The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Anda tudo ligado

Há muitos anos, acreditava-se que a única origem da riqueza era a terra. Qualquer outra maneira de enriquecer parecia anti-natural e até monstruosa. Quando a especulação financeira e o comércio (no fundo o capitalismo) se começaram a impôr foi necessário justificar isso em termos de uma ligação à terra, mesmo que simbólica. É particularmente interessante o relato do jardineiro inglês John Evelyn da sua visita em 13 de Agosto de 1641 à feira de Roterdão. A Holanda tinha acabado de inventar o mercado moderno e era um país rico e próspero. Na feira, vendia-se e comprava-se comida, utensílios, terras, mas sobretudo pintura:

“Chegamos tarde a Roterdão, onde estava a decorrer a feira ou mercado anual, tão guarnecida de pinturas (especialmente paisagens[ …]) que fiquei maravilhado. Algumas delas comprei e enviei para Inglaterra. A razão para esta quantidade de imagens tão baratas deriva da falta de terra onde aplicar o capital, tanto que é habitual um vulgar agricultor gastar duas ou três mil libras nesta mercadoria. As suas casas estão cheias delas, e vendem-nas nas feiras com muito lucro.”

Ao paisagismo holandês era portanto atribuída uma função simbólica: especulando não com terras mas com imagens de terras, garantia-se a estes pioneiros da nova economia do capitalismo uma legitimidade em termos do que se considerava ser a verdadeira riqueza.

Hoje em dia já se fala outra vez da terra como fonte de toda a riqueza (a ecologia, os recursos limitados, etc.) mas ainda é um discurso alternativo, subalterno em relação ao que se acredita ser a verdadeira fonte de riqueza: o investimento (em primeiro lugar) seguido da produção industrial (em segundo).

Já era altura de começar a pensar na economia em termos de um sistema que incluísse tanto as pessoas como o meio ambiente, e que (mais importante ainda) não isolasse a origem e a responsabilidade da riqueza e da prosperidade num único ponto de um todo mais vasto. Não se pode continuar a ver a economia como dependente apenas de quem produz, especula ou gere em detrimento de quem trabalha ou consome.

Vendo o mundo inteiro como um sistema, torna-se absurdo imaginar que a fonte da riqueza se limita à produção de bens e serviços. Recompensando apenas quem produz enquanto se penaliza quem consome até pode dar a ideia de responsabilidade (porque consumir é mau, pouco produtivo, etc.). Pode-se até incentivar o produtor-consumidor, que idealmente consome para produzir. Mas que adianta produzir apenas quando se quer produzir ainda mais? No limite, atingem-se situações em que se produz apenas para desfazer, como alguém que vai ao ginásio apenas para poder comer mais sem engordar.

Tudo isto acaba por resultar apenas de designações, “Produtor” e “Consumidor”, que conotam origem e fim, mas na verdade fazem parte de um ciclo. Produz-se porque há a expectativa de alguém que consome. Não adianta usar-se termos como “criador de emprego” porque só se paga a alguém para trabalhar quando há expectativas que esse investimento compensa, ou seja que alguém consome o que é produzido.

Em Portugal, por exemplo, onde o emprego acaba por ser pago pelos trabalhadores (através de propinas nos estágios curriculares, de impostos ou de descontos para a segurança social nos estágios profissionais, ou directamente no caso dos estágios não-remunerados) quem são então os criadores de emprego? Se são os trabalhadores que os pagam do seu bolso, a criação de emprego limita-se à ideia deste ciclo absurdo de gente a consumir o seu próprio emprego enquanto é activamente desencorajada a consumir tudo o resto.

(E do lado “produtivo” do ciclo temos empresários que pagam cada vez menos aos seus trabalhadores porque há cada vez menos gente para comprar os seus produtos.)

Tudo isto pode parecer muito abstracto mas é perfeitamente visível nos pormenores do dia-a-dia. Por defeito assume-se que beneficiar apenas quem produz, beneficia todos. Veja-se a maneira como se reagiu às intenções de António Costa de não baixar o IRC sem baixar também o IRS. No editorial do Público de ontem, concluiu-se que a decisão fragiliza a estabilidade fiscal e ignora a urgência da competitividade no domínio dos impostos. A estabilidade e competitividade fiscais, subentende-se, das empresas. Baixar os impostos de quem trabalha não beneficiaria ninguém, nem sequer os próprios trabalhadores. Não seria sustentável, etc. Mas o qual a sustentabilidade de apoiar sempre e incondicionalmente quem produz?

Anúncios

Filed under: Crítica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: