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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Nova Ciência Explicada às Criancinhas

Não há qualquer género de vantagem no modelo actual de integração das artes no ensino superior, que as obriga a fazerem de conta que são uma ciência, com a sua jigajoga permanente de papers, conferências, peer review, etc. É tão degradante como pôr um urso a dançar num circo em troca de comida ou de menos pancada. Nem sequer é uma analogia completa; para isso o urso teria que comprar o seu próprio tutu de bailarina e pagar do seu próprio bolso as deslocações.

Ai, mas dirão, os ursos mais bem sucedidos são recompensados. Nem por isso, só os que têm mais jeito para fazer de conta que são bailarinas. E esqueceram-se de dizer que os ursos têm que concorrer nos apoios contra bailarinas a sério daquelas que treinam desde os cinco. Ai, mas já vês, até as bailarinas têm tido cortes, também não é fácil para elas. Estás a dizer, que por ser um sistema de bailarinas onde mesmo as bailarinas não se safam, até há alguma hipótese para os ursos? Nisso, reconheço, és capaz de ter razão; só depende do sentido da palavra “urso”.

Quando entrei para o ensino, achava que havia pouca reflexão sobre design. Escrevia-se pouco. Agora é uma roda viva. Papers. Mestrados. Doutoramentos. Qual o efeito disso na discussão pública? Mínimo. Nas artes plásticas é o mesmo: escreve-se muito mas desapareceram praticamente todas as revistas especializadas. Mesmo na imprensa generalista a crítica reduziu-se a quatro ou cinco colunas distribuídas entre o Público e o Expresso na melhor semana. Pelo contrário, a verborreia de circunstância, a prosa de folha de sala, o discurso de inauguração tornam-se cada vez mais “científicos”, até já se diz que são a nova crítica.

Se digo isto tudo é porque o meu Centro de Investigação foi dos que ficou de fora, não vai ter financiamento do FCT, que de resto nunca teve. Na avaliação, dava-se a entender que nos preocupávamos mais com arte do que com investigação aplicada. Mas não faz mal, em 2020 podemos tentar de novo. Até lá temos que nos financiar por outros meios ou do nosso próprio bolso. Ou seja, vamos andar a ocupar o nosso tempo e a cortar no nosso próprio salário pela possibilidade de, daqui a meia década, nos cortarem um pouco menos nos nossos financiamentos e salários – porque ter uma boa avaliação só garante que não nos batem tanto. E, claro, enquanto não somos aceites pelo sistema, a “investigação” paga pelo próprio bolso conta para engrossar os resultados do sistema que não nos aceita.

É de loucos. A prova disso? Alguém escreveu um paper a apontar os erros amplamente documentados do sistema. Em vez de uma refutação no mesmo fórum, o sistema prefere processar legalmente quem o põe em causa. Se tudo isto fosse verdadeiramente científico, estaria sujeito a escrutínio. Mas na verdade como é apenas um sistema de administração burocrático, só interessa escrutinar os outros.

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Filed under: Crítica

2 Responses

  1. Fazer figura de urso é uma analogia excelente. Andar a fazer campeonatos também está na onda: http://arquitectoferreiralanza.wordpress.com/2014/07/29/jogar-a-ciencia/

  2. […] relação ao FCT, etc., ainda falta dizer uma coisa. Pessoalmente, acho que as artes deviam saltar fora. Não ganham […]

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