The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Mais uma notinha em relação à Cena do Porto

Diz-se muito e com razão que a vida pública portuguesa se faz de casos. Discutem-se pessoas e bitaites mais do que políticas. É verdade, embora não me pareça que seja diferente em qualquer outro lado. Não é difícil discutir a vida de alguém, gafes, aparência, eloquência, etc. O problema é conseguir esquecer isso tudo e perceber por detrás e para além desse ruído de fundo tendências, táticas, estratégias e ideologias.

Até há meia dúzia de anos, por exemplo, o neoliberalismo era uma tendência sem nome, evidente no discurso recorrente sobre a tanga, a obsessão pelo déficit, a necessidade de desbastar o Estado, enaltecer os criadores de emprego, etc. Faltava um conceito que revelasse o padrão, mas a coisa estava lá, à espera de um nome.

E, ainda hoje, quem defende essa doutrina resiste a esse nome, porque descrever criticamente algo já está a meio caminho de o desnaturalizar, de lhe tirar o estatuto de senso comum, de lhe descobrir alternativas, de lhe descobrir paralelos, de fazer a ponte entre o que acontece aqui e o que já aconteceu em outro lado.

Mas há sempre a resistência de dizer que aqui é diferente, ou seja que há algo de identitário que de algum modo nos isola dessas tendências gerais, um excepcionalismo que pode nem ser triunfalista (“Somos os melhores”) mas basta ser miserabilista (“Somos os piores”).

O mesmo se pode dizer das artes, nem sequer por analogia mas simplesmente porque são algo necessariamente integrado na vida pública, política e económica de um lugar. Se tudo isto se integra num esquema maior, as artes também o farão.

Assim, dizer que os movimentos dos artistas do Porto se podem resumir a uma resistência a Rui Rio é reduzir uma série de desenvolvimentos complexos a um caso, que disfarça outras movimentações mais significativas. Por exemplo, parece-me que os embates mais interessantes foram em relação a Serralves e não em relação à Câmara.

Se a questão geral em relação a Rui Rio era de representação, de reivindicar a presença e a própria legitimidade da cultura dentro da cidade, em Serralves a discussão foi semelhante mas mais difícil, porque era interna ao próprio mundo da cultura. Foi uma discussão entre artistas, críticos, curadores, directores, onde havia posições muito distintas quanto ao papel do artista, da arte, da instituição, etc.

A marca da sua dificuldade reside no facto de ter deixado pouquíssimos vestígios documentais. Foi sobretudo oral e quase privada. Agora, quase uma década depois pouco ficou para além das memórias vagas e contraditórias dos participantes. Do diz-que-disse.

Mas foi uma discussão que ecoou outras, que se enquadrou num esquema geral de interrogar as funções de artista, público e instituição; de como a instituição deve representar uma série de identidades, incluindo a sua própria.

O resultado disto, quase dez anos depois, é no que me diz respeito frustrante. A missão de Serralves continua a ser a circulação de nomes mais ou menos estabelecidos internacionalmente, entremeados com a fixação retrospectiva de nomes da arte portuguesa de há uns quarenta anos. Tem uma muito vaga política ad hoc de intervenção no panorama das artes actuais do Porto. É significativo que uma das primeiras exposições da nova directora tenha sido a dos 12 (ou 10, nem me lembro) Contemporâneos, uma maneira expedita de picar o ponto à necessidade de representar os “locais” antes de iniciar um périplo pelo Médio Oriente.

Foi essa obrigação de “picar o ponto” que sobrou de toda a discussão do lado das instituições. Do lado dos artistas, em muitos casos os mesmos que achavam que não se devia representar os artistas locais só por serem locais – era preciso salvaguardar a internacionalização, etc. e tal –, o resultado é uma representação pungente mas alegrezinha da pobreza, da precariedade, do local.

Anúncios

Filed under: Crítica

One Response

  1. […] a reflexão sobre a Cena do Porto, não é difícil demonstrar o carácter mitológico de uma suposta resistência das artes a Rui […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: