The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Discussão do Costume

Daqui a menos de uma semana vou fazer uma conferência sobre aquilo que ainda vou chamando a Cena do Porto, no âmbito do evento Sub 40. Contínua a ser um assunto estimulante talvez por ser também bastante irritante. É inevitável discutir-se o assunto sem grande atenção ao que se passou realmente e que se poderia facilmente comprovar com o mínimo de esforço. Já na altura era assim. Agora é pior, porque já passaram quase dez anos desde essas discussões e continua-se a cair nas mesmas armadilhas.

Um bom exemplo é a crítica à exposição que Celso Martins publicou ontem no Expresso, onde se assumem as coisas do costume:

· Assume-se que a Cena Alternativa era um todo coeso quando nunca o foi. Houve bastantes discussões que levaram a cisões.

· Assume-se que a cena ainda é actuante quando acabou nos termos e condições em que era praticada há dez anos. As mesmas pessoas continuam a ser artistas e a fazer arte mas individualmente ou em pequenos colectivos mas não é, assumidamente, a mesma coisa. Prova disso é o carácter retrospectivo com que essas práticas têm sido recuperadas em várias exposições. De resto, no próprio artigo se enumeram artistas que ganharam visibilidade acentuada quando descolam da “lógica ‘portuense'”.

· Na realidade, esse objectivo, de descolar da lógica “portuense”, era a posição dominante nas discussões da altura e a que acabou por vingar e quem a defendia safou-se muito melhor. Na época, tal como agora (e como Celso Martins lembra), os processos de afirmação já eram “transregionais e supranacionais”.

· A posição oposta (que já na altura era caricaturada como sendo uma defesa dos artista locais apenas por serem locais – a tal lógica portuense) foi a facção que perdeu. O que se defendia era uma política coerente e consequente para a arte no Porto. Nunca se tratou dos artistas portuenses “terem sido esquecidos pelo Museu de Serralves”. Tal nunca aconteceu. Sempre houve muito apoio, diálogo e eventos relacionando o Museu com a cena alternativa. O problema é que era quase tudo mantido a um nível fragmentado, pessoal e informal sem se condensar verdadeiramente numa política coerente, consequente e transparente. Sem isso, os artistas locais acabavam por ser convocados apenas por estarem ali, ou seja por serem locais. O objectivo era outro: questionar as políticas de representação das instituições da arte – o que nem sequer é nada de novo; aconteceu um pouco por todo lado na mesma altura. Tanto quanto sei, só a propósito do Porto é que a coisa é recordada como uma birra provinciana, quando é uma tendência internacional.

· Como já disse aqui várias vezes, quase todos os artistas que atingiram a tal visibilidade acentuada produzem obras centradas no local, na documentação e encenação da precariedade, do património negligenciado, etc. – o que não é surpreendente porque internacionalmente se espera precisamente de um artista vindo de Portugal, um dos epicentros da crise. Arte local, em suma.

· O que se discutia na altura era precisamente a “natureza da mediação política no campo cultural”, um debate inquinado pela ideia, na verdade preconceito, que o artista deve manter uma distância de segurança em relação ao poder político, sob pena “de ficarem identificados com um poder político específico, mas transitório, e de passarem à história como a sua entourage artística oficial.” Ora, não é muito difícil contornar este problema: em vez do poder político comissionar directamente os artistas, pode fazê-lo através da mediação de um comissário. E em relação ao apoio financeiro pode-se fazer algo semelhante, deixando que mecenas privados o façam por ele. Naturalmente, ninguém vê nenhum problema das artes ficarem inteiramente dependentes destes mediadores e destes mecenas. O resultado é uma arte celebrando o dirigismo privado enquanto se queixa do dirigismo público.

 

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A Cultura da Espera

Ouvi na última quinta feira no auditório das Belas Artes a Martha Rosler a falar de política, a propósito da sua obra, e das relações entre a sua encenação e o poder político local, e em geral, de Bush, de Krugman, de Piketty. Abriu a conversa com um cartoon, parte de uma obra apresentada salvo erro em Berlim, satirizando o domínio da Merkel e Sarkozy sobre os Piigs.

Por cá também há arte política embora a “preferível” seja sempre aquela que é elogiada pela crítica como problematizando ou enfrentando “temas políticos sem contudo ser panfletária” – no fundo uma maneira de traduzir o status quo para uma actualidade onde se espera que a arte seja política. Ora, esse status quo tem sido desde há décadas o mais apolítico possível. A arte contemporânea portuguesa não estava nem está minimamente preparada para a crise.

Infelizmente para a maioria deles, a identidade do artista português ocupa agora a mesma zona que os palestinianos, iranianos, sírios, africanos: mesmo que façam macramé ou composições geométricas, assume-se sempre que isso será de alguma forma político, nem que seja uma forma de resistência, de reencenar os problemas internos da arte num território adverso – o que não é a mesma coisa que contribuir para mudar alguma coisa, nem que seja as simples condições da sua prática.

Dito de outro modo, e recuperando uma metáfora de Rosler, a arte contemporânea de topo tende a funcionar como uma máquina de produzir arte, independentemente do seu contexto. Quando muito, pinta-se a engenhoca com um camuflado ou umas cores mais “políticas” se o evento ou o comissário assim o exigirem.

Na prática, é uma arte perfeita para os tempos que vivemos, onde a intervenção política por parte dos cidadãos é residual e derrotada, limitando-se a uma espera tensa pelas próximas eleições. É uma arte que espera que as coisas melhorem, sem fazer nada de substancial por isso.

 

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Demo tapes da crise

Não fui à exposição sobre o SAAL em Serralves. É provável que não vá. Ando desde há muito tempo num boicote suave ao museu. Vou quando é trabalho ou me interessa muito. A mera curiosidade ou o “tens que ir ver” não me comovem. Pelo contrário fui ver a exposição sobre “O Lado B da Escola do Porto” que me pôs a pensar e a discutir e sobre a qual não consigo deixar de pensar. É comum nas discussões que tive o SAAL e o tal lado B serem postos em contraponto. Não sei se é apenas a necessidade de haver sempre uma simetria ou uma dialética onde na realidade há apenas uma sopa.

Em todo o caso, numa dessas conversas falou-se de um conjunto de arquitectos que nos anos 70 não se alinhavam com o discurso dominante das escolas que era maoísta. Essas pessoas eram conservadoras, monárquicas ou até e simplesmente apolíticas e apropriavam-se do discurso politizado, utópico, da época de um modo delirante e subversivo,usando para isso estratégias desenvolvidas pelos situacionistas, alguns dos quais chegaram mesmo a conhecer, tendo vindo ao Porto, etc. É mais um exemplo de como as ideias mudam subtilmente como viajam e acabam por não ter dono nem origem: as mesmas estratégias que servem de rastilho ao Maio de 68 são usadas como uma espécie de contra-revolução em Portugal.

E não surpreende. Desse situacionismo monárquico e conservador pode ver-se como descendente muito directo Miguel Esteves Cardoso. É desta zona que nos chega Portas e parte do poder que nos governa.

Outra parte chega-nos curiosamente do lado do maoísmo que (para mim que não sei muito sobre essas coisas) acaba por ser a gosma primordial  de onde rastejaram o Durão Barroso, o José Manuel Fernandes e a China actual, que nada ironicamente é vista como um modelo de competitividade-barra-capitalismo-orgulhosamente-totalitário por quem nos governa.

Assim, estas exposições acabam por nos trazer ao território onde começaram as nossas aflições actuais e é interessante.

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Reencenar

Uma coisa (entre muitas) que gostei na intervenção de Martha Rosler ontem na Fbaup: a ideia de reutilizar as estratégias antigas mas sempre com atenção ao contexto onde são reencenadas. Talvez seja essa a dimensão de que falta sempre falar a propósito do site specific; também deve ser time specific. As coisas mudam e portanto repetir um objecto ou uma estratégia é sempre distinto e exige sempre um pensamento. Por oposição, ela falava de Ed Ruscha ou Lawrence Weiner que tinham uma espécie de máquina de produzir arte, mais atenta ao seu próprio processo que ao contexto em que é encenado.

Os exemplos que deu foram as suas Garage Sales, gigantescas vendas de objectos em segunda mão organizadas em instituições de arte ao longo de décadas e ilustrando por isso mesmo as mudanças da arte enquanto instituição, de uma cena alternativa, marginal, a um negócio cosmopolita. Falava também das colagens que fez sobre a guerra, em primeiro lugar do Vietnam, agora sobre o Iraque, que ilustravam como o contexto não tinha mudado assim tanto, tirando a própria maneira como as imagens da guerra tinham começado a circular.

Tenho sempre uma admiração por estratégias que põem em curto-circuito a originalidade, a ideia que a qualidade de certas coisas, objectos e estratégias, reside em serem irrepetíveis. Para mim isso só as torna inúteis. Não me interessa a experiência estética como liturgia nostálgica, que no fundo reduz a crítica a sentenciar o modo “correcto” de referenciar.

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Dois anos

A julgar pela timeline do facebook, deve fazer uns dois anos que fui à minha última manif. Nem me lembro exactamente quando foi. Ia para demonstrar a minha discordância com este governo e as suas políticas e como é evidente não serviu de nada. Nem um nem outras mudaram o que quer que fosse – pelo menos para melhor.

Aqui é importante descriminar essa perda de qualidade em duas. Pioraram na medida em que degradaram a vida da grande maioria das pessoas deste país, tirando uma meia dúzia que ganham com a degradação. Pioraram também na própria qualidade com que a desqualificação é feita. Até para a destruição pura e simples seria precisa alguma competência.

Estou como tantos outros: já só saio à rua de braço no ar quando a coisa é comigo e com os meus. E às vezes nem isso. Porque já se percebeu que ninguém se demite deste governo. Alguns até põem o cargo à disposição mas o Primeiro Ministro não deixa. Só mesmo os mais próximos, os amigalhaços, como Macedo ou Relvas conseguem meter uma cunha e sair.

As manifestações eram o “quebrar em caso de emergência” da democracia. E poucas vezes houve tantas e com tanta escala como as que terminaram há dois anos. Não deram em nada e o problema não foi do formato ou da intensidade ou do não haver alternativas mas simplesmente de uma descarada quebra de contrato. É suposto um governo ligar ao que se passa cá fora. Se calhar nem vêem isso como uma quebra. Nunca lhes passou pela cabeça. Só os eleitores ainda assumem que há um contracto. No dia em que partiram o vidro, não havia martelo, machado e o extintor estava seco, vazio.

Fora isso, o que fazer senão esperar? Concentrar as energias em desalojar Seguro parecia mais fácil, já que o Governo está de pedra e cal. Daí a confiança desesperada, crispada, tensa que se tem em Costa. Não acho, por exemplo, que Passos deva contar com a prisão de Sócrates como uma espécie de vitória na corrida eleitoral. Boa parte do centro-esquerda moderado só se irrita ou preocupa com o ex-Primeiro Ministro porque pode estragar a eleição de Costa. Para outros eleitores, nem isso: Sócrates só estorva a possibilidade de desalojar de uma vez por todas Passos e Portas.

 

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Em directo da realidade mais famosa de Portugal

Mark Twain dizia que para uma criança com um martelo na mão o mundo inteiro se parece com um prego. O caso Sócrates demonstra mais uma vez que para o jornalismo português o mundo inteiro parece um reality show. Só interessa o que ele come, onde dorme, quem são os companheiros de pátio, etc.

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Lixo

Hoje no autocarro duas senhoras obviamente muito mal informadas a discutir o caso Sócrates, uma mais faladora que a outra, que se limitava a anuir. A faladora: “Até prenderam o motorista. Porque devia saber muita coisa. Alguém que anda a guiar o carro sabe muita coisa com certeza.” Repetiu três ou quatro vezes, com cada vez mais convicção. Agora prendem-se pessoas porque sabem muita coisa. Enfim. Passado algum tempo chegava à conclusão inevitável, que também repetiu umas tantas vezes: “O Governo dele [Sócrates] foi o pior de sempre. Escacou aquele dinheiro todo. Era por isso que ele devia ter sido julgado e não por isto!”

E pimba, assim numa penada se vai da corrupção à criminalização do “despesismo”.

A grande vitória de Passos/Portas (com a ajuda de Seguro, que nunca tentou sequer separar as duas coisas) foi essa fusão irreversível entre estado social e corrupção, sob o nome genérico de “despesismo”.

Durante algum tempo ainda se foi usando a expressão de modo ambíguo mas agora já se perdeu o medo. Hoje por exemplo numa entrevista no Expresso Diário ao economista Daniel Stelter opõe-se à austeridade deflacionista o “despesismo” baseado no endividamento público e dinheiro de borla do BCE – ou seja o “despesismo” é o Keynesianismo e o próprio Estado Social. É como dizer que de um lado está a seriedade e do outro a estroinice.

Assim, enquanto se desmantela o Estado Social privatizando-o, o que significa efectivamente legalizar a sua corrupção, na medida em que se está a desviar recursos públicos para ganho pessoal de apenas alguns, vai-se dizendo que toda a operação se destina a purgar esse mesmo Estado Social da corrupção. E só pode surpreender os mais néscios ou sonsos que a dita corrupção vá aumentando exponencialmente a cada passo do processo.

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Exemplos

Já por várias vezes falei com gente que diz que sim, que é preciso fazer qualquer coisa (política, revolucionária, etc.), que têm ideias (cartazes, intervenções, cenas), que só estão à espera (de mais gente, da ocasião certa, e por aí adiante). Depois digo-lhes: isso já está a ser feito ou já foi feito, conforme o caso. Acrescento que não há problema nenhum. Nestas coisas de intervenção pública não devia haver direitos de autor, apenas estratégias a usar na ocasião certa. Isto de ser obrigado a ser original só torna ainda mais difícil sair do sofá.

Em outras ocasiões, quando falo de exemplos históricos e actuais de intervenção mais criativa (a Oficina Arara, a Escola da Fontinha ou os Black Mask, entre outros) dizem-me que isso não teve consequências, ou que é só arte. Aí, começo a perder a paciência, porque percebo que não vale a pena discutir. Entramos no território em que tirando um dos membros desses colectivos aparecer do nada, à la Marshall Macluhan no Annie Hall, e colar um cartaz na testa da pessoa com cola de farinha, alisando-o com uma vassoura das antigas, não estou a ver como se poderá convencer a dita pessoa, que evidentemente confunde o seu próprio desconhecimento com a falta de consequências. A inconsequência é toda sua.

Eu não acredito na luta armada, nem na violência. Por temperamento e porque sei que o Governo será sempre melhor a fazê-la do que funcionários públicos, reformados e jovens precários (entre outras categorias possíveis). Porém também sei que tudo o que esteja abaixo da tal violência e da tal luta armada (e por vezes acima) será considerado como diletantismo, arte, e inconsequência. O que só sublinha para mim a sua relativa inutilidade.

Acredito mais nas coisas simples em que pouca gente acredita e que são uma seca interminável (é verdade): ir a reuniões, discutir, votar, debater, tentar arranjar algum compromisso com as decisões mesmo que não sejam na sua maioria as minhas. Não aprecio a intervenção política pela estética (para isso mais valia ser formalista e não gostar de arte política) nem pelo exercício físico (para isso já nado ou corro e se gostasse de andar à porrada metia-me no boxe ou no krav maga). Aprecio a intervenção política pelos resultados, que podem ser mínimos, e pelo incómodo que provocam, que também pode ser mínimo. Os exemplos que dei no meu segundo parágrafo são os meus favoritos.

 

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Ai!

Depois de toda a confusão do caso Sócrates, só me preocupa uma coisa. No Público, foram recolher sentimentos aos socialistas do Largo do Rato e todos eles receavam que o partido fosse colado a Sócrates durante a campanha das legislativas. Todos eles falavam da necessidade de distância em relação ao ex-Primeiro Ministro. Falou-se de cordão sanitário.

Em relação ao processo legal, tudo bem. O que me preocupa é que muito rapidamente se tentará confundir os alegados crimes de Sócrates com o seu famoso (e em larga medida mitológico) despesismo.

Sócrates não provocou a crise nem agravou a crise. Pelo menos não tanto como as medidas de austeridade que foram aplicadas com gosto e afinco pelo governo de Passos-Portas.

Despesismo é apenas um termo pejorativo para tudo o que não seja austeridade neoliberal, e enfia no mesmo saco gente que se aproveita indevidamente de dinheiro públicos e políticas keynesianas de estímulo à economia. Se o PS faz bem em distanciar-se de Sócrates no que diz respeito a este processo legal, faria ainda melhor em deixar desde já claro que essa distância não significa concordar com a tese que Sócrates foi a causa da crise, do endividamento, etc. Para isso, mais valia terem deixado o Seguro em paz.

É que, mesmo sem  esta confusão, já eram preocupantes os sinais que Costa andava a mandar de uma “austeridade de rosto humano”, consolidação orçamental mas com preocupações sociais, etc.

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Bater no Ceguinho

Já apanhei no vestuário do ginásio um mister músculo, daqueles que nem conseguem fechar os braços, a confessar embaraçado a um amigo que só não concorria à Casa dos Segredos porque a mãe achava que ele não tinha jeito para aquilo. Já apanhei outro (se calhar o mesmo) a dizer que o José Rodrigues dos Santos era muito melhor que o Dan Brown. A prova? Num dos livros explicava muito bem o que era a física quântica. E repetiu isso mesmo para o amigo que agitava o biberão das proteínas.

Porque escrevo isto? Para demonstrar que num parágrafo é possível fazer o mesmo que António Araújo tem andado a fazer a José Rodrigues dos Santos ao longo de meia dúzia de intermináveis posts. Li um e já não tenho paciência. Não me passa pela cabeça consumir a literatura light de José Rodrigues dos Santos e acho um desperdício gastar-se tanto tempo a esmiuçá-la.

É o género de crítica que diverte, é claro. Porque se dedica a dissecar até à exaustão uma coisa que não dá nem quer dar luta, que à partida se sabe que é má e na qual é fácil bater. Quando os holandeses exterminaram os Dódós também deve ter sido divertido.

Ainda vou tentando ler os textos de Araújo porque me insistem em shares no facebook que são de ironia fina, humor erudito, etc. Não vejo nada disso. Na maioria das vezes é uma versão pedante daqueles chico espertos que se divertem a denunciar relógios de pulso em filmes medievais – confundindo a função do crítico com a da anotadora. Na vertente mais académica, Araújo assume o papel daqueles arguentes que barafustam que a tese não cita um milhar de referências que só não são obscuras para eles mesmos. Não há paciência.

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Irra

Às vezes, depois de enviar um artigo para uma revista ou aceitar a participação numa conferência, pedem-me imagens. Eu digo que não quero. E insistem que sim.

Ora, se eu não as envio logo com o texto, é porque não acho essencial que o texto ou a conferência sejam acompanhados de uma imagem. Mas não adianta de nada repetir que não, não quero uma imagem. Respondem-me que o arranjo gráfico da revista ou do cartaz pede uma imagem.

Mas o que tem isso a ver comigo? Não sou um fotógrafo ou ilustrador; não tenho nem quero ter nada a ver com as possíveis decisões de direitos de autor de escolher uma imagem produzida por outra pessoa. Se me é indiferente que apareça uma imagem minimamente adequada em associação ao meu artigo ou conferência isso não significa que me sinta na obrigação de a fornecer. Dizer “não me interessa” não significa “sim, estou a trabalhar afincadamente no assunto.”

Assumo que uma revista ou uma conferência têm um director de arte ou pelo menos um designer que se possa responsabilizar pela escolha da dita imagem. Já me irrita andar a escolher imagens simplesmente para não me moerem mais a cabeça.

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Ditadores

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Quando se discute o Estado Novo, às vezes deixa-se de lado os detalhes mais óbvios. Por exemplo, ontem na aula de Crítica de Design falávamos de António Ferro e de como, através dele, se podia ligar directamente as vanguardas, o modernismo e os primórdios do design em Portugal ao Estado Novo, não apenas como uma estética decorativa, aplicada sem convicção, mas como uma colaboração activa e orgulhoso. E choca como é óbvio que Ferro admirasse abertamente a própria ideia de ditadura. Não era apenas anti-democrático (o que é relativamente comum hoje em dia) mas pró-ditadura.

Ferro não foi apenas uma espécie de ministro da cultura de Salazar mas, antes disso, um artista e jornalista respeitado. Não encaixava no estereotipo do artista ressabiado e isolado que se vinga através da política (como Hitler). Hoje parece estranho que gente das artes se associasse a uma ditadura, sobretudo de direita. Mas isso (como é óbvio) é apenas um preconceito. Não há nada nas artes que garanta à partida uma filiação política. Pode-se argumentar que há arte e artistas de direita, tal como há arte e artistas de esquerda. E há fascistas, como Ferro.

Muita gente da geração de Ferro não acreditava na democracia, não no sentido actual de deixar de acreditar ou de perder a fé em algo que já se defendeu, mas era essencialmente anti-democrática. Para Ferro, chamar a alguém “ditador” era um elogio como se pode ver no título do artigo que escreveu sobre Douglas Fairbanks. Não se tratava de dizer mal do actor mas de elogiar as suas capacidades de liderança e o seu carisma, que o tinham levado a participar na criação do estúdio United Artists. Chamavam-lhe “The King of Hollywood”. Ferro limitava-se a traduzir para a sua própria linguagem.

 

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Alta Pedrada

Hoje através do facebook chegou-me um anúncio do Instituto Superior de Agronomia para contratar um pedreiro usando uma bolsa de investigação. No site dos Precários Inflexíveis comenta-se com toda a razão que a “degradação do Ensino Superior e o seu empobrecimento também se faz da destruição da contratação e da utilização de fundos destinados à investigação para outros efeitos.” Infelizmente, é só uma parte do problema.

Não conheço a situação desse instituto mas se for como a do ensino superior que conheço, contratar quem quer que seja é um absurdo de regras e contra-regras. Para fazer as coisas mais simples a sensação é a de um pesadelo onde o ar cola e tudo acaba por ser outra coisa qualquer. Se desperdiçar uma bolsa de investigação para contratar um pedreiro parece absurdo. Tão absurdo é só poder contratar um pedreiro através de uma bolsa de investigação.

E já ninguém acha sequer estranho que a carreira de um artista plástico ou de um designer só possa prosseguir se for reconstruída à imagem de um biólogo ou de um físico nuclear. Mas boa parte da dita carreira é gasta a discutir como pode a arte ou o design ser investigação, etc.

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Discussões Públicas

Acabou o caso de censura na revista Análise Social 212 com a sua distribuição tal e qual (com ensaio e tudo) por deliberação do conselho científico do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

(A dita deliberação é o texto típico que costuma sair dos conselhos científicos. Um compromisso muito bem comprometido. Anula a decisão do director do Instituto procurando com que ele não perca demasiado a cara no processo. Por isso mesmo, houve quem dissesse, lá para as bandas do José Manuel Fernandes, que quem tinha perdido a cara era a direcção da revista, etc. Pois. Claro. Hã hã.)

A polémica vista daqui do lado das artes é curiosa na medida em que os argumentos pró e contra eram praticamente iguais. Muitos dos que defenderam o ensaio visual argumentavam que não pretendia ser científico. Que era uma secção à parte, não sujeita à revisão dos pares, etc. Quem o atacou disse quase a mesma coisa: que não não era científico e portanto não tinha nada que estar ali.

Dentro da produção científica na área das artes é bastante comum apanhar teses de mestrado e doutoramento com uma componente prática que consiste precisamente na elaboração de ensaios visuais. É também comum a discussão se isso pode ou não ser produção científica. Pessoalmente, acho que não devia ser. Não acho que um ensaio visual fique a ganhar ou ganhe mais legitimidade ao ser considerado científico. Da mesma maneira que não acho que algo perca legitimidade ao ser simplesmente “arte”, “design” ou “cinema”.

Assentar a legitimidade da pedagogia e da investigação nas artes numa espécie de equivalência entre estas e a ciência tem sido a norma mais ou menos inquestionada. O resultado: uma perda estúpida de tempo e recursos em tentativas de fazer uma espécie de google translate entre arte e ciência tenho como única consequência as artes serem vistas (na melhor das hipóteses) como uma ciência de segunda, sem qualquer tipo de especificidade própria.

Na hora H, quando se trata de colocar um mero ensaio visual numa revista de investigação académica, sem sequer pretender fazer dele investigação científica a sério, cai o Carmo e a Trindade. Mesmo para quem o defende é preciso compartimentar muito bem a coisa.

Eu defendo a presença de ensaio visuais em revistas académicas não porque pode até ser científico ou seja apenas acessório, sem magoar as coisas científicas que acompanha, mas porque as revistas puramente académicas, o próprio discurso académico, não fazem sentido algum se não tentarem fazer parte de uma discussão pública mais alargada.

Por mais ameaçadas que estejam, não preocupam tanto as artes ou as ciências sociais como essa discussão pública. Vivemos numa época onde o fascínio pela especialização é quase total. Em público, acaba por só ser verdadeiramente legítimo o discurso do especialista. Só o economista pode falar sobre economia, só o escritor sobre literatura, e por aí adiante. Mas isso implica um público mudo que não tem como responder a estes argumentos de autoridade excepto confiando cegamente neles.

Assim, as tentativas de produzir um discurso mais amplo, não necessariamente menos especializado mas mais público, devem ser louvadas.

Numa universidade não chega aprender uma especialização; é necessário aprender a argumentá-la na esfera na pública.

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Anda tudo ligado

Há muitos anos, acreditava-se que a única origem da riqueza era a terra. Qualquer outra maneira de enriquecer parecia anti-natural e até monstruosa. Quando a especulação financeira e o comércio (no fundo o capitalismo) se começaram a impôr foi necessário justificar isso em termos de uma ligação à terra, mesmo que simbólica. É particularmente interessante o relato do jardineiro inglês John Evelyn da sua visita em 13 de Agosto de 1641 à feira de Roterdão. A Holanda tinha acabado de inventar o mercado moderno e era um país rico e próspero. Na feira, vendia-se e comprava-se comida, utensílios, terras, mas sobretudo pintura:

“Chegamos tarde a Roterdão, onde estava a decorrer a feira ou mercado anual, tão guarnecida de pinturas (especialmente paisagens[ …]) que fiquei maravilhado. Algumas delas comprei e enviei para Inglaterra. A razão para esta quantidade de imagens tão baratas deriva da falta de terra onde aplicar o capital, tanto que é habitual um vulgar agricultor gastar duas ou três mil libras nesta mercadoria. As suas casas estão cheias delas, e vendem-nas nas feiras com muito lucro.”

Ao paisagismo holandês era portanto atribuída uma função simbólica: especulando não com terras mas com imagens de terras, garantia-se a estes pioneiros da nova economia do capitalismo uma legitimidade em termos do que se considerava ser a verdadeira riqueza.

Hoje em dia já se fala outra vez da terra como fonte de toda a riqueza (a ecologia, os recursos limitados, etc.) mas ainda é um discurso alternativo, subalterno em relação ao que se acredita ser a verdadeira fonte de riqueza: o investimento (em primeiro lugar) seguido da produção industrial (em segundo).

Já era altura de começar a pensar na economia em termos de um sistema que incluísse tanto as pessoas como o meio ambiente, e que (mais importante ainda) não isolasse a origem e a responsabilidade da riqueza e da prosperidade num único ponto de um todo mais vasto. Não se pode continuar a ver a economia como dependente apenas de quem produz, especula ou gere em detrimento de quem trabalha ou consome.

Vendo o mundo inteiro como um sistema, torna-se absurdo imaginar que a fonte da riqueza se limita à produção de bens e serviços. Recompensando apenas quem produz enquanto se penaliza quem consome até pode dar a ideia de responsabilidade (porque consumir é mau, pouco produtivo, etc.). Pode-se até incentivar o produtor-consumidor, que idealmente consome para produzir. Mas que adianta produzir apenas quando se quer produzir ainda mais? No limite, atingem-se situações em que se produz apenas para desfazer, como alguém que vai ao ginásio apenas para poder comer mais sem engordar.

Tudo isto acaba por resultar apenas de designações, “Produtor” e “Consumidor”, que conotam origem e fim, mas na verdade fazem parte de um ciclo. Produz-se porque há a expectativa de alguém que consome. Não adianta usar-se termos como “criador de emprego” porque só se paga a alguém para trabalhar quando há expectativas que esse investimento compensa, ou seja que alguém consome o que é produzido.

Em Portugal, por exemplo, onde o emprego acaba por ser pago pelos trabalhadores (através de propinas nos estágios curriculares, de impostos ou de descontos para a segurança social nos estágios profissionais, ou directamente no caso dos estágios não-remunerados) quem são então os criadores de emprego? Se são os trabalhadores que os pagam do seu bolso, a criação de emprego limita-se à ideia deste ciclo absurdo de gente a consumir o seu próprio emprego enquanto é activamente desencorajada a consumir tudo o resto.

(E do lado “produtivo” do ciclo temos empresários que pagam cada vez menos aos seus trabalhadores porque há cada vez menos gente para comprar os seus produtos.)

Tudo isto pode parecer muito abstracto mas é perfeitamente visível nos pormenores do dia-a-dia. Por defeito assume-se que beneficiar apenas quem produz, beneficia todos. Veja-se a maneira como se reagiu às intenções de António Costa de não baixar o IRC sem baixar também o IRS. No editorial do Público de ontem, concluiu-se que a decisão fragiliza a estabilidade fiscal e ignora a urgência da competitividade no domínio dos impostos. A estabilidade e competitividade fiscais, subentende-se, das empresas. Baixar os impostos de quem trabalha não beneficiaria ninguém, nem sequer os próprios trabalhadores. Não seria sustentável, etc. Mas o qual a sustentabilidade de apoiar sempre e incondicionalmente quem produz?

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Renault 5

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A primeira vez que me ocorreu a possibilidade de existirem universos paralelos ocorreu através do design automóvel. Eu era ainda muito novito, ainda nem tinha cinco anos. Nessa altura, o meu pai ainda guiava o nosso primeiro carro de família, um Renault 5 branco. Para mim, era o carro por defeito. Na altura, era um veículo pouco habitual. Na altura, ainda se viam muitos carros com o ar metálico, curvilíneo e cromado, dos anos 1950 e 1960. Por comparação, o Renault 5 parecia minimalista. Embora não fosse tão pequeno como um mini, parecia mais compacto, como se tivesse sido modelado numa só peça, talvez por causa da sua traseira “cortada” ou porque as suas arestas arredondadas davam mais a ideia de plástico do que de metal. Eu, naturalmente, não tinha como articular tudo isto; só o sentia por comparação com os outros carros que ia vendo.

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Um dia, vi passar um Renault 5, exactamente igual, com a diferença que tinha uma mala saída. Pareceu-me um cruzamento entre o do meu pai e um carro “sério”, como os outros. Nunca mais vi nenhum igual. Foi como se tivesse assistido a uma incursão de um universo paralelo. Na verdade, era só um Renault 7 fabricado em Espanha. Pela televisão, eu sabia que nos Estados Unidos havia automóveis radicalmente diferentes, maiores e mais compridos. Mas a ideia de que em Espanha, aqui mesmo havia carros apenas um pouco diferentes dos nossos, era uma coisa nova. Da mesma maneira, que as línguas variavam, que o castelhano parecia quase português, o design também mudava subtilmente de país para país.

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Lugares Comuns

Há coisas que se dizem mas não fazem diferença nenhuma. Por exemplo, quando alguém garante ao começo de uma intervenção que vai ser breve. Não serve para nada. Se não se cumpre, é uma treta. Na melhor das hipóteses serve como aviso de que o orador não tem muita consciência dos seus limites. Se, pelo contrário, realmente demorar pouco tempo, a afirmação não é apenas redundante mas paradoxal, na medida em que se gasta uma frase a dizer que não desperdiçamos frases. Do mesmo modo, continuar a insistir que tal exposição ou objecto de arte tem temas políticos, mas não é panfletária, doutrinária (ou que for) é um lugar comum igualmente débil. Mas pronto: é preciso garantir que roça os temas difíceis mas não fere ninguém. Podem trazer os filhotes e aquele tio-avô que ainda não se conformou com o 25 de Abril.

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Ser absolutamente moderno

Ainda a propósito da aula da qual falei aqui no outro dia, cujo tema era o uso da história como argumento crítico. Por um lado, debatíamos questões como o plágio, a apropriação e mesmo influência, que os alunos viam claramente como graves. Por outro lado, lembrei-lhes que eles eram treinados nas aulas para justificarem os seus trabalhos em termos de referências históricas e precedentes. Como navegavam eles entre a obrigação moral de não roubarem, mesmo que ao de leve, o trabalho de alguém, e a obrigação metodológica de terem sempre um precedente? Perguntei-lhes se era possível conceberem uma proposta ou metodologia de trabalho que desencorajasse ou secundarizasse o uso de referências e precedentes – reconheço que é difícil, pelo menos dentro do paradigma actual. Para o Modernismo e para as Vanguardas, pelo contrário, a tradição era uma coisa negativa. A minha primeira ideia foram os automatismos dos Surrealistas, que tornavam a criação numa espécie de linha de montagem. Cada pessoa acrescentava uma pequena peça a uma obra que não se sabia de onde vinha ou para onde ía. Poderíamos juntar coisas como a colagem. No fundo, voltávamos à velha discussão de Benjamin, de como retirar coisas da tradição, uma ideia contra-natura nos dias que correm.

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Arquitectos situacionistas cripto-monárquicos

À conversa a propósito da exposição do Pedro Bandeira sobre o “Lado B” da Escola do Porto, que estou ansioso por ir ver a Guimarães. Segundo me disseram, trata-se de reacções à politização extrema das décadas de sessenta, ao SAAL e ao resto, a coisas que estão agora na moda, sem que eu consiga perceber bem porquê, sabendo que seria precisa uma intervenção política mais substantiva. Em vez disso, inventaria-se o passado sem conseguir torná-lo útil ou actual. Oferece-se referências sem que ninguém as siga.

Portanto, tudo o que traga textura e profundidade que ponha em causa a mitologia e o vintage é bem-vindo. Um amigo dizia-me (o resumo é meu) que trata do trabalho de uma série de gente de direita, monárquica até, que não podia assumir isso durante os tempos quentes à volta da Revolução e que portanto fazia intervenções que de algum modo produzia versões caricaturais, levadas até ao absurdo das intervenções sociais em voga na época (os Aliados soterrados de areia, etc.)

Arquitectos situacionistas cripto-monárquicos. Tenho mesmo que ver isso.

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Parabéns

A data já passou mas hoje comemoram-se os dez anos do Passos Manuel. Foi um sítio de tal maneira essencial na minha vida aqui no Porto que parece mais antigo (ainda me parece impossível que este blog seja uns meses mais velho), talvez porque veio no seguimento do Aniki ou do Meia Cave, sítios onde eu saía enquanto estudava. Mas ainda assim, o Passos é outra coisa. Posso andar meses longe do Porto mas só me sinto outra vez aqui depois de lá ir.

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Mário Moura

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.

História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
Maus Empregos
Trabalho a Sério
Design & Desilusão
"Fatalismo ou quê?"
Liberal, irreal, social
Conformismo
Juventude em Marcha
A Eterna Juventude
Indústrias Familiares
Papá, De Onde Vêm os Designers?
Geração Espontânea
O Parlamento das Cantigas
Soluções...

História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
Vampiros, Zombies, Classe Média

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