The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Pagar

Ontem, uma amiga minha, a Inês Moreira, veio relembrar-me que nem todos os comissários e residências são como os que eu que descrevo, onde é comum uns serem pagos e outros nem por isso. Ela disse que fazia questão, nas coisas que organiza, de toda a gente receber. Acho muito bem, e comprometi-me a informar disso mesmo aqui.

Não tenho grandes números sobre trabalho não remunerado na cultura. Penso que ninguém terá. Mas sei que é praticado constantemente. Estou sempre a ouvir relatos de casos. Outra amiga, também a propósito de arquitectura disse-me ontem que andava a tentar que os arquitectos estabelecessem um tecto mínimo, um preço abaixo do qual ninguém trabalharia. Eu acho bem, e achava bem que se fizesse isso nas artes em geral. No caso do design, idem.

Só pedia, já agora, que se desse prioridade aos salários e não aos orçamentos. Cobrar um mínimo por trabalho a um cliente não é a mesma coisa que pagar um mínimo às pessoas que estão a fazer trabalho. No primeiro caso, está-se a dar protecção às empresas e a confiar que elas façam o mesmo aos seus funcionários. No segundo caso, está-se a protegê-los directamente.

Mas neste momento parece que as artes se dissolveram. A arquitectura está em pantanas. A engenharia volta a disputar com ela territórios já demarcados. É a falta de dinheiro que obriga a procurar novas possibilidades. Mesmo os arquitectos já o fazem há algum tempo. É comum encontrá-los pela nova hotelaria e pelo novo turismo, por exemplo, não necessariamente a fazer projecto. Design e arte, idem. Daí que me pareça mais realista proteger-se um salário do que uma identidade profissional.

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Filed under: Crítica

5 Responses

  1. m0rph3u diz:

    Seria necessário que ninguém estivesse disposto a trabalhar sem ser pago.

    Mas o contexto é difícil e por vezes pensa-se que a visibilidade e a oportunidade são formas de pagamento.

    Pessoalmente posso dizer que a falta de pagamento é o motivo que me afasta de todas as iniciativas do Sr. Victor Pinto da Fonseca, que desde 2008 me deve uma quantia significativa pela minha colaboração na Artecapital.

    Acho incrível que se faça passar como um “filantropo”, quando a maioria da filantropia é de quem produz o trabalho e não dele.
    Mas quando continuo a ver artistas (alguns que nem precisam nem de visibilidade, nem tão pouco oportunidade) a colaborar com ele e a trabalhar dentro do seu espaço da Rua da Boavista.

    Mais que falta de pagamento existe falta de seriedade e claridade no processo.
    Talvez falta de relações contratuais à partida, que forçassem o cumprimento dos contractos – tanto ao nível do serviço prestado, como das condições de exibição das obras, a sua promoção, produção e remunerações aos artistas ou outras entidades envolvidas na produção da obra ou exposição.
    Existe ainda o contracto verbal, que se assume por ambas as partes tendo em conta a boa-vontade dos envolvidos.
    Mas quando uma das partes, após o trabalho ter sido realizado e entregue, não tem intenções de cumprimento cria-se uma situação indesejável e a parte que produziu e entregou é claramente lesada.

  2. +doMesmo diz:

    “Mas o contexto é difícil e por vezes pensa-se que a visibilidade e a oportunidade são formas de pagamento”…

    COMO NÃO NUM MUNDO DE OFERTAS ILIMITADAS!?… …no qual se sabe demasiado bem que critérios vigoram quando todos os referenciais de valor, que não esses mesmos; parecem tê-lo abandonado…

    ‘E agora..tchan tchan tchan tchan… a P U B L I C I D A D E!’

    • m0rph3u diz:

      Não sei se entendi bem a resposta, mas a minha perspectiva é que se o único valor de uma proposta não paga é a oportunidade e a visibilidade, então não pago por não pago, mais vale fazer-se ou participar-se em algo que claramente nos representa. Em vez de fazer-se parte de uma colecção de alguém, que não fazendo mais que fornecer um espaço ou dar a entender que será proveitoso ao nível da visibilidade, não está verdadeiramente interessado em pagar o que quer que seja.
      Há uma dificuldade em acreditar em si mesmos e nas suas capacidades mobilizadoras de se conseguir fazer.
      É sempre mais fácil viver na sombra do instituído, do que viver de forma resistente no que parece não existir, mas vive-se.
      A História de Arte, por muitas vezes provou que as maiores alturas de criação e inovação dignas de ser registadas vieram dos resistentes. E o tempo acabou pelas instituir e absorver.
      E se pensar na década de 90, quando o dinheiro jorrava (ou parecia jorrar) para a Arte&Cultura, por muitas exposições e eventos que se tenham realizado de uma forma mais ou menos oficial, as minhas recordações mais vivas caem no que se fez de forma resistente no Porto.
      Alguém se lembra o que aconteceu no resto do País, durante a mesma altura?
      E hoje esses artistas são pagos e tiveram de crescer e sobretudo procurar o seu lugar fora do circuito nacional e alguns deles conseguiram-no – hoje têm uma visibilidade bastante maior do que a que teriam por ter marcado presença em algumas exposições instituídas; já foram absorvidos e com certeza são pagos.
      Sobre a criação de valor é um tema mais amplo.
      O valor de algo é também uma medida da necessidade. Por um lado, não há um tecido comercial na Arte com alguma solidez e que com exposições e obras vendidas pudessem indicar o valor (seria sempre superficial) da obra de um artista.
      Por outro, não existe imprensa especializada, com curiosidade suficiente para andar em galerias e ateliers a ver o que se faz; a falar com os artistas; com curiosidade e que desse a conhecer quem faz e o seu trabalho a um público, que pode não ter essa oportunidade de estar mais próximo desse mundo.
      Isso criaria valor.
      Mas o que se assiste é normalmente a uma escrita preguiçosa ou presunçosa; carregada dos mesmos jargões, referencias teóricas e lugares comuns para justificar o que se vai passando nos museus (sobretudo museus de Lisboa) e eventualmente, por vezes, destacam eventos em espaços que de forma directa ou indirecta estão ligados às suas relações pessoais ou com quem gostariam de se relacionar.
      Falta curiosidade, vontade de ajudar a escrever uma Historia de Arte futura. Há apenas preguiça boçal e anafada.
      Houvesse mais visibilidade no “borbulhar”/da Arte que ajudasse a aumentar a visibilidade no que se faz (instituído ou não) e a atenção da sociedade viraria-se sobre a Arte&Cultura e isso aumentaria o ” valor” social da Arte & Cultura com consequências profundas no nosso Povo e por conseguinte seria estranho não ser-se pago. Quase tão estranho como pensar que um jogador de futebol profissional não aufira vários milhões de euros por mês, porque uma vez por semana joga 90 minutos atrás de uma bola treinando todos os dias para esse momento.

  3. +doMesmoPão&Circo-alienação diz:

    >”que se o único valor de uma proposta não paga é a oportunidade e a visibilidade, então não pago por não pago, mais vale fazer-se ou participar-se em algo que claramente nos representa”

    …pôr-se-á o problema da possibilidade de representação a qualquer preço?..pouco importará o que nos represente desde que sejamos representados/integrados!? – sejam os focos de representatividade o que quer que forem, toca a embarcar nessa jangada porque nem a Noé cabem “escolhas acertadas”?!

    >”É sempre mais fácil viver na sombra do instituído, do que viver de forma resistente no que parece não existir, mas vive-se. (…)”

    :sobrevive-se?…do artista como herói trágico?

    >e quanto à criação de valor-‘necessidades’-jogadores de futebol e afins…

    Não há termo de comparação possível entre casos isolados como o futebol (e outros que tais), e as artes (etc.)!… ….lembro sempre ‘os nobel’ e as quantias de premiação associadas…

    “Todo o meu patrimônio deverá ser tratado da seguinte maneira. O capital será investido pêlos meus executores em títulos seguros e deverá constituir um fundo, a participação onde deverá ser distribuído anualmente em forma de prêmio para aqueles que, durante o precedente ano, deverá ter conferido o grande benefício para a humanidade”

    …talvez as listas de prioridades sobre “os grandes benefícios para a humanidade” não devessem ser democraticamente definidas(?) pelos bolsos dos comuns mortais (são-no!?)???…
    …e fora “os grandes”, ficam outros tantos e mais-ao-menos insignificantes dilemas de dia-a-dia cujos “princípios de justiça” deixam tanto a desejar quanto as conhecidas sentenças, despachos e decisões judiciais… …

    …o problema do investimento na arte/cultura não pode ser um problema isolado de investimento… …Será inevitável reacender uma vez mais os problemas do liberalismo e dos mercados controlados?…

    Poderá a sociedade (suas prioridades) deixar de ser um espelho da maioria dos indivíduos que as habitem, e consequentemente, pelos princípios pelos quais aqueles que as constituem se regem- na sua finitude /limitação de alcance!?

    urehguierguergukerglekrhglerhughe :s

    > “…escolher um iogurte. Quantas calorias. Se tem carcinógenos. Se tem ingredientes geneticamente modificados. Se foi feito por trabalho escravo. Leiam a etiqueta e vão à net antes de consumir e compactuar.”

    …penso sempre quão mais estou disposto a pagar por ovos de galinhas criadas ao ar livre… …ou até mesmo se não compensa mais castrar a gata de vez para que não me suje os tapetes… …

    ???…

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