outras coisas da Revista Nada. Este é o primeiro texto em mais de uma década de um convidado. A primeira versão foi-me enviada via chat do facebook e, pela sua argumentação articulada, pareceu-me que seria um desperdício evidente deixá-la ficar por aí.

Anúncios

Filed under: Crítica

5 Responses

  1. Tal como já tinha dito no outro texto, não tenho um ponto de vista muito acalorado sobre o assunto. Acho que cada uma das duas propostas tem problemas. Além dos que já tinha apresentado, os ícones da vencedora precisavam de mais trabalho, inclusive alguma compensação óptica para diferentes tamanhos, por exemplo. Curiosamente o favicon da câmara do Porto é bastante mais reconhecível que o ícone principal. O site e o portal, que entretanto já espreitei, são bastante fracos.

    Na proposta dos M&J não consigo, nem acho que se deva, separar forma e conteúdo. Quando se apresenta uma imagem não se apresenta apenas uma forma, mas uma filosofia. Os slogans são bastante conservadores, e acentuam a inspiração heráldica que é uma moda dentro do design da última década, mas neste caso não é usada apenas como um jogo formal, mas literalmente. Slogans e brasões reforçam-se uns aos outros dando-lhes no conjunto uma conotação mais dura e conservadora do que teriam em separado.

    O contraste de preto e banco duro pode ser um problema quando aplicado em contextos que não a identidade original. A Universidade do Porto, por exemplo, tem um logo contrastado e pesado que é uma dor de cabeça incluir em cartazes, cartaz, etc. É extremamente invasivo e joga mal com cores. É possível que acontecesse o mesmo com este.

    Mas, mais uma vez, não são soluções das quais diga: “É isto!”

  2. Não sei se o site foi uma inspiração directa à presença da ordem franciscana no Porto que já leva uma mão cheia de anos, mas de facto este é de uma pobreza… franciscana.

    Nem o aviso de que “alguns conteúdos e funcionalidades ainda se encontram a ser ajustados” lhe valem para justificar tamanho buraco negro de ideias. Não compreendo muito bem, estando todos os serviços públicos em portugal obrigados a obedecer a normas de acessibilidade, como é que este trambolho viu a luz do dia.

    Vê-se a metros de distância, e sem necessidade de um qualquer retina display, com os meninos por detrás da pobre criatura pouco ou nada percebem da coisa, e julgar que desenha um site, e neste caso um site institucional de um serviço público, é igual a desenhar um cartaz.

    Usabilidade é coisa que não preocupa o autor. Um verdadeiro trabalho de ego-centered design… um “berdadeiro” monte de coisa nenhuma… (tirando a recheada carteira).

  3. A diz:

    Desenhar a identidade para uma cidade é um processo complexo. Não basta morar nela para dizer que a conhecemos. Este projecto, sem pressas, deveria incluir investigação, entrevistas, consulta a um grupo variado de habitantes e conhecedores do Porto, sendo, para tal, excessivamente curto o prazo falado de 18 dias para a apresentação das 3 propostas iniciais a concurso.

    Em lugar de uma competição, poderia ser organizado, por exemplo, um grupo de trabalho eclético (com outros profissionais, para além de designers) ao longo de um período de tempo que permitisse a construção de algo mais sólido. Deste modo, talvez se conseguisse pensar e projectar a identidade para as pessoas do Porto e, só num segundo plano, para os turistas.

    As duas pospostas conhecidas tocam-se em muitos pontos, ambas constroem um ambiente demasiado digital e vectorial, em outlines. Formalmente, distinguem-se em dois pesos: light (WS) e bold (MJ).

    A proposta dos MJ peca pelo maneirismo, num universo gráfico recorrente e já bastante visto em vários projectos de design, inclusivé na cidade do Porto, em sucessões/jogos aleatórios de cores e formas geométricas. Perde-se no desequilíbro de algumas composições e aplicações demasiado gritantes, sobretudo as de grande escala, e em slogans próprios de um clube de futebol. Falta nesta proposta alguma consistência conceptual na sua aplicação formal. Veja-se o exemplo do sistema gráfico desenvolvido pelos Mevis & Van Deursen para Rotterdam 2001, capital da cultura.

    A proposta dos WS pretende assumidamente ser um I “heart” NY, contudo não chega a ser aquilo que ambiciona. Muitas cidades e designers, quando confrontados com este tipo de projecto, caem no erro de tentar recriar o climax desta solução e esquecem-se de olhar e pensar a própria cidade em causa.

    A ideia conceptual do ponto final não é nova e graficamente creio que passará despercebida. Pouca gente se lembra que a Vitra, AOL e Absolut também o têm. E, neste caso, a moldura acaba por esconder/camuflar ainda mais o ponto. A palavra “Porto” já carrega em si todo o seu significado e potencial. O nome é parte da sua essência e de reconhecimento nacional/internacional, pela cidade, vinho e futebol.

    De salientar ainda que, nas duas propostas, a tipografia fica a perder. Desperdiça um discurso e personalidade ora numa fonte “roadsign”, ora em capitulares em esquema de palavras cruzadas. Veja-se o carisma que a American Typewriter acrescenta no I “heart” NY.

    Acho acertada a aposta numa única cor directa, o azul, que ajuda à disseminação da identidade pela cidade em manchas de cor. Revejo mais o Porto nela, não só pelos azulejos, motivo apresentado pelo WS, mas principalmente pelo rio que contorna e contamina a cidade e a sua história e pelo seu Clube.
    Não sentirei falta do anterior “logo” verde, que transportava consigo Rui Rio e a sua doutrina.

    Fica ainda a curiosidade de conhecer a terceira proposta.

  4. Mariana diz:

    Parece-me que a proposta dos M&J é apenas um ponto de partida, não foi desenvolvida para além da proposta inicial. A dos ws é uma proposta implementada…

    Agora, pergunto-me: o Porto é light ou é bold? Algum portuense tem dúvidas?

  5. […] Ainda sobre este tema, vale a pena ler o texto do Manuel Granja no Ressabiator. […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: