The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Caixa de velocidade

Enquanto preparava a exposição que comissariei na Amadora, era frequente pedirem-me desculpa por aquilo ter sido preparado tão em cima da hora. E eu dizia que não: contactaram-me na segunda metade de Julho. Tive Agosto inteiro para ler sobre o assunto e definir os temas. Tive bastante tempo para pesquisar o espólio com que ia trabalhar. A montagem da exposição ocupou os últimos quinze dias. Por comparação, dentro do ensino superior das artes tenho visto exposições a serem preparadas e montadas em dias, sucedendo-se rapidamente, sem que na semana seguinte alguém se lembre sequer do nome.

Tornou-se num vício: há uma obrigação constante de mostrar trabalho e, por outro lado, graças a um acesso ilimitado a trabalho gratuito (estagiários e alunos) só é preciso pensar na logística, logo faz-se o máximo possível de exposições no mínimo de tempo, mais ainda do que pode ser absorvido decentemente pelo público – mas na ideologia corrente é mais importante produzir do que consumir, portanto não interessa que se produzam centenas de exposições que ninguém vê.

Mas percebo que quatro meses pareçam pouco: quando o Miguel Wandschneider me convidou em 2010 ou 2011 para fazer uma série de conferências sobre livros na Culturgest lembro-me de ter falado com bastante pormenor de uma exposição que estava a planear sobre uma gigantesca colecção de cartazes feitos por artistas. Também me lembro da designer Irma Boom dizer casualmente que passava três a cinco anos a planear um livro.

Dei conta que me habituei à pressa no novo ensino superior, a pedirem-me coisas de véspera ou até já atrasadas, porque há sempre um prazo qualquer, que na maioria das vezes nem faz sentido. Ou porque é uma coisa que acontece todos os anos na mesma altura ou porque não compensa existir – para fazer tarefas relativamente mecânicas como inscrições numa prova vale a pena pôr um prazo curto; para avaliar coisas complicadas caso a caso, como o trabalho em curso de um conjunto de alunos de doutoramento, só garante que tudo entope na mesma altura.

É daquelas coisas contra-intuitivas: a burocracia não imobiliza, antes pelo contrário; tudo mexe interminavelmente, mas de modo irrelevante e incompreensível (penso que li esta ideia pela primeira vez no livro de Hannah Arendt sobre o julgamento de Eichmann). A maneira mais simples e superficial de aparentar eficiência é ter sempre tudo a mexer; a maneira mais grosseira de produzir uma forma decorativa de rigor é multiplicar os prazos e avaliações.

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Filed under: Crítica

One Response

  1. “A maneira mais simples e superficial de aparentar eficiência é ter sempre tudo a mexer; a maneira mais grosseira de produzir uma forma decorativa de rigor é multiplicar os prazos e avaliações.;”

    – Na RTP havia um truque para aparentar que se estava a trabalhar: bastaria andar pelos corredores com uma cassete debaixo do braço. Neste momento, no ensino superior, basta que digas que estás a preencher relatórios de avaliação, fichas de unidades curriculares para avaliação, guias ECTS para avaliação, currículos degois para avaliação e deixam-te em paz. Mas ao contrário da cassete que te legitimava fazeres algo que nada tinha a ver com a cassete, com a burocracia não dá para escapar. Serve apenas de desculpa para não dares aulas em condições, de não fazeres acompanhamento de alunos, poderes prepara aulas “com tempo”, etc… na realidade é novamente uma inversão das prioridades.

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